Livro sobre namoro adolescente ganhou adaptação cinematográfica, já em cartaz nos cinemas

Priorizar nos meus resultados Google Ao longo de boa parte de sua vida, o escritor Vitor Martins se perguntou quem realmente poderia protagonizar histórias fictícias: “Eu não conhecia nenhum escritor mais ou menos da minha idade fazendo literatura gay”, relembrou em entrevista a VEJA. Hoje, para encontrar um autor do tipo, basta olhar no espelho. Aos 35 anos, Martins tem cinco livros publicados. O primeiro, Quinze Dias, chegou às prateleiras em 2017 e não tardou para se tornar best-seller. Nove anos depois, o romance gay adolescente já vendeu 130 000 exemplares e atingiu uma honraria rara dentro do mercado nacional: sua própria adaptação cinematográfica, obra homônima que chegou aos cinemas do país em 18 de junho.

Até a existência concreta de Quinze Dias, Vitor via representações assustadoras de membros da comunidade LGBT+ na arte e na mídia. Quando não associadas à epidemia de HIV que assolou o Brasil nos anos 1980, as histórias submetiam seus protagonistas a sofrimentos inimagináveis, ainda que realistas: a expulsão do lar, a violência sem limites e a homofobia. Para encontrar alternativa mais solar, o jeito era ou recorrer a livros gringos, ou tomar as rédeas da situação.

“Naquela época, uns 12, 13 anos atrás, procurar literatura LGBT+ era de fato um trabalho, se você não quisesse ter que cavar em livros muito antigos que tinham personagens que pareciam que eram gays. Era difícil. Principalmente o tipo de literatura que eu escrevo, que é contemporânea e jovem”, conta. E o desafio ficava ainda mais pessoal: “Quinze Dias tem um protagonista que é gay, gordo e inseguro, mas as questões da história giram muito mais em torno das inseguranças dele com o próprio corpo do que com a sexualidade dele. Essa era uma história que eu era doido para ler e eu não conseguia encontrar em lugar nenhum”, conclui Vitor.

Em Quinze Dias, o jovem Felipe (Miguel Lallo) vê seu mundo virar de cabeça para baixo quando o vizinho Caio, sua antiga paixão de infância, pede para passar uma quinzena em sua casa. O protagonista, alienado do mundo externo devido ao bullying que sofre pelo sobrepeso, não lida nada bem com a notícia e se vê forçado a reconhecer a paixonite de outrora. A tensão amorosa é motivo de tensão — já a homossexualidade, não. Seguro de sua orientação sexual, Felipe tem outras inseguranças como grande desafio, especialmente o estabelecimento de uma relação próxima com Caio.

Otimista, Vitor acredita que a literatura pode ajudar leitores a imaginarem finais felizes e esperançosos para suas histórias de amor, sejam elas homossexuais ou não. Em sua prosa, também se destacam questões de maturidade e evolução pessoal, como em seu mais recente livro, Os 3 Desejos de Eugênio (Alt, 2025) que tem como personagem principal um homem já adulto em busca do amor, mas rodeado pelas responsabilidades e inseguranças de gente grande. “Quinze Dias já vai fazer 10 anos de publicação, então o leitor que me conheceu através dele lá no começo com 16 anos, hoje em dia está para fazer 26, que é a idade do que o Eugênio tem no livro. Os meus personagens foram crescendo junto com os leitores”, afirma. 

A trajetória deu tão certo que, em 2022, Martins se tornou finalista do Prêmio Jabuti na categoria de Romance de Entretenimento com o livro Se a Casa 8 Falasse, trama dividida em três núcleos passados dentro de três décadas na mesma casa.

O rótulo da premiação, no entanto, não lhe agrada. “É muito possível você escrever uma obra que vai entreter o seu leitor, mas ao mesmo tempo vai ter relevância cultural, vai oferecer material para diálogos e debates”. Categorizar a literatura em nichos pode ser um obstáculo para livros LGBT+ que estão tentando atingir públicos maiores para além da comunidade. Sobre isso, Vitor reforça: “O nicho LGBT diz respeito aos personagens, mas os leitores só precisam ter o coração aberto para conhecer outras vivências”.

A categoria, porém, não para por aí. Desde que Quinze Dias foi publicado, o mercado editorial tem abraçado histórias de várias das letras da sigla, escritas por nome como Clara Alves, Juan Jullian, Vinicius Grossos e Elayne Baeta. “Eu me sinto como aquela pessoa em um refeitório compartilhado que senta primeiro e guarda outros lugares na mesa para seus colegas. Ocupei meu lugar aqui, já cheguei, já montei meu prato, mas eu não quero almoçar sozinho. Eu quero estar na mesa com todo mundo e guardando esse lugarzinho ali, porque tem lugar para todo mundo nesse mercado”, diz.