Mesmo localizada no encontro de duas placas tectônicas, a Venezuela não conta com um sistema robusto de alerta de terremotos, como outras nações que também estão em áreas instáveis, e grande parte da população foi avisada dos tremores de quarta-feira (24) por um sistema do Google. Leia mais (06/26/2026 - 23h00)

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26.jun.2026 às 23h00

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Mesmo localizada no encontro de duas placas tectônicas, a Venezuela não conta com um sistema robusto de alerta de terremotos, como outras nações que também estão em áreas instáveis, e grande parte da população foi avisada dos tremores de quarta-feira (24) por um sistema do Google.

Para Robert-Michael de Groot, cientista físico do USGS (Serviço Geológico dos Estados Unidos), a alternativa da big tech é uma boa solução para nações que não contam com outras ferramentas para avisar seus habitantes de sismos, mas a construção de um sistema próprio é um investimento que vale a pena porque salva vidas.

O problema, diz, é a complexidade desse tipo de infraestrutura. "Construir um sistema completo, como nos EUA, levou décadas", afirma ele à Folha. O cientista é o líder da equipe de operações do ShakeAlert, o Sistema de Alerta Antecipado de Terremotos gerenciado pelo USGS.

"Nos EUA, os alertas vão para celulares, mas também para infraestrutura, reduzindo a velocidade de trens e abrindo portas de quartéis de bombeiros", diz. "É um desafio de infraestrutura muito amplo."

Em uma realidade como a da Venezuela, em crise econômica há mais de uma década e com outros problemas estruturais sérios na fila, como o que sujeita a sua população a constantes apagões e falta de água, a perspectiva pode ser ainda mais pessimista.

O desafio, no entanto, é generalizado, segundo ele. "São necessários muitos recursos. Não vejo isso como um problema específico da América Latina ou do Caribe", afirma. "No México, por exemplo, depois do terremoto de 1985, eles construíram um sistema de alerta, mas levou muito tempo e muitos recursos."

O tremor ao qual se refere alcançou magnitude 8 e matou milhares de pessoas —a cifra varia de 5.000, segundo o governo, a 45 mil, segundo o Serviço Sismológico Nacional do México. Fato é que o desastre impulsionou o país a construir uma rede de alertas.

Logo no ano seguinte, foi criado o Cires (Centro de Instrumentação e Registro Sísmico), e, em 1991, o sistema já estava operando. Apenas nos anos 2000, porém, após um tremor atingir Oaxaca, a ferramenta passou por ampliações que a deixariam mais eficiente.

"Para ter um sistema robusto de alerta precoce de terremotos, você precisa de muitas estações sísmicas detectando o movimento do solo e uma rede de comunicação eficiente para levar essa informação do ponto onde o tremor é detectado até onde ela será processada e distribuída", explica Groot.

Os desafios incluem também instruir a população sobre o que fazer. Em geral, esse alertas dão algumas orientações, como "abaixe-se e segure-se", por exemplo, e o cidadão precisa ter alguma noção de como se proteger. "Mesmo com o melhor sistema do mundo, se as pessoas não souberem como agir, ele não ajuda muito", afirma o cientista.

Até alcançar esse sistema, é positivo que se possa contar com a alternativa do Google. Às 18h04 locais de quarta (19h04 no Brasil), milhões de celulares Android receberam a seguinte mensagem na Venezuela: "É possível que você sinta tremores. Magnitude estimada inicial de 6,2 a aproximadamente 356 quilômetros de distância".

De acordo com Groot, a companhia usa os sensores de aceleração e localização dos celulares para detectar o terremoto, e então calcula quem deve receber os alertas. "Esses alertas têm sucesso limitado, mas ainda não sabemos os detalhes exatos porque precisamos falar com nossos colegas do Google", afirma.