Mudanças no habitat e a pressão gerada por predador podem ser as responsáveis por 'calar' alguns deles
benefício do assinante
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
benefício do assinante
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.
Salvar para ler depois
Recurso exclusivo para assinantes
assine ou faça login
Edição Impressa Diminuir fonte
O fato provavelmente não é um grande consolo para quem se incomoda com o cricrilar dos grilos no meio da madrugada, mas, em diversos casos, a própria evolução está atuando para tornar esses insetos mais discretos, ou mesmo totalmente silenciosos. É isso o que mostrou um estudo de pesquisadores brasileiros, que mapeou o intrigante fenômeno da perda do canto dos grilos ao longo do tempo evolutivo.
De acordo com o estudo, publicado neste mês na revista especializada Journal of Systematics and Evolution, o desaparecimento da capacidade de produzir e de ouvir esses sons aconteceu múltiplas vezes ao longo da trajetória evolutiva de um dos subgrupos de grilos que é comum no Brasil, o dos Oecanthidae, que tem mais de 1.400 espécies espalhadas pelo mundo.
O trabalho, conduzido por pesquisadores da USP e do Museu Nacional de História Natural da França, revelou ainda que existe um elevado grau de "coordenação" entre os sistemas associados ao canto –os grilos que perdem a capacidade de cantar tendem a perder também a de ouvir–, embora existam espécies dotadas de combinações aparentemente mais enigmáticas, apelidadas de "ouvintes silenciosos" e "cantores surdos".
É possível que mudanças no habitat e a pressão trazida pelos predadores sejam responsáveis por "calar" certos grilos ao longo da evolução.
Embora seja natural usar termos como "canto" e "audição" para descrever os comportamentos desses insetos, a maneira como eles produzem e captam sons é muito diferente do que vemos no caso dos seres humanos e outros mamíferos.
Quando cantam, os grilos não usam a boca, mas esfregam as asas anteriores (da frente) uma na outra, num processo chamado estridulação. "Funciona como se fosse um reco-reco", explicou à Folha o principal autor do estudo, Lucas Denadai de Campos, do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da USP.
Algumas espécies de grilos que estão perto de estradas podem reduzir o canto quando passam carros, e essa resposta depende da experiência prévia com o ruído
Entre as estruturas especializadas das asas, conta ele, destaca-se a fileira estridulatória, uma veia da asa anterior direita que tem pequenos dentes na parte de baixo. "É essa veia que é raspada na palheta, uma estrutura da asa anterior esquerda, para produzir o som do ‘cri-cri’."
Não por acaso, o termo "palheta" é o mesmo usado para o objeto que guitarristas e outros músicos de instrumentos de corda usam para tocar. Outro termo derivado da música humana é o nome de uma região das asas chamada "harpa": são veias acessórias diagonais que lembram o instrumento e que ajudam a amplificar o som. Outra dessas estruturas é o espelho, com veias que formam uma região arredondada.
Se o som não sai da boca, tampouco chega a uma orelha: os grilos ouvem com a ajuda das patas da frente. É nelas que podem estar presentes o tímpano externo e o tímpano interno, responsáveis pela recepção acústica.
Por último, outra variável importante é o comprimento das asas. "Ele indica se existem estruturas responsáveis pela produção do som ou não. Asas muito curtas geralmente não as possuem. E existem espécies que nem sequer têm asas", conta o pesquisador.




0 Comentário(s)
Deixe seu comentário