Em 2025, o Brasil terminou o ano com um recorde: cerca de 29 mil empresas nacionais venderam seus produtos e serviços para o exterior. Para uma fatia crescente dessas companhias, porém, exportar já não basta, o próximo passo é operar de dentro de outro mercad…
Em 2025, o Brasil terminou o ano com um recorde: cerca de 29 mil empresas nacionais venderam seus produtos e serviços para o exterior. Para uma fatia crescente dessas companhias, porém, exportar já não basta, o próximo passo é operar de dentro de outro mercado. E, para esse grupo, a Espanha se tornou um dos destinos mais promissores da Europa.
No ano passado, o país europeu cresceu 2,8%, o dobro da média da zona do euro, no melhor desempenho entre as grandes economias desenvolvidas do Ocidente. “Estamos em um momento especialmente favorável, tanto por razões econômicas quanto geopolíticas”, pontua Urbano Murillo Garcia, conselheiro econômico e comercial da Embaixada da Espanha em São Paulo.
Algumas das maiores empresas brasileiras já levaram suas operações para terras espanholas. Atualmente, 65 companhias de capital nacional estão instaladas na Espanha. Juntas, elas empregam mais de 2,6 mil profissionais. A presença delas indica um sinal importante: o investimento, antes concentrado em participações e aquisições, passou a incluir operações construídas do zero, já que das 60 iniciativas greenfield brasileiras executadas no país europeu desde 2003, 26 são posteriores a 2020.
Atualmente, o Brasil é o 22º maior investidor na Espanha, com um volume equivalente a 3,76 bilhões de euros; e o terceiro entre os países latino-americanos com maiores valores aplicados em solo espanhol, atrás apenas do México (sexto) e da Argentina (14º), segundo o Relatório Global Latam, divulgado pela Secretaria-Geral Ibero-Americana (Segib) em parceria com o ICEX-Invest in Spain, órgão que acompanha o investidor estrangeiro do primeiro contato à instalação.
Com escritórios em São Paulo e Brasília, a instituição guia a trajetória das companhias desde o primeiro contato até o pós-investimento, oferecendo informação setorial, orientação regulatória e tributária, identificação de parceiros e serviço de aftercare. Para empresas de tecnologia, há ainda programas de soft landing, como o Rising Up in Spain, que desde 2016 selecionou 16 startups brasileiras, 14 delas a partir de 2023.
Porta de entrada para vários mercados
A condição de membro da União Europeia é parte central da atratividade espanhola. Ao se instalarem no país, as empresas brasileiras passam a operar em um mercado com mais de 450 milhões de consumidores, com livre circulação de bens, serviços, capitais e pessoas, tudo a partir de uma única base regulatória válida para todo o bloco. “A posição geográfica amplia esse alcance, já que, por estar no sudoeste da Europa, o país funciona como ponte para a América Latina, o norte da África e o Oriente Médio”, reforça Garcia.
Para as companhias nacionais, há, ainda, um incentivo a mais. “A Espanha oferece a possibilidade de acessar a União Europeia a partir de um ambiente familiar e próximo, tanto cultural quanto empresarial”, avalia o porta-voz. Bancos, escritórios de advocacia e consultorias que atuam dos dois lados do Atlântico encurtam a curva de adaptação regulatória, jurídica e financeira que costuma travar a chegada de uma empresa ao continente europeu.
Garantias estruturais
A Espanha ainda oferece condições vantajosas no campo da infraestrutura. A cobertura de fibra óptica, por exemplo, chega a 95% dos domicílios e a rede 5G alcança 99% da população, incluindo 96% das áreas rurais. Mais de 55% da geração de energia vem de fontes renováveis e cerca de 69% da potência instalada do sistema é limpa, informação que faz toda a diferença para indústrias de alto consumo energético e para empresas com metas de descarbonização.
O ecossistema de inovação também ganhou densidade nos últimos anos. Desde 2021, startups espanholas atraíram mais de 17 bilhões de euros. Atualmente, o país reúne cerca de 400 empresas especializadas em inteligência artificial e ocupa a quinta posição europeia em investimento no segmento. O sinal mais importante da robustez nesse setor é a escolha da Comissão Europeia de sediar duas AI factories (ecossistema estruturado que transforma dados brutos em inteligência artificial escalável) em solo espanhol, com foco em áreas como saúde e ciências da vida, energia e serviços financeiros. Além da Espanha, apenas Alemanha e Polônia têm mais de um desses centros de desenvolvimento de aplicações de IA.
Cooperação Brasil-Espanha
É nesse desenho que setores em ascensão no Brasil encontram correspondência. Na área de saúde digital e biotecnologia, a AI factory de ciências da vida, em desenvolvimento, se soma a uma rede hospitalar reconhecida internacionalmente. Para as fintechs, Madri e Barcelona estão entre os principais polos europeus de capital de risco. No agronegócio, a convergência entre agricultura, biotecnologia, eficiência hídrica e digitalização aproxima dois dos maiores produtores de alimentos do mundo.
A cooperação já saiu do plano das intenções. Desde 2024, o Centro para el Desarrollo Tecnológico y la Innovación (CDTI) e órgãos brasileiros, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e o Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), aprovaram sete projetos conjuntos de pesquisa, com mais de 4 milhões de euros mobilizados (cerca de R$ 24 milhões), em agricultura, tecnologias de comunicação e inteligência artificial.


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