Atriz falou a VEJA sobre estrelar Hombre al Agua ao lado do mexicano e do porto-riquenho; filme será exibido neste domingo, 6

Priorize VEJA no Google Débora Nascimento estreia no Festival de Veneza neste domingo, 6 de setembro, quando será exibido o filme Hombre al Agua, novo filme protagonizado e dirigido pelo mexicano Gael García Bernal, que também conta com Ricky Martin no elenco. Em entrevista a VEJA, a atriz falou do convite para o longa e dos bastidores do projeto internacional. O filme ainda não tem previsão de estreia no Brasil.

Confira a entrevista:

Como surgiu o convite para Hombre al agua, após o Gael García Bernal ter visto o seu trabalho em Olhar Indiscreto? Foi emocionante, demorou um pouquinho para cair a ficha sobre o convite. Eu estava no Rio de Janeiro, num dia de sol, e uma produtora me ligou perguntando: “Débora, você conhece o Gael García Bernal?” Eu respondi: “Claro! Que artista no mundo não conhece o Gael?”. Ela falou: “Então, ele está aqui no Rio de Janeiro, já conhece o seu trabalho e gostaria muito de encontrá-la para apresentar um projeto.” Eu disse: “Como? Espera aí, não é pegadinha?”. Encontrei o Gael e ele me contou que já havia visto Olhar Indiscreto, que gostava muito do meu trabalho e me explicou sobre o projeto, que ainda estava em desenvolvimento. Quando ele me contou a história da personagem e do filme, achei muito interessante a metalinguagem e os temas que ele iria tratar. Falei: “Nossa, estou dentro!”. Ao longo dos anos, ele foi desenvolvendo a personagem Fabiana já sabendo que eu faria parte do elenco. Me senti muito privilegiada do meu trabalho chegar a um talento como o dele. Depois ele viu Pacificado (2019) também, que ganhou vários festivais. Foi aquela sensação de estar fazendo a coisa certa e de que minhas escolhas estão me levando às pessoas que admiro.

Como foi acompanhar o desenvolvimento dessa ideia inicial até agora, que o filme vai chegar ao Festival de Veneza? O Gael está produzindo, dirigindo e atuando. Ao longo desses anos, nos tornamos amigos e fui acompanhando as dificuldades da produção para o filme acontecer, ainda mais um projeto desse porte. Ver ele escalando o elenco e todo mundo chegando junto foi muito lindo de observar. Aprendi muito percebendo as nuances de um projeto tão grande. O filme trata de temas muito sensíveis de forma alinhada e com humor. Entender essa cabeça de direção dele e depois, na hora da cena, ver aquele gênio e monstro da atuação dividindo o set comigo… Aprendi bastante, foi muito rico.

No filme vocês chegam a contracenar mesmo? Entendi que tem uma metalinguagem com uma novela que ele assiste na história. Sim, contracenamos o tempo inteiro! Minha personagem é a Fabiana, uma atriz brasileira que fala espanhol. O filme começa com uma telenovela que o Camilo (personagem do Gael) assiste, e ele tem esse primeiro contato com ela através da TV. Depois, a Fabiana chega ao México para fazer um laboratório para um próximo projeto junto com a família dele. Tem todo esse jogo de cenas. E como é uma telenovela brasileira no filme, ela fala em português. Acho muito especial levar a nossa linguagem brasileira para um projeto internacional.

Sentiu alguma diferença na forma de trabalhar por estar em um projeto com um mexicano? Não senti diferença na forma de trabalhar, existe mais o desafio do idioma, mas é um desafio que me instiga e me coloca para frente. Fui tratada com muito carinho por toda a equipe. Eu era a única pessoa falando português ali, mas me senti muito à vontade. O elenco reuniu nomes importantes de vários países: porto-riquenho, mexicano, uruguaio, argentino… Foi a América Latina sendo abraçada. Estar entre eles foi um privilégio. A coxia e o backstage eram tão interessantes quanto a frente das câmeras. Saio com muito mais repertório.

