Bruno Cardoso Reis, Madalena Meyer Resende, Henrique Burnay e João Diogo Barbosa discutem as propostas geopolíticas de von der Leyen e a aproximação ao Canadá. E ainda a falta de coesão nos BRICS+.

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Este é o Cinco Continentes, sempre ao sábado na Rádio Observador e também em podcast. Hoje vamos reeditar um saudoso programa. É uma espécie de regresso do Café Europa aos Cinco Continentes e, por isso, Bruno Cardoso Reis, temos de reunir os notáveis. Conosco, Madalena Meyer Resende, à distância, em estúdio, Henrique Porné e também João Diogo Barbosa. Sejam todos muito bem-vindos. Tenho uma nobre missão de vos moderar. Vocês às vezes são um bocadinho indisciplinados. É aquilo que me dizem.

Que ideia. Mas é realmente uma reunion, ou seja, um reencontro da velha equipa sempre vencedora do Café Europa.

Exacto. Portanto, muito obrigado por este convite.

Obrigado. O Café Europa durou menos do que a União Europeia. Vale a pena dar o mote já.

Nós tínhamos tão boas ideias sobre como meter a União Europeia.

E quando durava, já para dar o mote do tema de hoje, durava menos do que um discurso de von der Leyen.

É verdade. Henrique, fizeste aqui a ponte perfeita. Vamos começar pelo discurso sobre o estado da União Europeia. Para quem nos ouve, eu e o Bruno já falámos sobre isso com a Sofia há dois, três episódios, a representante da Comissão Europeia em Portugal, que agora está em Albânia a fazer lá um trabalho e vai continuar por lá durante alguns meses. Mas o que é concretamente este discurso e qual é o verdadeiro peso político e o que pode ditar a nível da agenda real daquilo que são os 27?

É preciso perceber. O discurso do Estado da União nasce com o presidente Barroso e pretendia ser uma maneira de prestar contas, dizer de onde a União Europeia vinha, para onde é que ia, na perspectiva do presidente da Comissão Europeia. É também coincidente com o crescendo do poder do Parlamento Europeu e, portanto, prestar contas ao Parlamento Europeu, mas com mensagens para todas as instituições da União Europeia, nomeadamente os Estados-membros e, além disso, o Parlamento. Com von der Leyen tem evoluído, tendo em conta a natureza de von der Leyen e, portanto, é muito uma exibição da presidente da Comissão e do seu poder. Se há uma característica que von der Leyen tem tido é de preencher todos os vazios que há, e na União Europeia, em matéria de poder há muitos vazios, e portanto von der Leyen tem preenchido muitos desses vazios. Depois, aquilo é sobretudo ouvido pela bolha, isto é, por quem se interessa por estes temas. Von der Leyen, aliás, todos os anos tenta arranjar uns ganchos para conseguir alguma visibilidade. Este ano arranjou três pessoas que estavam presentes e uma quarta, que não estava presente, mas que foi evocada para, no fundo, termos casos pessoais para associar ao discurso.

É mais uma cópia dos Estados Unidos.

Exato. Agora, marca, embora com von der Leyen particularmente, também por isso, muito do que é ali dito depois nem sempre é completamente consequente, porque von der Leyen é muito mais política que os seus antecessores no exercício daquele cargo.

