Desempenho dos candidatos, controle emocional e repercussão de momentos-chave podem influenciar a disputa pelo voto indeciso
O confronto direto entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições deve colocar à prova duas estratégias distintas: de um lado, a defesa da experiência e do histórico de governo do presidente; de outro, o discurso de mudança adotado pelo senador. Para especialistas ouvidos pelo Terra, os debates oferecem oportunidades para ambos, mas também expõem fragilidades que podem ganhar repercussão para além da transmissão.
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Flávio chega à nova etapa da disputa numericamente à frente. No primeiro turno, recebeu 47,03% dos votos válidos, ante 45,16% de Lula, uma diferença de 1,87 ponto percentual. O resultado torna a disputa acirrada e aumenta a importância de conquistar eleitores que ainda não definiram seu voto.
Para Achiles Batista Ferreira Junior, especialista em marketing político e gerenciamento de campanhas eleitorais e professor da Uninter, o segundo turno costuma tornar os debates mais arriscados para quem lidera e mais necessários para quem busca reduzir a distância. Na avaliação dele, Lula precisa transmitir segurança, experiência e estabilidade, enquanto Flávio pode explorar críticas às gestões petistas e apresentar argumentos em favor de uma mudança de rumo.
“Um aspecto a considerar é que os debates não se encerram quando termina a transmissão na TV e no rádio. O resultado mais importante está no pós-debate e no conteúdo gerado a partir dos confrontos. Dificilmente os debates elegem alguém sozinhos, mas podem consolidar uma liderança ou abrir espaço para uma virada quando a disputa está acirrada, como a que estamos presenciando no Brasil”, diz Achiles.
A professora de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Mayra Goulart também identifica uma diferença na posição discursiva dos candidatos. “Lula, tanto no programa de governo quanto no debate, tem uma diferença em relação a Flávio. Ele se colocou no lugar da responsabilidade, da defesa das instituições. Isso é um limite discursivo, porque Flávio, mesmo sendo de um partido muito enraizado na política, que já governou o País e governa vários estados e cidades, se coloca como candidato da mudança. Esse é um fator limitador do discurso de Lula, que o coloca em relativa desvantagem.”
Na avaliação da cientista política, no entanto, essa desvantagem discursiva de Lula é contrabalançada pelos questionamentos que envolvem diretamente Flávio. O senador é investigado por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção ativa e passiva, em um inquérito sobre o financiamento de Dark Horse, filme sobre a trajetória de seu pai, Jair Bolsonaro. A apuração busca esclarecer a negociação de recursos com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
“Flávio tem evidências de envolvimento em um dos maiores escândalos de corrupção da história [caso Master]. Isso pesa contra ele, assim como o fato de nunca ter ocupado um cargo no Executivo”, argumenta Mayra.
O histórico de governo de Lula também pode ser uma vantagem para o presidente, segundo avalia José Paulo Martins Júnior, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF). Ele aponta que o petista tem mais realizações para apresentar e vê no confronto uma oportunidade de comparar os dois períodos de governo. Flávio, por outro lado, pode explorar a diferença de idade e tentar associar juventude a renovação.
Esse contraste também é apontado pelo cientista político e professor da Uninter Luiz Domingos, que considera a idade um possível fator de desequilíbrio. Para ele, os debates exigem rapidez de raciocínio, desenvoltura e controle dos impulsos. Ao mesmo tempo, a experiência de Lula em campanhas presidenciais pode ajudá-lo a lidar com a pressão de um confronto direto.
"É possível que um candidato se saia melhor em um debate e o outro, no seguinte, o que pode acabar neutralizando os efeitos dos confrontos. Acredito que será uma disputa palmo a palmo. Os dois têm boa oratória e demonstram segurança", analisa.
Além das diferenças de posicionamento, os dois candidatos devem enfrentar questionamentos sobre os respectivos campos políticos e históricos de governo. Domingos avalia que Lula tende a explorar temas relacionados à gestão de Jair Bolsonaro (PL), pai do senador, enquanto Flávio deve direcionar críticas ao atual governo. Entre os assuntos que podem aparecer estão corrupção, economia e casos que geraram controvérsia nos dois campos.
O professor pondera, porém, que a preparação prévia das campanhas pode reduzir o impacto dos ataques. Com assessorias treinando respostas e estratégias para contornar perguntas embaraçosas, os candidatos podem optar por rebater as críticas ou redirecionar a conversa para temas em que se sintam mais confortáveis.
Nesse contexto, o desempenho dos candidatos não depende apenas do conteúdo das respostas, mas também da forma como reagem à pressão. Para Achiles, em disputas polarizadas, os debates dificilmente convencem eleitores já fiéis, mas podem influenciar quem ainda tem dúvidas. “O público considerado decisivo costuma ser o dos indecisos e moderados”, afirma o especialista. "Isso se torna uma arma interessante no processo de conquista de corações e mentes do eleitorado", acrescenta.
Para José Paulo, apesar da idade de Lula representar um risco justamente por tornar mais visível a diferença física entre os dois candidatos, o presidente mantém capacidade de articulação e considera que o principal valor dos debates está na possibilidade de comparar diretamente os dois nomes, algo que, segundo ele, ainda não ocorreu nesta campanha.
"Lula é um político mais preparado, mas o seu principal risco é a diferença de idade com Flávio. Enquanto o petista tem mais de 80 anos, o senador tem menos de 50, e o vigor do adversário pode reforçar a percepção de renovação entre os eleitores. Por outro lado, o debate também é uma das principais oportunidades de virada para Lula, pois permite comparar o histórico de realizações de seus governos, desde 2002, com o da gestão de Jair Bolsonaro, que inclusive foi o único candidato que já perdeu uma tentativa de reeleição. Essa comparação pode favorecer [o petista]", diz José Paulo.
Mesmo com eleitorados já identificados com os dois candidatos, os especialistas veem espaço para que os debates influenciem uma parcela do público. Achiles afirma que a polarização reduz a possibilidade de grandes mudanças, mas não elimina a chance de conquistar eleitores indecisos ou moderados.
O impacto, porém, não se limita à audiência que acompanha o programa ao vivo. Os trechos que circulam depois nas redes sociais, nos aplicativos de mensagens e na cobertura jornalística podem ampliar o alcance de uma resposta ou de um momento de confronto. Achiles destaca que o resultado de um debate também depende do conteúdo produzido a partir dele.
José Paulo considera que esse efeito pode ser relevante diante da diferença estreita entre os dois candidatos. Mesmo que a audiência direta não seja elevada, cortes e repercussões podem chegar a pessoas que não assistiram ao encontro completo. O desempenho de cada um, portanto, pode influenciar a disputa para além do horário de transmissão.




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