A sua personagem tem uma livre inspiração na Marisa Letícia (1950-2017), primeira esposa do presidente Lula, assim como há um personagem que tem inspiração no Lula. Como foi encarnar essa personagem com esse peso político tão forte? O filme traz referências de pessoas reais, como a Marisa e o Lula, mas é uma livre inspiração. A proposta não era criar uma mímica ou cópia idêntica da Marisa Letícia. Fiz um estudo profundo, o que foi maravilhoso porque pude aprender ainda mais sobre essa trajetória política de inegável importância no nosso país e na América Latina. Mas, dramaturgicamente, a história fala muito mais sobre liderança, representatividade, identidade, afeto e parceria. Trazer essa história dentro da linguagem da telenovela — que faz parte do nosso Brasil profundo — foi um combo incrível. Como brasileira, fiquei muito feliz.

Chegou a perguntar para o Gael o porquê da inspiração nesse casal específico da política brasileira? Estudando o roteiro, nem precisei perguntar. Você sente que além da questão política e desses nomes de peso, temas como cumplicidade, sindicalismo, resiliência e amor são centrais no filme. Faz todo o sentido dentro da história.

O longa aborda temas como manipulação e poder. Qual foi o tema que mais te atraiu nesse projeto? Identidade e representatividade. A busca por entender quem você realmente é, o que quer no mundo e qual narrativa conta sobre si mesma — ou deixa que os outros contem sobre você. A minha personagem, Fabiana, personifica exatamente essa questão das narrativas, do entendimento dos próprios medos e desejos.

Ricky Martin também está no elenco. Como foi trabalhar com ele? Ele foi um ótimo parceiro de cena! Super presente, atencioso e trocando bastante. Eu trabalhei com o Ricky Martin ator, não com o superstar. Além dele, temos atores incríveis como o Jorge Salinas — que é tipo um Tony Ramos no México —, a Ana de la Reguera, Esmeralda Pimentel. O Gael pensou em cada nome. O Ricky chegou muito simples, confortável, e a troca com ele foi ótima. E tem um carisma lindo!

Você teve no início da carreira um pezinho no mercado internacional com O Incrível Hulk, e agora chega ao Festival de Veneza com este projeto promissor. O que este momento representa para você? Por que essa guinada internacional agora? Honestamente, não faço escolhas de projetos baseada em geografia. Na época de O Incrível Hulk, foi incrível, fomos para o Festival de Toronto. Ao longo da carreira, fui escolhendo histórias e personagens que me atravessavam e me desafiavam — já fiz filme argentino com o José /Osvaldo Rossi, filme italiano, produções brasileiras e agora este mexicano. Se um projeto não for interessante para mim, independentemente do país ou da língua, eu não aceito. Fico muito feliz de estar no Festival de Veneza, assim como fiquei quando fomos com Pacificado para San Sebastián e ganhamos prêmios com um filme todo em português. Estar em Veneza tem um simbolismo inegável. Não dá para fingir naturalidade; estou vivendo um sonho e colhendo os frutos do que plantei, sem nunca deixar de ser uma atriz brasileira.

Torce por novos convites fora do Brasil? Depende do projeto, mas os convites acontecem. Assim que acabar a novela que estou fazendo agora, creio que já vou viajar de novo para trabalhar. Tenho convites tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. As produções têm o seu tempo de maturação, mas se faz sentido para mim, eu vou.

Tem algo desses novos projetos que possa adiantar? Tem um projeto em Paris, no qual vou falar três línguas (francês, inglês e português), e outro nos Estados Unidos que será rodado entre o Rio de Janeiro e Nova York.

Quais são as suas expectativas para a recepção do filme no festival? Veneza respira a tradição e o glamour do cinema. Estou muito curiosa para ver como o público vai receber o filme e a nossa “telenovela” dentro da história. É um filme muito bem amarrado, que trata de temas profundos e sensíveis com inteligência e humor. É uma obra muito especial.