Sim, eu estava aqui a ouvir o Henrique e o Bruno e a pensar que, na verdade, se calhar o discurso do Estado da União é como as melhores e piores coisas da política europeia, uma invenção anglo-americana que foi importada para Bruxelas. Porque se pensarmos, o discurso é um bocadinho diferente do discurso do Estado da União americano, no sentido em que esse discurso tem o presidente americano a dizer: "Nós fizemos isto e a nossa união está fabulosa." O discurso do Estado da União Europeia é um bocadinho: "Nós vamos tentar fazer isto durante o próximo ano." Desde logo, porque é muito difícil um presidente da Comissão Europeia apresentar o discurso do ano anterior como um rolo de sucesso. E von der Leyen reconheceu isso em vários pontos, a dizer: "Não conseguimos fazer tanto quanto esperávamos." E, portanto, nesse sentido, se calhar é um bocadinho mais como o discurso do rei da abertura do Parlamento no Reino Unido, tem essa faceta de vamos tentar fazer isto, desde logo porque von der Leyen, não tendo exatamente os mesmos poderes que a Rainha de Inglaterra, também não consegue convencer os Estados-membros a implantar toda a sua agenda. Mas é sobretudo um discurso que tenta marcar a agenda. É também um discurso que neste modelo que o Henrique falou na sua versão von der Leyen, um discurso que cansa, porque von der Leyen todos os anos apresenta muitas ideias, muita energia, uma tentativa de ocupar espaço. No ano a seguir não consegue comprovar que ocupou esse espaço, que tem sucessos legislativos e, portanto, vai cansando. Eu vi um deputado em off num dos jornais europeus a dizer que este tinha sido o discurso com menos energia desde a presidência Barroso, ou seja, mesmo do lado da presidente von der Leyen, começa a cansar. Este é o sexto discurso do Estado da União, acho eu, e a própria começa a reconhecer em determinados pontos que precisamos dos Estados-membros para fazer isso, desde logo no ponto de vista do gold plating e da simplificação legislativa, mas também na questão de Israel e Palestina. Há um cansaço de von der Leyen, há um reconhecimento de que se calhar a Europa precisava de fazer mais, precisava de um discurso que fosse implementável e a Comissão Europeia não o consegue fazer sem os Estados-membros. E acho que essa foi a grande nota do discurso este ano.

Já agora, desculpa, porque foi uma coisa que foi sentida por toda a gente. Eu estava em Estrasburgo e um dos primeiros comentários que tinha era esse mesmo, que o discurso foi menos entusiasmante ou menos vigoroso do que em anos anteriores. E outra coisa, desculpa só sublinhar isto, é que de facto von der Leyen tem esta limitação, que alguns de nós gostam muito, que a Comissão pode propor, mas depois quem decide são os Estados-membros e o Parlamento. E, portanto, o limite daquilo que a Comissão pode fazer é propor, é lançar as coisas. E em muitos casos diz: "Bom, nós propusemos, agora um ano depois o Parlamento e o Conselho ainda não resolveram."

Mas isso tira energia ao discurso.

Eu, francamente, acho que a von der Leyen é

É uma presidente muito eficaz, com as limitações que o lugar tem e utiliza muito bem este discurso, faz discursos bastante bons. Gostaríamos muito nós que em Portugal a oratória política e o nível de ambição e de visão estratégica estivesse ao nível dos discursos da von der Leyen. Agora, é evidente que ela utiliza isto inclusive, foi também um dos comentários que eu ouvi, é um comentário pertinente, que muitas dessas coisas não dependem dela, não dependem da comissão ou dependem no sentido que ela está a dizer que vai propor isto, mas depois os Estados e o Parlamento têm de aprovar. Mas isso também é um jogo político, até o próprio presidente norte-americano faz. É verdade, como dizia o João Diogo, até constitucionalmente o Estado da União, nos Estados Unidos, é suposto ser uma prestação de contas, mas os presidentes também utilizam obviamente para anunciar a agenda para o próximo ano. Ainda agora ouvimos o Donald Trump anunciar, não foi no Estado da União, foi no Estado da Desunião, que é o estado permanente dos Estados Unidos atualmente, mas como parte da campanha eleitoral, dizer que vai oferecer cinco mil dólares a todos os americanos. Ninguém sabe como, nem donde e também não vai ser ele sozinho que vai fazer isso. Depois tem este problema que também já debatemos várias vezes, que é verdade que é um discurso que é um bocado uma lista de compras de muitas coisas, são muitas prioridades, mas o problema também é que nós queremos sempre ter as nossas prioridades lá. Só que nós somos 450 milhões, há múltiplos setores que se não estiverem lá as prioridades, quer dizer que aquilo já não interessa nada final e que vai ser esquecido. Também temos que perceber um pouquinho essa dinâmica. No fund