Com investimentos a superar 10 mil milhões de dólares, as intercalares nos EUA tornam-se as mais caras da história. Marcadas também por acesos confrontos po...
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Em dia de eleições intercalares nos Estados Unidos, para além da vitória dos democratas, há um outro número que está a impressionar. Se achávamos que fazer campanha eleitoral saía caro, os dados conhecidos até aqui confirmam que estas são oficialmente as eleições de meio de mandato mais caras de toda a história norte-americana. Os donativos e os investimentos em propaganda já ultrapassaram a barreira dos 10 mil milhões de dólares. Paulo, isto dá qualquer coisa como 9 mil milhões de euros, não é? 10 mil milhões de dólares.
Põe aí uns 10% e ficamos com a conversão em euros.
É um valor tão astronômico, dava pra comprar o quê, Bruno? Vários clubes da Liga dos Campeões?
Provavelmente, até das ligas norte-americanas.
Dois depósitos de gasolina.
Olha, dois, com jeitinho. Uma grande fatia deste valor recorde veio dos bolsos de grandes milionários e superdoadores. Do lado republicano, Elon Musk lidera com números absolutos ao investir quase 400 milhões de euros na campanha.
É qualquer dinheiro pra ele.
Exatamente, é os trocos que ele anda no bolso. Do lado democrata, figuras como George Soros, Mike Bloomberg ou o fundador do LinkedIn ejetaram dezenas de milhões de dólares pra tentar garantir o controle do Congresso. Parece que não resultou, pelo que temos visto nas últimas horas.
Não resultou, foi um mau investimento.
Portanto, esses números refletem, sobretudo, também a estado, que é o peso enorme dos chamados PACs ou Super PACs, que basicamente é uma coisa que é resultado de uma decisão do Supremo Tribunal, que disse que realmente há limites ao que os partidos podem gastar, sobretudo se receberem contribuições públicas, tanto que a maior parte dos partidos já não aceitam isso, mas não há limite para o que a pessoa pode gastar pra defender as suas ideias. Portanto, desde que estes tais PACs não estejam expressamente coordenados com a campanha de um candidato, podem, na prática, estar a fazer anúncios favoráveis a esse candidato. E portanto, estamos a falar de alguma coisa como quase 6 mil milhões, metade é basicamente os Super PACs e a outra metade é o conjunto dos partidos, dos candidatos. Mas eu também trazia um número que eu acho que ajuda a responder um bocado essa questão. Será que se compram eleições nos Estados Unidos? Bem, o Elon Musk gastou, estima-se que entre 168 milhões e mais de 200 milhões de dólares só no Texas, só pra derrotar o James Talarico. E o resultado foi que o Talarico foi eleito. E mais, foi eleito usando este investimento do Elon Musk, dizendo: "A questão que está aqui a ser colocada é: os texanos estão à venda ou não estão à venda? Vão deixar comprar uma eleição ou não vão deixar comprar uma eleição?".
E agora no discurso de vitória, disse precisamente isso, que foi a prova de que o voto dos eleitores do Texas não podia ser comprado.
Não está à venda. Exatamente.
Bruno, também tens alguma história?
Sim, tenho uma história e ainda está a decorrer esta história no Michigan. Claro, um dos estados em que o resultado, à partida, seria mais renhido, a eleição seria mais renhida, mas pra já Abdul El-Sayed, o candidato democrata, está à frente. E a história que eu trago é precisamente deste candidato, que revela também as divisões que têm existido dentro do Partido Democrata. Aquela questão que a New Yorker falava aqui há umas semanas, de que se este Partido Democrata ainda era demasiado woke. E demasiado woke para ganhar eleições. E quando dizemos demasiado woke, dizemos demasiado à esquerda pra ganhar eleições que muitas vezes se decidem ao centro. E um dos símbolos desse partido mais inclinado pra esquerda foi precisamente Abdul El-Sayed, que enfrentou muitas críticas dos adversários republicanos, mas enfrentou também muitas resistências dentro do próprio Partido Democrata, a começar desde logo por Chuck Schumer, que não gostou quando Abdul El-Sayed venceu as primárias pra corrida ao Senado, no Michigan, porque se criou aquela dúvida, seria ele capaz de convencer ou de cativar um eleitorado ao centro, num estado que foi ganho por Trump nas eleições de 2024. E havia aqui muitas dúvidas se seria o candidato moderado ao centro capaz de conquistar essas eleições, e criou-se logo aqui uma certa tensão entre uma parte do Partido Democrata mais centrista e aquela dita mais woke ou mais socialista.
O Partido Democrata está com esse problema de definição.
Que é um problema existencial, que é saber ou defendermos políticas que nos Estados Unidos são políticas radicais, ou então tentamos chegar aqui a um eleitorado mais centrista. E há dúvidas sobre qual possa ser a estratégia que resulta melhor. Mas El-Sayed não teve dúvidas. Ele é bastante crítico, claro, da guerra em Gaza e da influência do lobby pró-israelita, e teve de enfrentar os democratas que são pró-israelitas e têm defendido Israel e continuam a defender Israel Mas também nas críticas que lhe foram feitas, houve esta ideia de que não estavam tanto em causa as ideias de El-Sayed, mas a sua capacidade de se fazer eleger. Eu contava aqui, porque era muito importante o estado do Michigan, e agora se calhar vimos que não era assim tão decisivo, mas a ideia inicial é que era muito importante para o resultado final destas eleições, o resultado no Michigan. Portanto, era muito importante ter um candidato que conseguisse ganhar o Michigan e mais do que questões ideológicas, era ter um candidato com essa capacidade. Retirou-se a discussão da questão mais ideológica e passou-se para o pragmatismo. E aí também os democratas acabaram por ter uma espécie de tréguas internas para apoiar o candidato, que continua a ser muito atacado e com aqueles argumentos que já tinham sido usados para atacar Barack Obama, uma certa islamofobia, com críticas ao nome, associação ao terrorismo, simplesmente por ser um candidato muçulmano. O próprio Donald Trump se dirigiu ao estado para atacar o candidato democrata, mas isso pode ter tido um efeito contrário. Mas a vitória de Abdul El-Sayed nas primárias democratas em agosto, demonstra, de facto, que existem aqui dois partidos democratas que ainda não sabem bem que estratégia seguir.
Para já venceu o pragmatismo. Daqui a dois anos, para a escolha do candidato presidencial, a definição vai ter que ser mais precisa.
Aí vai ser muito mais importante, sabendo que tem havido candidatos, como vimos também o Troy Jackson, um outro candidato, talvez Bruno queiras falar desse candidato, que está mais à esquerda do que é habitual nos candidatos democratas e também parece conseguir aqui uma vitória bastante confortável para aquilo que se esperava.
O Bruno está a acompanhar ali ao minuto. Está com a sua tablet às escarrapelas.




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