[RESUMO] Marcos Nobre discute, em entrevista à Folha , as engrenagens do que chama de Partido Digital Bolsonarista, tema de livro recém-lançado, e afirma que a posição alcançada na hierarquia do movimento é desafiada permanentemente por aliados, o que significa que o ex-presidente e seus filhos podem perder a posição de liderança no futuro. Leia mais (07/04/2026 - 07h00)

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João Gabriel de Lima Doutorando em política comparada na Universidade de Lisboa e repórter colaborador da Folha

[RESUMO] Marcos Nobre discute, em entrevista à Folha, as engrenagens do que chama de Partido Digital Bolsonarista, tema de livro recém-lançado, e afirma que a posição alcançada na hierarquia do movimento é desafiada permanentemente por aliados, o que significa que o ex-presidente e seus filhos podem perder a posição de liderança no futuro.

As críticas ásperas de Michelle Bolsonaro aos enteados Flávio e Eduardo, que culminaram com a saída da ex-primeira dama da presidência do PL Mulher, não representam só uma lavagem de roupa suja na ultradireita brasileira. Criticar aliados em redes sociais é uma prática inerente a uma corrente política que se estabeleceu no meio digital e funciona de acordo com regras de disputa de hegemonia, guardando semelhanças e diferenças importantes com um partido formal.

Essa tese é desenvolvida em "O Partido Digital Bolsonarista", livro organizado por Marcos Nobre e Ana Claudia Teixeira. A obra pode ser baixada gratuitamente no site do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento).

Em entrevista à Folha, Nobre, professor de filosofia política da Unicamp e diretor-geral do CCI/Cebrap (Centro para Imaginação Crítica), explica como essa estrutura funciona e fala sobre os possíveis impactos de um partido digital com tendências autoritárias na democracia brasileira.

Como funciona o que vocês chamam de Partido Digital Bolsonarista? É algo que vai muito além de reproduzir postagens. Existe um processo de construção coletiva até o momento em que uma postagem se estabiliza como um padrão aceitável para aquele ecossistema digital. Esse processo de construção envolve várias coisas, como a estética e o conteúdo da postagem.

Claro que tem tentativa de manipulação. As pessoas estão tentando levar as outras para algum lugar, mas não significa que seja um bando reproduzindo alguma coisa automaticamente simplesmente porque alguém da cúpula disse.

Ao mesmo tempo, também não é uma coisa caótica, em que cada pessoa vai fazendo o que bem entende, sem um sentido. Há uma tentativa de dar unidade para aquele ecossistema e nós mostramos que é uma unidade típica de partido.

No livro, examinamos alguns casos. Um deles é a disputa entre Eduardo Bolsonaro e Nikolas Ferreira.

Eduardo acusou Nikolas de não defender enfaticamente sua ação nos Estados Unidos e não denunciar fortemente a condenação de Jair Bolsonaro. Sim. Nikolas tem mais seguidores que Eduardo e um patamar elevado de engajamento. Agora, o número de seguidores não é automaticamente traduzido na sua posição no partido.

Em 2020, um outsider, Nikolas, tenta entrar no partido em uma posição alta. Ele parte de um capital digital e tem o apoio de Eduardo. No Partido Digital Bolsonarista, a cúpula precisa reconhecer quando existe alguém com um potencial político muito alto. A melhor coisa é acolher essa pessoa na hierarquia. A partir do momento em que Eduardo o acolhe em 2020, Nikolas não é mais outsider. Em 2022, quando começa a disputar posições na hierarquia, já o faz como um insider.

Ele se dá bem na disputa com Eduardo, não? Eduardo vai para um autoexílio nos EUA, que é uma tentativa de valorizar a sua posição na hierarquia sem ter mais o pai como fiador, a partir dos relacionamentos que ele supostamente tinha na Casa Branca.

Ao desafiar Eduardo, Nikolas, o maior exemplo de bolsonarismo sem Bolsonaro, está como que dizendo: "A gente chama de bolsonarismo, mas, na verdade, é uma congregação conservadora, e eu sou o líder". Ao mesmo tempo, ele dá apoio a Flávio Bolsonaro. Ele é um caso vitorioso: briga com Eduardo, mas não vai romper com o candidato a presidente do Partido Digital Bolsonarista.

Existe bolsonarismo sem Bolsonaro nesse partido? O bolsonarismo é maior que o líder que deu nome a esse movimento. Não necessariamente a família Bolsonaro tem o topo da hierarquia. Quando a gente faz uma analogia com o partido tradicional, fica fácil ver. O partido tradicional tem congressos e eleições em que as pessoas conquistam cargos e mandatos.