O Partido Democrata americano caminha para recuperar a maioria na Câmara na eleição de 3 de novembro. O controle do Senado, até há meses um sonho distante, não está mais fora de alcance. Leia mais (10/28/2026 - 23h00)

É jornalista e vive em Nova York desde 1985. Foi correspondente da TV Globo, da TV Cultura e do canal GNT, além de colunista dos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo

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28.out.2026 às 23h00

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Lúcia Guimarães O Partido Democrata americano caminha para recuperar a maioria na Câmara na eleição de 3 de novembro. O controle do Senado, até há meses um sonho distante, não está mais fora de alcance.

As pesquisas, no entanto, já subestimaram o apoio eleitoral a Donald Trump, como ficou claro em 2016 e 2024. A tendência, nos últimos anos, nos Estados Unidos, é as pesquisas obterem um número maior de respostas de eleitores simpáticos aos democratas.

O fato de o presidente atravessar o final da campanha liderando comícios em estados que venceu com folga em 2024 sinaliza a preocupação da Casa Branca, que governa com maioria obediente nas duas Casas há 19 meses.

Se a apuração ocorrer em ordem nos estados, sem interferência federal, é possível que os grandes doadores tomem um choque de realidade. O trilionário Elon Musk, que gastou meio bilhão para eleger republicanos nas últimas semanas, pode descobrir por que a corrupção saltou para preocupação prioritária dos eleitores na reta final da campanha.

Além das pesquisas de opinião, novos números podem sugerir mais dor de cabeça para os republicanos: a audiência da Fox News, principal fonte de informação e desinformação para a maioria dos eleitores do presidente, despencou para o nível mais baixo desde 2023.

A queda acompanha o contínuo declínio de popularidade de Trump e é vista como sinal de fadiga num eleitorado que ele precisa tirar de casa. As eleições de meio de mandato presidencial tradicionalmente registram maior abstenção e são vistas como um veredito sobre o chefe do Executivo.

"Votem como se meu nome estivesse na cédula", tem pedido o presidente. E parece estar sendo atendido, mas não como esperava. Uma nova pesquisa apurou que 44% dos prováveis eleitores irão às urnas em protesto contra Trump.

Os votos antecipados também estão batendo recordes. Quase 40 milhões de americanos já votaram, presencialmente ou pelo correio, o que não surpreende —32% dos eleitores se dizem preocupados com a integridade do pleito neste ano.

O custo de vida, de alimentos a combustíveis encarecidos pela profundamente impopular guerra com o Irã, continua no topo das preocupações dos eleitores. Mas o temor pela saúde da democracia subiu para a segunda prioridade numa nova pesquisa.

A reação espontânea do público americano à vitória inesperada de Lula me surpreendeu e dá o que pensar. Mesmo a indignação genérica com a corrupção nos EUA parece associada ao ressentimento pela perda do poder de consumo básico, diante do enriquecimento rápido de uma minúscula minoria aliada ao governo.

Os comentaristas passaram a campanha americana destacando a inflação e o preço da carne. Mas, quando assistimos às imagens de idosos brasileiros sendo carregados para as urnas, percebemos que muitos não votaram no preço do bife que já consomem com moderação. Na emoção inédita expressada pela eleição num país estrangeiro, os americanos, quem diria, viram em Lula um avatar de anseios maiores.