Participação chegou a 52,74% em agosto; especialista estima custo adicional de R$ 48 bilhões por ano a cada ponto da Selic
Participação chegou a 52,74% em agosto; especialista estima custo adicional de R$ 48 bilhões por ano a cada ponto da Selic
de Brasília 1.nov.2026 (domingo) - 6h00 Priorize o Poder no Google
A participação dos títulos públicos remunerados por taxas flutuantes, sobretudo os vinculados à Selic, atingiu 52,74% da DPF (Dívida Pública Federal) em agosto de 2026, o maior percentual da série histórica iniciada em dezembro de 2000. O resultado amplia a exposição do governo federal às oscilações da taxa básica de juros.
Em setembro, o percentual recuou para 51,60%, segundo dados divulgados pelo Tesouro Nacional na 5ª feira (29.out.2026). Mesmo com a queda, mais da metade da dívida federal permanece vinculada a taxas flutuantes, o equivalente a R$ 4,84 trilhões.
O percentual de agosto superou o pico anterior de 52,06%, registrado em abril de 2003, segundo levantamento do assessor de investimentos Cristiano Henrique Luersen, sócio da Wiser/BTG Pactual. Ele disse que esse recorde vale para a dívida federal total, que inclui a dívida externa.
Só na dívida interna, a parcela ligada à Selic chegou a 69,7% em abril de 2003, contra 53,6% em setembro. “Para mim, a tendência pesa mais do que o recorde de um mês: no fim de 2023, essa parcela era de 39,7%, e em menos de três anos ganhou quase 12 pontos”.
Para Luersen, o recorde reflete a preferência dos investidores por títulos que acompanham a Selic, a dificuldade de colocar papéis prefixados a custos considerados aceitáveis e a estratégia de financiamento do Tesouro.
“Quanto mais incerto o cenário, maior a compensação extra que ele exige para correr esse risco, o chamado prêmio de risco”, afirmou.
As LFTs (Letras Financeiras do Tesouro) são títulos pós-fixados cuja remuneração acompanha a Selic. Diferentemente dos prefixados, que têm juros definidos na emissão, seu custo varia conforme as decisões do Banco Central.
Com a Selic em 13,75% ao ano, esses papéis mantêm remuneração elevada. Segundo Luersen, as LFTs tiveram custo médio de 14,67% ao ano nos 12 meses encerrados em setembro, acima do custo médio de 13,03% registrado pela dívida interna.
O especialista estima que cada aumento de 1 ponto percentual na Selic, mantido por 12 meses, acrescenta R$ 48 bilhões ao custo anual da dívida, considerando o estoque de LFTs de setembro e sem alterações no volume de títulos.
A estimativa equivale a R$ 4 bilhões por mês. O impacto também funciona no sentido contrário: uma redução de 1 ponto percentual na taxa básica diminuiria os encargos em valor semelhante, mantidas as mesmas condições.
“Quando o Tesouro vende um prefixado, trava o custo até o vencimento, e o risco de alta dos juros fica com quem comprou o título. Quando vende LFT, faz o contrário: protege o investidor e fica com o risco”, declarou.
A participação dos títulos de taxa flutuante passou de 39,66% da dívida federal em dezembro de 2023 para 46,29% em 2024 e 48,25% no encerramento de 2025. Em agosto de 2026, atingiu 52,74%, avanço de 13,08 pontos percentuais em relação ao final de 2023.
A comparação com 2002 e 2003 mostra uma mudança no perfil do endividamento. No final de 2002, 45,8% da dívida federal estava vinculada ao câmbio. Em setembro de 2026, essa parcela era de 3,7%.
“Em 2002 e 2003, o principal canal de risco para a dívida era o câmbio, e hoje é o juro”, afirmou Luersen.
O especialista avalia que o risco atual está mais concentrado no custo de financiamento do que na capacidade de refinanciamento, diante do prazo médio da dívida de 4,1 anos e da reserva de liquidez de R$ 1,27 trilhão mantida pelo Tesouro.
Apesar da predominância das LFTs no estoque, o Tesouro continua a emitir outras modalidades de títulos. Em setembro, as emissões de prefixados somaram R$ 77,28 bilhões, acima dos R$ 71,75 bilhões emitidos em papéis de taxa flutuante.
A preferência por LFTs ganhou importância diante da alta dos juros futuros. Segundo Luersen, as taxas dos contratos com vencimento em 2035 passaram de 12,7% para 15,2% ao ano entre 23 e 26 de outubro, depois do resultado das eleições presidenciais.
O Tesouro realizou recompras extraordinárias de R$ 31,6 bilhões em títulos públicos nos dias 26 e 27 de outubro para enfrentar a instabilidade do mercado.
Na avaliação do especialista, a emissão de LFTs pode ser uma alternativa para evitar que o governo contrate juros prefixados elevados por vários anos. A estratégia, porém, depende de uma redução futura da Selic.




0 Comentário(s)
Deixe seu comentário