Duda Menezes Este ano eu tive a oportunidade de conferir duas leituras marcantes que me aproximaram de uma forma muito única dos contextos históricos em seus panos de fundo. Isso me fez pensar como a literatura nos ensina intimamente sobre o passado, às vezes de forma tão mais duradoura e eficaz que uma mera notícia ou livro de história.

Ao ler uma matéria ou fato a gente se distancia. A ficção histórica faz o oposto. Vivenciamos aquele contexto como um agente onisciente com direito a todos as emoções, consternações e injustiças que só a literatura consegue nos proporcionar. É o exercício da empatia ampliando nossa visão de mundo, possibilitando a quebra de preconceitos e uma aproximação cultural inestimável. Um desses livros foi Pachinko, de Min Jin Lee. O romance faz um apanhado histórico das relações conturbadas entre japoneses e coreanos ao longo do século XX, a subjugação de um povo e o apagamento cultural (e humano) vivenciado ao longo de décadas.  O que torna mais interessante é mostrar tudo isso através de uma família comum. É impossível não tomar um pouco das dores e talvez você nunca mais enxergue esse conflito da mesma forma. Uma coisa é certa: você aprendeu - e fixou - detalhes muito mais facilmente quando comparado ao estudo frio da história. A emoção acende um lembrete vívido na memória e a magia dos livros está justamente nessa capacidade única de transporte humano. Se Pachinko me levou para décadas entre Coreia e Japão, A casa dos espíritos, de Isabel Allende, outra leitura recente, me mostrou os terrores da ditadura chilena no século passado.  Novamente, temos um relato histórico entremeado de ficção e um toque maravilhoso de realismo mágico. Fantasmas, telecinese e visões insólitas mescladas ao lado mais comum e terreno do ser humano: conflitos familiares, horrores patriarcais, direitos das mulheres, contrastes sociais. Uma aula de história num dos livros mais interessantes e marcantes que já li.