Mercado movimenta R$ 60 bilhões ao ano à margem da economia formal e financia operação de facções

benefício do assinante

Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

benefício do assinante

Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Salvar para ler depois

Recurso exclusivo para assinantes

assine ou faça login

1º.ago.2026 às 23h00

Edição Impressa Diminuir fonte

Contrabandear produtos do Paraguai para o Brasil pode render lucros superiores a 500% ao crime organizado, o que tem feito com que facções criminosas estejam cada vez mais presentes no entorno de Foz do Iguaçu (PR), principal região de entrada de produtos ilegais no país.

A atividade movimenta bilhões de reais à margem da economia formal, sem recolhimento de tributos. Segundo órgãos de fiscalização, além de abastecer as organizações, o contrabando gera concorrência desleal com empresas que atuam legalmente e pressiona a arrecadação pública.

Atividade no passado restrita a sacoleiros ou muambeiros, como os compradores eram chamados, hoje o contrabando é essencialmente dominado por facções como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho), mas também por grupos menores que buscam ganhar espaço.

Um estudo produzido pelo Idesf (Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras), mostra que a margem de lucro do contrabando chega a 507%, em um mercado que movimenta R$ 60 bilhões anualmente, e que a prática se consolidou como uma das mais lucrativas frentes de atuação do crime.

O índice foi calculado a partir da diferença entre o custo estimado para trazer ilegalmente a mercadoria ao Brasil e o valor obtido com sua revenda no mercado clandestino, no qual a sonegação fiscal abre espaço para preços menores do que os praticados pelo mercado regular.

O contrabando de cigarros paraguaios é apontado como forma de financiamento de atividades dessas facções e até mesmo de grupos terroristas como o Hezbollah, conforme um relatório da década passada do Foundation for the Defense of Democracies, instituto de políticas dos EUA.

E é justamente o cigarro o produto contrabandeado que gera o maior índice de lucratividade, seguido por medicamentos (415% de lucro) —peptídeos e anabolizantes incluídos— e smartphones (390%). Também integram a lista dos itens mais apreendidos perfumes, defensivos agrícolas, brinquedos, pilhas e baterias, vestuário, informática, bebidas alcoólicas, pneus e cigarros eletrônicos.

O Idesf chegou a essa conclusão a partir da avaliação de que apenas entre 5% e 10% das mercadorias contrabandeadas são apreendidas, o que significa que a movimentação financeira pode ser ainda superior, já que agentes da Receita Federal afirmam que a fiscalização na ponte da Amizade, por exemplo, não chega a 2% do fluxo de pedestres e veículos —são 100 mil pessoas por dia cruzando a ponte que liga o Brasil ao Paraguai.

Além disso, não é necessário usar a ponte para contrabandear produtos proibidos. Uma das regiões de Foz do Iguaçu com forte atuação do crime organizado é a Vila Portes, que fica às margens do rio Paraná e tem vários portos clandestinos improvisados para o recebimento de barcos que partem de Ciudad del Este.

A diferença de preço entre os cigarros brasileiros e paraguaios é de 650%, mas o estudo considerou a logística do contrabandista, que tem custo médio de 22%. Ela envolve não só o transporte, mas também pessoal (motoristas, laranjas para transportar os produtos etc.), depreciação de patrimônio (veículos apreendidos em operações, muitas vezes carretas que custam mais de R$ 1 milhão), honorários advocatícios e uma espécie de "seguro-desemprego" —para os períodos em que a quadrilha reduz a atuação devido a operações mais amplas de repressão.

No início de junho, a Receita Federal e a PF (Polícia Federal) deflagraram a operação Sicarius para combater uma organização criminosa que atuava na região de Guaíra (PR), que faz fronteira com a paraguaia Salto del Guairá.

Segundo os órgãos, a suspeita era que o grupo praticava lavagem de dinheiro proveniente do contrabando de cigarros e agrotóxicos.

Um doleiro teria movimentado mais de R$ 375 milhões entre 2019 e 2024, controlando contas em nome de pessoas e de empresas de fachada. Só em suas contas bancárias pessoais a movimentação financeira foi de R$ 114 milhões no período.

"O contrabando não tem custo tributário, como ocorre com as atividades legalizadas, mas tem outros encargos, como o custo de não ser pego, o custo de ter um carro roubado e outros, intangíveis", disse o presidente do Idesf, Luciano Stremel Barros.