Impasse envolve vistos de agentes da PF e ocorre em meio ao desgaste entre os governos Trump e Lula e à aproximação dos EUA com a família Bolsonaro

Priorize VEJA no Google A crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos está dificultando a cooperação entre os dois países no combate ao crime organizado transnacional. Segundo informações do jornal ‘The New York Times’, o Departamento de Estado dos EUA reteve os vistos de dois agentes da Polícia Federal que deveriam trabalhar em Miami e Nova York com a Homeland Security Investigations e outras agências americanas. Em resposta, o Brasil também bloqueou o visto de um agente americano que seria enviado ao país.

A reportagem afirma que os impasses ocorrem em meio ao desgaste das relações bilaterais e à aparente disposição do governo Donald Trump de apoiar Flávio Bolsonaro (PL), candidato de direita que disputa a Presidência contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de outubro. O jornal também relata que os Estados Unidos recusaram um pedido de visita de quase uma dúzia de agentes da Receita Federal brasileira envolvidos em investigações sobre lavagem de dinheiro e contrabando de armas. A justificativa apresentada foi uma agenda cheia até novembro.

Segundo o jornal, os dois agentes da PF já haviam sido selecionados e avaliados por autoridades dos dois países no início do ano. Um deles substituiria Marcelo Ivo de Carvalho, expulso dos Estados Unidos em abril e acusado pelo governo Trump de ser alvo de uma “caça às bruxas política” por seu papel na prisão de um ex-chefe da inteligência brasileira.

A expulsão levou o Brasil a revogar as credenciais de um agente americano que trabalhava em Brasília. Agora, de acordo com autoridades brasileiras, o país condiciona a concessão do visto ao substituto desse agente à liberação dos vistos dos policiais brasileiros. As negociações entre os dois governos continuam.

O impasse ocorre apesar do histórico de cooperação entre Brasil e Estados Unidos em investigações sobre fraude, tráfico de pessoas, corrupção e outros crimes internacionais. Especialistas afirmam que a coordenação se tornou ainda mais importante diante do aumento dos recursos e do alcance geográfico das organizações criminosas latino-americanas.

A reportagem também afirma que a cooperação técnica entre os dois países continua. Um novo sistema de compartilhamento de inteligência permite que agentes aduaneiros alertem uns aos outros sobre contêineres suspeitos, ajudando a interceptar cargas ilícitas, como armas. O problema estaria na falta de coordenação política de alto nível.

O Brasil é descrito como uma importante rota de trânsito da cocaína destinada à Europa, à África e a outras regiões. Além disso, especialistas afirmam que grupos criminosos brasileiros usam o sistema bancário americano para lavar dinheiro e obtêm armas ilegais de estados dos EUA com leis permissivas.

Ao longo de reuniões e telefonemas no último ano, Lula apresentou a Trump propostas para ampliar a cooperação contra o crime organizado. Em maio, o presidente brasileiro entregou na Casa Branca uma proposta para combater as facções por meio do rastreamento de armas e recursos financeiros, mas, segundo uma autoridade brasileira, o governo americano não respondeu.

Especialistas apontam que a política de segurança dos Estados Unidos em relação ao Brasil ficou envolvida com a disputa política.