O primeiro acordo de licenciamento de conteúdo jornalístico para uma empresa de inteligência artificial no Brasil abriu uma fila de dúvidas práticas: o que a OpenAI pode usar, o que fica de fora e como isso muda (ou não) a relação do público com a info

O primeiro acordo de licenciamento de conteúdo jornalístico para uma empresa de inteligência artificial no Brasil abriu uma fila de dúvidas práticas: o que a OpenAI pode usar, o que fica de fora e como isso muda (ou não) a relação do público com a informação.

No novo episódio de Deu Tilt, o podcast do UOL para os humanos por trás das máquinas, Diogo Cortiz e Helton Simões Gomes recebem Murilo Garavello, diretor de conteúdo do UOL, para responder perguntas do quadro Help Desk sobre a parceria entre UOL, Folha e a OpenAI.

É importante esclarecer qual é o acordo. São dois acordos diferentes, mas muito semelhantes. Um é do UOL, outro é da Folha. São empresas diferentes, não é a mesma empresa. Então são dois contratos. E claro que os contratos se referem somente ao conteúdo produzido pelo UOL e pela Folha.Murilo Garavello

As questões respondidas pelo diretor foram feitas por leitores de UOL e Folha em textos publicados nos portais, posts em redes sociais e em vídeos do YouTube sobre o assunto. Uma das primeiras perguntas levantadas por leitores foi se comentários publicados nos sites entrariam no pacote. Garavello negou e disse que o licenciamento se limita ao que as redações produzem.

Outra dúvida recorrente gira em torno da privacidade: mensagens do serviço de correio eletrônico UOL Mail poderiam abastecer o ChatGPT?.

Não, os e-mails de vocês não são conteúdo produzido pelo UOL, então não vão alimentar o ChatGPT. É um licenciamento. É só o conteúdo do UOL, obviamente, que está licenciado.Murilo Garavello

Segundo o diretor, a remuneração é calculada como pagamento "por notícia usada". A OpenAI paga por um pacote que dá direito de usar o conteúdo nas diversas etapas do funcionamento de um modelo de IA.

Não, ela compra o pacote todo. Ela está pagando pelo direito de usar o nosso conteúdo tanto para mostrar em respostas quanto para treinar a IA deles.Murilo Garavello

Segundo o diretor, a OpenAI tem direito de usar trechos, mas não o texto inteiro, e, em geral, há um pedido para atribuir a informação à fonte, incluindo o link, dependendo do contexto.

Ainda assim, não há a expectativa de que a postura do chatbot vá ampliar o fluxo de tráfego para o portal.

Sobre valores, Garavello disse que o contrato o impede divulgar a cifra. Ele resumiu que o montante não é "tanto quanto o UOL gostaria de receber", mas também não é tão baixo a ponto de o acordo não valer a pena.

Helton Simões Gomes e Diogo Cortiz também levaram ao diretor um temor comum: o usuário pode confundir o ChatGPT com "fonte" e não com um canal de distribuição. Garavello avaliou que ferramentas como o ChatGPT melhoram rápido, mas que ainda é mais seguro confiar em jornalismo profissional.

O ChatGPT, assim como outras ferramentas de IA, está melhorando cada vez mais. Você pode acreditar um pouco no que ele te diz. Quanto mais ampla a sua pergunta, menor a chance de alucinação. Mas eu tenho a convicção de que os veículos de jornalismo profissional são mais confiáveis porque eles são feitos por humanos e eles vivem disso. Então ainda estamos num estágio em que confie mais no UOL do que no ChatGPT.Murilo Garavello

Quando o debate avançou para o impacto no jornalismo, leitores chamaram o acordo de "abertura de porteira" para precarização. Para Garavello, a IA já faz parte da rotina das pessoas e a saída é buscar parcerias capazes de remunerar conteúdo caro de produzir.

Existe uma tecnologia que é muito útil para todo mundo. A gente adotar uma postura de 'sou contra' e enfiar a cabeça embaixo da terra não vai melhorar a situação para ninguém. A postura mais correta é fazer parceria, receber um dinheiro pelo conteúdo que é caro para produzir e continuar entendendo como a gente pode usar essa tecnologia para melhorar o nosso jornalismo.Murilo Garavello

O diretor de conteúdo do UOL também respondeu a críticas sobre soberania digital e rebateu a ideia de venda de dados. O acordo, diz ele, não envolve informações pessoais nem dados dos jornalistas, mas, sim, licenciamento de conteúdo protegido por direito autoral.

Na reta final da entrevista, Cortiz e Helton levantaram um receio político de alguns leitores: se o conteúdo do UOL e de seus colunistas poderia moldar o viés do ChatGPT para um lado ideológico ou outro da esfera política. Garavello não vê o conteúdo do UOL mudando "esse tipo de curva", já que modelos de IA usam muitas fontes e o portal busca pluralidade.

E, ao olhar para o futuro, a conversa chegou às plataformas chinesas. Garavello afirmou que o UOL é "agnóstico" e veria com bons olhos qualquer empresa que quisesse usar conteúdo e remunerar a empresa como forma de incentivo ao jornalismo.

O delay na transmissão dos jogos já virou um dos personagens mais falados da Copa do Mundo de 2026. Rivaliza com o VAR e a pausa para hidratação. A essa altura, todo mundo já sabe: usar antenas digitais para ver as partidas na TV aberta evita ouvir seu vizinho gritar gol antes do narrador.

Mas, já que a transmissão por streaming veio para ficar e Globoplay e CazéTV exibem cada vez mais jogos, surge a dúvida: dá para acabar de vez com o delay para partidas na internet?