Coalizão do primeiro-ministro conquistou 53 cadeiras no Parlamento, número insuficiente para atingir a maioria absoluta necessária para formar um governo; principal bloco de oposição, liderado por Gadi Eisenkot, obteve 48 assentos
A contagem final dos votos nas eleições de Israel, divulgada na noite desta quinta-feira, 29 (já madrugada de sexta-feira, 30 no horário local), confirmou que nem a coalizão de direita do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, nem a principal aliança de oposição, conquistaram votos suficientes para formar um governo.
O resultado abre caminho para semanas de negociações intensas e incerteza política.
O partido Likud, de Netanyahu, e seus aliados da direita populista conquistaram 53 cadeiras no Knesset (parlamento israelense) — abaixo das 61 necessárias para garantir a maioria absoluta. A contagem final, realizada pela Comissão Central de Eleições de Israel, indicou que a aliança de Netanyahu perdeu espaço em relação às 64 cadeiras obtidas na eleição anterior, em 2022.
O principal bloco de oposição, liderado por Gadi Eisenkot — ex-chefe militar que liderou as pesquisas de opinião durante meses —, conquistou 48 cadeiras. Dois partidos árabes, Raam e Lista Unificada, garantiram 19 assentos, o maior número já alcançado por eles.
Os resultados ainda estão sujeitos a eventuais “pequenos ajustes” nos próximos dias, antes de serem submetidos ao presidente de Israel, Isaac Herzog, no dia 4 de novembro, informou a comissão.
Herzog decidirá quem, na sua avaliação, tem mais chances de reunir uma maioria, e solicitará a essa pessoa que tente formar um governo. O presidente afirmou que consultará os líderes partidários após receber formalmente a contagem dos votos, na próxima semana. A distribuição final das cadeiras será oficializada em 4 de novembro, e os partidos políticos terão até o dia 18 de novembro para apresentar reclamações ou contestações jurídicas.
Segundo Assaf Shapira, do Instituto de Democracia de Israel — um grupo de pesquisa apartidário sediado em Jerusalém —, é provável que Herzog ofereça a Eisenkot a primeira oportunidade para formar um governo. Segundo a legislação israelense e o histórico de eleições anteriores, o líder partidário que recebe o maior número de recomendações dos demais líderes — consultados pelo presidente — costuma ter prioridade, afirmou ele.
A eleição foi amplamente vista como um referendo sobre Netanyahu, o primeiro-ministro que ocupou o cargo por mais tempo na história de Israel, e sobre seu governo — o mais alinhado à direita populista na história do país. Foi também a primeira votação desde o ataque liderado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023 — o dia mais letal da história de Israel —, que desencadeou a guerra devastadora em Gaza.
A taxa de comparecimento às urnas foi a mais alta desde 1999. Contudo, apesar da indignação generalizada da população com a recusa de Netanyahu em assumir a responsabilidade por não ter evitado os ataques de 7 de outubro, os partidos de oposição — liderados por judeus — não conseguiram conquistar cadeiras suficientes para destituí-lo imediatamente.
Netanyahu superou as expectativas ao explorar o receio dos eleitores em relação ao poder político árabe e a possíveis ameaças à segurança, garantindo, assim, o maior número de votos.
Ao longo da campanha, Eisenkot posicionou-se como um contraponto a Netanyahu, argumentando que o primeiro-ministro estava conduzindo o país rumo ao autoritarismo e destruindo sua reputação internacional.
A vantagem de Netanyahu no Parlamento coloca Eisenkot e seu bloco — ideologicamente diverso — diante de uma escolha difícil: buscar uma aliança com partidos árabes para derrubá-lo ou unir forças com o próprio Netanyahu em um eventual governo de unidade.
O processo de formação de um governo pode ser tenso e prolongado, estendendo-se por semanas ou até meses. Assim que Herzog escolhe um candidato, este dispõe de 28 dias para negociar com outras coalizões e tentar formar uma maioria governista. É possível, ainda, solicitar uma prorrogação de 14 dias nesse prazo.
Caso o primeiro candidato não obtenha sucesso, o presidente pode incumbir até dois outros nomes da tarefa de formar um governo. Se eles também não conseguirem, novas eleições serão convocadas. Herzog, contudo, declarou na quarta-feira, 28, que tudo deve ser feito para evitar um novo pleito. Historicamente, a formação de um governo em Israel leva, em média, de 20 a 100 dias, segundo o Instituto de Democracia de Israel.
Além de um governo de unidade nacional, outros cenários têm sido cogitados. Outra possibilidade é que o bloco de oposição busque aproximação com os partidos árabes, cujo desempenho expressivo poderia torná-los atores fundamentais nas negociações para a formação do próximo governo. No entanto, a maioria dos partidos judaicos — incluindo aqueles que integram o bloco de oposição — não vê essa abordagem com bons olhos. Há muito tempo, muitos judeus israelenses se opõem à inclusão de partidos árabes — especialmente aqueles que não estão dispostos a apoiar posições sionistas — em qualquer coalizão governamental.
Ambos os líderes também poderiam tentar convencer partidos ou parlamentares, individualmente, a abandonar o bloco rival.
Desde o ataque de 7 de outubro, a postura em relação aos partidos árabes tornou-se mais rígida. Ao longo de sua campanha, Netanyahu recorreu repetidamente ao fantasma dos eleitores árabes, acusando-os de “tentar roubar as eleições” e mobilizando sua base de direita com uma retórica de cunho racial.
Por sua vez, Eisenkot evitou, em grande medida, dizer se formaria uma parceria com partidos árabes, mas afirmou que nenhum deles atende às suas condições para uma eventual aliança em uma coalizão.
Um impasse nas negociações políticas seria conveniente para Netanyahu, segundo analistas, uma vez que ele permaneceria como primeiro-ministro interino até a formação do próximo governo.
Para muitos eleitores, o resultado da eleição traz a ameaça de uma perspectiva incômoda: o retorno ao impasse político que paralisou Israel entre 2019 e 2022, período em que os eleitores foram às urnas cinco vezes. Enquanto muitos apoiadores de Netanyahu sentem-se aliviados pelo fato de ele ainda ter chances de manter o poder, outros — que esperavam por sua derrota decisiva — sentem-se arrasados diante da possibilidade de um impasse político.




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