Segundo pesquisa, 50% veem medida como tentativa de ajudar a população e 47% enxergam pretexto para mandar no Brasil

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23.jun.2026 às 13h00 Atualizado: 23.jun.2026 às 17h26

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A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas encontrou respaldo de 59% dos brasileiros, que concordam, total ou parcialmente, com a classificação.

Ao mesmo tempo, três em cada quatro (74%) rejeitam a possibilidade de os EUA atuarem contra integrantes dessas facções em território brasileiro sem autorização do governo nacional, segundo pesquisa Datafolha.

O aparente paradoxo revela menos uma adesão à política externa americana do que um retrato da pressão exercida pela violência organizada sobre a vida cotidiana dos brasileiros, tema que tem tudo para pautar as eleições de 2026.

Isso porque o problema da segurança e da criminalidade é considerado o maior do país para 16% dos brasileiros, atrás de saúde (20%) e à frente da economia (11%), segundo pesquisa Datafolha de dezembro de 2025.

Além disso, levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública de maio passado apontou que 41% da população brasileira vive em áreas onde percebe influência do crime organizado.

A pesquisa de agora ouviu 2.004 pessoas com 16 anos ou mais em 17 e 18 de junho, em 139 municípios. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos. O levantamento está registrado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sob o número BR-09956/2026.

No total, 83% dos brasileiros afirmam ter conhecimento da nova classificação dos EUA para as duas maiores facções do crime organizado no Brasil, e 72% se consideram bem (35%) ou mais ou menos (37%) informados sobre o assunto.

Para o sociólogo Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o apoio à classificação das facções como terroristas expressa "um grito de socorro de uma população que teve suas vidas sequestradas e rotinas alteradas pela atuação de facções".

"É o sentimento de que ao menos alguma coisa está sendo feita", afirma ele ao comparar o caso com a avaliação positiva de 57% dos cariocas sobre a Operação Contenção, em que 122 pessoas foram mortas nos complexos da Penha e do Alemão.

Ao mesmo tempo, a percepção sobre a real intenção do governo Donald Trump com a classificação está polarizada. Enquanto 50% concordam que os Estados Unidos querem combater as facções para "ajudar a população brasileira", praticamente a mesma proporção (47%) afirma que Washington usa o problema como "desculpa para mandar no Brasil".

A crença na mão amiga norte-americana é maior entre quem prefere o PL (81%) e declara voto em Flávio Bolsonaro (77%). Já a suspeita de que a classificação é subterfúgio para ingerência dos EUA no país é maior entre quem prefere o PT (69%) e declara voto em Lula (63%).

Por outro lado, a ideia de ameaça concreta à soberania nacional rompe essas fronteiras, e 74% discordam que os EUA tenham o direito de atacar integrantes de facções dentro do Brasil sem avisar o governo brasileiro.

Para a cientista política Maria Hermínia Tavares, professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (Universidade de São Paulo) e colunista da Folha, o resultado mostra que as posições estão fortemente aderidas a preferências políticas e por candidatos.

"A interrogação é o que vai pesar mais na hora do voto: a percepção de que essas organizações são terroristas ou de que os EUA estão se intrometendo onde não deveriam", questiona ela, para quem os dados da pesquisa também evidenciam que a polarização convive com um forte sentimento de autonomia nacional.