Tudo que vi, vivi e senti em São Januário neste domingo, diante do maior público do ano no futebol feminino

Priorizar nos meus resultados Google Antes que este texto seja confundido com uma declaração ao clube do coração, cabe uma explicação: sou paraense e torço pelo time do meu estado. O que vem a seguir é, sim, um relato profundamente pessoal, mas sobretudo de respeito ao que Vasco da Gama e sua torcida construíram para o futebol feminino nesta temporada de 2026. Feita a ressalva, podemos começar.

Cheguei ao Rio de Janeiro às 6h deste domingo. Ainda no carro de aplicativo, a caminho de São Januário, descobri que o motorista era vascaíno. Uma coincidência especialmente apropriada para aquele dia: horas depois, Vasco e Itabirito decidiriam, justamente ali, o título da Série A2 do Campeonato Brasileiro Feminino.

Infelizmente, ele não poderia ir ao estádio por causa do trabalho, mas sabia o horário da partida, o campeonato, a divisão e até o placar do jogo de ida: 3 a 1 para o Vasco sobre o Itabirito. Talvez tenha sido ali o primeiro sinal do que eu encontraria algumas horas depois.

Quando desci diante de São Januário, um estádio tão emblemático para o futebol brasileiro, ouvi funcionárias da operação chamando quem passava pela rua. “Só falta você, família. Todo mundo pela social hoje. Entrada gratuita. Vem, vem”, diziam.

Entrei. E tomei um choque. Eram 8.004 torcedores, o maior público do futebol feminino no Brasil em 2026 até o momento. Pessoas de todos os gêneros, famílias inteiras, casais, grupos de amigos. Bandeiras de organizadas, como a Força Jovem do Vasco, a presença dos Autistas Vascaínos e um bandeirão do Poder Feminino ajudavam a pintar São Januário de povo. E um povo muito feliz, como quem desfruta do que é familiar, como receber parentes queridos para um almoço de domingo.

No meio da arquibancada, Pedro Borges havia levado a afilhada. Ela, com toda a força que os pulmões permitiam, cantava:

“VAS-CO, VAS-CO, VAS-CO.”

Era a final da Série A2 do Brasileirão Feminino.

Do outro lado estava o Itabirito, SAF do interior de Minas Gerais que constrói um projeto ambicioso na modalidade. E as Gatas do Mato não pareciam intimidadas nem por São Januário cheio, nem pela desvantagem de 3 a 1 construída pelo Vasco na partida de ida. O Itabirito abriu o placar e mudou o roteiro que parecia desenhado para aquela tarde. No início do segundo tempo, Bruna Marques e Luana Rodrigues já haviam feito os gols que descontavam a vantagem vascaína no placar agregado.

Foi justamente quando São Januário aumentou o volume. A torcida pedia a virada, pedia a vitória, empurrava. E havia algo particularmente interessante até na corneta, elemento tão tradicional do futebol: torcedores sabiam os nomes das jogadoras, discutiam o jogo e apontavam quem queriam ver entrando no time.

Estamos falando de um clube grande, claro, com uma torcida nacional. Mas estamos falando também de uma partida da Série A2 do futebol feminino.

O Vasco, invicto na campanha até então, enfrentava um cenário de sufoco que ainda não havia experimentado naquela competição. Até que Ju Santos apareceu para fazer o gol que garantiu o título em São Januário, literalmente em São Januário. Porque, a poucos metros dali, o museu do clube expõe com orgulho conquistas e personagens da história do futebol feminino vascaíno.

A partir daí, foi festa. No fim da partida, formou-se uma fila de torcedores para tirar fotos com Meg e Pretinha, ídolas históricas do Gigante da Colina. E elas próprias pareciam, por alguns instantes, crianças torcedoras. Havia brilho nos olhos. Parei as duas, agradeci. O futebol feminino nos faz, em alguns momentos, quebrar a parede que tenta separar paixão, esporte, idolatria e profissão. Depois, me recompus, afinal, preciso registrar tudo.

Na saída, encontrei a delegação do Itabirito e conversei com o diretor Breno Mendes e com o CEO Maycon Pereira. Havia, naturalmente, a sensação de que o título poderia ter viajado para Minas Gerais. Mas havia também reconhecimento, e até orgulho, pela festa construída pelo torcedor vascaíno. Ouvi mais de uma vez: “é bom para o futebol feminino festas como essas”.

Segui andando e encontrei Bea, atacante vascaína. Depois, Simone Lourenço. O encontro com Simone pareceu me transportar no tempo. Um ano antes, eu havia visitado um treinamento do Vasco no CT Artsul, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Naquela ocasião, ela me falava, em tom de otimismo, sobre os planos do clube para voltar a ser protagonista da modalidade. Um ano depois, estávamos em São Januário e o Vasco era campeão brasileiro da Série A2.

Olhei ao redor e vi torcedores eufóricos, marcas apoiando as Meninas da Colina e, sobretudo, um senso de pertencimento muito forte. A sensação de que aquela equipe também fazia parte de algo muito maior, daquilo que significa ser Vasco da Gama. E senti, de alguma forma, orgulho daquilo.

Talvez porque acompanhar o futebol feminino também seja acompanhar processos. Ouvir planos quando eles ainda parecem distantes, visitar treinos longe dos grandes palcos, conhecer quem trabalha para construir projetos e, algum tempo depois, estar presente quando parte daquilo se materializa diante de milhares de pessoas.

Cheguei ao Rio às 6h com um motorista vascaíno que sabia tudo sobre aquela final, mesmo sem poder assisti-la. Horas depois, saí de São Januário entendendo um pouco melhor o porquê. Foi um domingo que estará para sempre na minha memória. Parabéns, Vasco.

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