O Conselho Superior do Ministério Público Federal (CSMPF) se reúne nesta sexta-feira (24), a partir das 10h, para analisar as menções ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, encontradas no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e expostas em um relatório da Polícia Federal (PF). Formado por integrantes do topo da carreira do MPF, o órgão tem entre suas atribuições autorizar a abertura de investigações contra o PGR se entender que há elementos para isso.

A expectativa, segundo apurou o Valor, é de que o caso seja arquivado e que Gonet siga à frente das investigações da operação Compliance Zero, sobre as fraudes no Master, ao lado do vice-PGR, Hindenburgo Chateaubriand, e de dois subprocuradores designados para compor uma força-tarefa nos casos que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF). O PGR criou a "força-tarefa" após virem à tona as mensagens com o objetivo de reduzir questionamentos à sua atuação no caso.

No início de setembro, o Conselho Superior abriu um processo administrativo para analisar a conduta de Gonet nas investigações do caso Master após a divulgações dos diálogos indiretos com Vorcaro.

Na sessão desta sexta, o órgão deve decidir se designa ou não um subprocurador-geral da República para investigar possível prática de crime comum atribuível ao procurador-geral da República. O procedimento segue o estabelecido pelo estatuto do Ministério Público da União (MPU).

O conselho é presidido por Gonet, no entanto, segundo apurou o Valor, ele não participará da votação, nem da sessão. O vice-presidente do Conselho Superior, Nicolao Dino, será o responsável por conduzir a sessão. Sem Gonet, devem participar apenas nove conselheiros, entre eles Hindenburgo, que é nome de confiança do PGR.

O procedimento começará com a abertura dos trabalhos por Dino, que passará a palavra ao relator do caso, Francisco Sanseverino. Em seguida, será aberta a votação aos nove conselheiros, em ordem reversa de antiguidade.

Compõem o colegiado o procurador-geral da República e o vice-procurador-geral da República (membros natos), quatro subprocuradores-gerais da República eleitos por procuradores de todo o país (Colégio de Procuradores) e quatro subprocuradores-gerais eleitos por seus pares (subprocuradores-gerais da República). Os conselheiros têm mandato de dois anos, permitida uma recondução. O corregedor-geral do MPF também participa das reuniões do Conselho, mas não tem direito a voto.

A presença da imprensa será limitada a um repórter por veículo de comunicação, por ordem de chegada e sujeito à lotação do plenário. Aqueles que conseguirem acesso ao local não poderão entrar com dispositivos eletrônicos. A sessão também será transmitida pelo canal do MPF no Youtube.

A relação de Gonet com Vorcaro foi exposta por meio de um relatório da PF que analisou diálogos encontrados no celular do ex-banqueiro com o ministro do STF Alexandre de Moraes. O documento foi produzido por determinação do relator do caso Master na Corte, André Mendonça.

No caso de Gonet, a PF identificou que o procurador-geral da República conversou com o ex-banqueiro por meio de um interlocutor, o advogado Ciro Soares, que trabalhava para Vorcaro. As mensagens revelaram que eles falaram sobre um convite para uma degustação de uísque e charutos em Londres, além de uma conversa para custear a passagem do filho de Gonet para o evento organizado por Vorcaro.

Nas mensagens enviadas a Moraes, o ex-banqueiro também teria pedido a proteção de Gonet e ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. Não se sabe qual foi a resposta.

Como mostrou o Valor, os episódios causaram mal-estar e constrangimento interno no órgão, que é o fiscal da lei e o responsável por denunciar autoridades investigadas perante o STF. Apesar disso, Gonet ainda goza de apoio entre seus pares devido a seu perfil conciliador que contribuiu para pacificar os ânimos na PGR após a gestão de Augusto Aras, que ficou marcada por disputas internas.

O relatório da PF foi usado por Mendonça para pedir a investigação de Moraes pelo plenário do STF. Em parecer, Gonet considerou o documento nulo. A Corte se reuniu no dia 15 de setembro para analisar o caso, mas o julgamento foi suspenso por um pedido de vista. Os ministros não terminaram de analisar uma questão de ordem apresentada, e o mérito do caso não chegou a ser votado.

Em manifestação encaminhada ao Conselho Superior no processo administrativo, Gonet classificou como “estapafúrdias” as acusações de que ele não deveria atuar no caso Master e chegou a mencionar os nomes das outras autoridades que também foram ao evento em Londres, realizado em 2024, ocasião em que ele admitiu ter se encontrado com o ex-banqueiro.

Na manifestação, Gonet cita que também estiveram no encontro os ministros do STF Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Moraes, além do ex-presidente Michel Temer (MDB). O evento foi realizado pelo Grupo Voto e pela revista eletrônica Consultor Jurídico.

O evento foi realizado em abril de 2024 na capital inglesa e, segundo Gonet, naquela época, o então banqueiro era uma figura desconhecida dele e não havia informação de que Master seria o patrocinador da iniciativa. “Até aquele momento, o sr. Daniel Vorcaro me era pessoa desconhecida. O Banco Master, que não constava como patrocinador do evento, até então, era, para mim, apenas uma instituição financeira em atividade aparentemente regular”, seguiu o PGR.

“Por questão lógica, já que a especulada suspeição projetaria efeitos sobre a minha atuação nos feitos respectivos, posso afirmar, em termos bastante diretos e simples, que não tenho com o sr. Daniel Vorcaro relação de amizade alguma, nem muito menos tenho interesse pessoal nos processos em que ele conste como parte ou investigado", afirmou o PGR.

No dia 18 de setembro, o jornal O Globo revelou que Soares enviou a Vorcaro, em 19 de junho de 2025, uma imagem que mostra Gonet em uma confraternização ao lado do então dono do Master em Londres. Na foto, Vorcaro aparece sentado próximo a Gonet, que exibe um charuto nas mãos e em frente a uma mesa com copos de uísque. Na ocasião, a assessoria de imprensa da PGR confirmou a autenticidade da foto e disse que não comentaria. A pessoas próximas, Gonet afirma que a foto foi tirada em abril de 2024, mas que não revelava nenhuma intimidade com Vorcaro.