Yuri Escobar e Joanna Côrtes levam restaurante à capital paulista, preservando a cozinha autoral e a hospitalidade que marcaram a casa na Bahia

Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Durante anos, todo dia 19 era reservado para um pequeno ritual. Yuri Escobar e Joanna Côrtes preparavam um jantar, escolhiam uma música e anotavam as receitas em um caderno. Sem perceber, construíam ali a base do que, tempos depois, se transformaria no Dêze.

O restaurante recebeu esse nome em referência ao número dezenove, data em que começaram a namorar, e que continua carregando a mesma intenção daqueles encontros: fazer da refeição um momento vivido com calma.

“Sempre que o calendário marca 19, desde sempre, independentemente de ser aniversário de ano ou de mês, a gente cozinhava. Então, sempre nessa data a gente inventava um menu diferente. Fazia uma entradinha e algum prato e íamos anotando tudo”, lembra Joanna.

A origem do restaurante explica por que Yuri e Joanna raramente falam do Dêze apenas como um negócio. Antes de existir um chef e uma gestora, havia um casal que encontrou na cozinha uma forma de criar memórias juntos.

Essa dinâmica continua orientando o projeto, agora instalado em uma casa de 1911 no Jardim Paulista, onde Yuri conduz a cozinha enquanto Joanna acompanha a operação, o serviço e a experiência dos clientes.

Os caminhos que levaram os dois até a gastronomia, porém, não foram lineares. Ambos mineiros, se conheceram em Belo Horizonte, quando dedicavam parte da rotina à prática de crossfit.

Yuri já havia estudado gastronomia e estagiado em grandes restaurantes, mas interrompeu a carreira para competir e dar aulas. Joanna cursava Engenharia de Produção e só mais tarde migraria para a Nutrição.

“Chegou um determinado momento em que falei: ‘Gente, esse trem não dá dinheiro’. Depois eu e a Joanna saímos completamente do crossfit e fomos seguir nossas profissões. Eu voltei para a gastronomia, e ela voltou para a nutrição”, conta o chef.

Os jantares mensais também começaram a mudar. As receitas ficaram mais elaboradas, Yuri aprofundou o repertório técnico e os dois passaram a imaginar um restaurante próprio.

A ideia inicial era transformar cada prato criado nos dias 19 em um item do futuro menu, mas o tempo mostrou que o projeto havia amadurecido junto com eles.

“Quando fomos olhar as anotações de cinco anos antes, percebemos que não tinha a menor condição de colocar aquilo em um cardápio”, ri Joanna.

“Fomos mudando, deixando tudo mais técnico e fazendo pratos mais autorais, criativos, e que tinham mais a nossa cara”, completa Yuri.

A oportunidade de tirar esse plano do papel surgiu durante uma viagem a Caraíva, disputado refúgio rústico no litoral Sul da Bahia. Encantados com a possibilidade de viver perto do mar, eles imaginaram um restaurante pequeno, instalado no quintal de casa, onde receberiam poucas pessoas por noite.

“Queríamos alugar uma casa com um jardim e fazer um restaurante só com reserva para umas dez pessoas.” O projeto tomou outro rumo quando encontraram o terreno onde o Dêze seria construído do zero.

Em Caraíva, onde praticamente tudo chega de barco e carros não circulam, abrir um restaurante significava enfrentar uma logística pouco comum. A obra dependia de carroças e canoas, o abastecimento de ingredientes exigia viagens semanais e a falta de energia ou de água fazia parte da rotina.

“Toda semana eu tinha que ir para Porto Seguro fazer a compra do restaurante. Pela falta de insumo, comecei a aprofundar minha criatividade. Eu tinha só aquele ingrediente e precisava me virar com aquilo”, lembra Yuri.

Foi nesse contexto que fermentações, curas e técnicas de conservação passaram a ocupar espaço na cozinha do chef, que chegou a participar da 5ª temporada do MasterChef Profissionais, exibida pela Band em 2023, em que conquistou o 3º lugar.

“Várias receitas desse menu de São Paulo eu aprendi na necessidade.” Joanna acredita que esse período moldou o casal para praticamente qualquer desafio.

“Caraíva nos preparou muito para vir para a capital paulista. A logística de lá era extremamente complexa. Acho que isso calejou a gente.” Yuri resume a experiência em poucas palavras: “Nos deixou ainda mais corajosos”.