Anne DiasDa rede nacional às bolhas digitaisComo era um debate presidencial num mundo sem TikTok?Por Anne Dias
Dê de presentePrefira a Gazeta no GoogleAntes, os debates colocavam projetos de país frente a frente. Hoje, candidatos preferem bolhas controladas e cortes virais. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)Ouça este conteúdo
Marília Gabriela tinha nove candidatos, regras ainda pouco testadas e egos demais para administrar. Na noite de 17 de julho de 1989, nos estúdios da Band, a jornalista precisou interromper, repreender e chamar os presidenciáveis à ordem mais de uma vez.
Era o primeiro debate presidencial da televisão brasileira desde o fim da ditadura, e a única mulher no estúdio era justamente quem precisava impedir que futuros presidentes falassem todos ao mesmo tempo.
Voltei a esse debate várias vezes, e o que mais me prende são os homens sentados naquela mesa. Eles não eram apenas nove candidatos. Eram nove projetos de país, nove passados políticos e nove respostas possíveis para uma democracia que acabava de nascer.
Mário Covas tinha acabado de fundar o PSDB, sigla que por décadas seria a principal adversária do PT nas urnas. Leonel Brizola carregava quinze anos de exílio e um mandato cassado pela ditadura, apresentando-se como herdeiro do trabalhismo getulista e do “socialismo moreno”. Paulo Maluf ainda trazia o peso da ARENA, o partido que sustentou o regime militar por duas décadas e que, anos mais tarde, seria condenado por lavagem de dinheiro.
Lula estreava sua trajetória como candidato à Presidência. Tinha bastante cabelo, a barba já inconfundível e nenhum fio branco. Ronaldo Caiado, também no início da carreira, aparecia com o cabelo completamente preto. Quase quatro décadas depois, estaria novamente em um debate presidencial, agora em 2026.
Também havia uma ausência que conecta 1989 a 2026. Marília Gabriela abriu o programa anunciando quem tinha faltado. Entre eles estava Fernando Collor, favorito nas pesquisas. Liderava havia meses e escolheu não se expor ao ataque simultâneo dos oito adversários. Cinco meses depois, seria eleito presidente.
A lógica não envelheceu. Em 2026, Lula e Flávio Bolsonaro também preferiram não comparecer. Favoritos nas pesquisas, avaliaram que participar os exporia mais do que lhes renderia. O cálculo é o mesmo de Collor: quem lidera não precisa entrar em uma arena onde todos os outros têm interesse em atacá-lo.
Mas a diferença mais profunda entre as duas noites está em quem os candidatos tentavam alcançar.
Em 1989, o debate era transmitido para milhões, mas parecia falar para poucos. Discutia-se dívida pública, dívida externa, moratória e planos de estabilização numa linguagem dirigida a empresários, líderes partidários e formadores de opinião. O eleitor comum assistia de casa, mas não era exatamente o destinatário daquela conversa.
Era compreensível. O Brasil tinha recém saído de 21 anos de ditadura e vivia a instabilidade do governo Sarney, a hiperinflação e uma sucessão de planos econômicos fracassados.
Ninguém sabia que rosto teria a democracia recém-nascida.
De terno e gravata, todos tentavam vender moderação, técnica e preparo. Era como se cada um dissesse: “eu não tenho ideia para onde o Brasil está indo, mas sou o homem mais qualificado para ser o comandante”.
E não foi apenas o conteúdo dos debates que mudou. Mudou a plateia.
Em 2026, o debate ainda trata de política, mas já não fala apenas com quem entende de política. Ele precisa alcançar o eleitor que vai esbarrar em um vídeo no Instagram, no TikTok ou no WhatsApp, sem ter assistido a um minuto sequer do programa.
Foi assim que Renan Santos entrou no estúdio da Band carregando duas fraldas geriátricas com os nomes de Lula e Flávio Bolsonaro. A discussão mal tinha começado, mas a imagem já estava pronta para circular
Isso mudou até a preparação dos candidatos. Não basta dominar números ou apresentar um plano coerente. É preciso sair do estúdio com uma frase, uma imagem ou uma provocação que sobreviva ao programa.
O debate virou matéria-prima. O produto final é o corte.
Não é que o debate de 1989 fosse necessariamente melhor. Era técnico, solene e distante. O de 2026 é mais popular, mais acessível e fala diretamente com o cidadão comum. Mas cobra um preço: em vez de apenas convencer, o candidato agora precisa performar.




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