Português afirmou que 'as linhas de ruptura no nosso mundo estão alargando-se' e defendeu uma reforma dentro da própria organização
Priorizar nos meus resultados Google Em seu último discurso de abertura de uma Assembleia Geral antes do fim de seu mandato como secretário-geral das Nações Unidas, o português António Guterres alertou que “as linhas de ruptura no nosso mundo estão alargando-se” e defendeu uma reforma dentro da própria organização.
“As fissuras transformaram-se em desfiladeiros”, disse ele aos líderes mundiais em Nova York. “As divisões geopolíticas abriram-se e as desigualdades intensificaram-se.”
Sem mencionar a guerra entre Estados Unidos e Irã, Guterres deu destaque aos conflitos crescentes que viu surgir durante sua gestão, citando a Faixa de Gaza, Hamas, Israel e Cisjordânia, além da Rússia e da Ucrânia.
“Guerras eclodiram com consequências devastadoras e se prolongaram com uma crueldade abominável. Civis foram alvos. Os direitos humanos foram pisoteados. A fome foi usada como arma. Trabalhadores humanitários foram mortos. O direito internacional foi deixado de lado”, afirmou.
O chefe da ONU também falou sobre os riscos do avanço da inteligência artificial (IA), em meio a preocupações crescentes sobre a controversa tecnologia. “Os humanos estão cada vez mais entregando poder às máquinas, com agentes artificiais se tornando desonestos”, disse ele, acrescentando que as armas autônomas de IA estão passando da “ficção científica para a realidade militar”.
No meio do discurso, ele comparou os riscos da inteligência artificial aos desafios impostos pelas armas nucleares durante a Guerra Fria, defendendo que os países adotem mecanismos de cooperação para evitar uma catástrofe. “A inteligência artificial exige a mesma clareza de propósito e o mesmo senso de urgência”, afirmou.
O português destacou ainda que criar um futuro conectado começa com o reconhecimento, principalmente das “superpotências”, de que seus poderes têm limites. “Poder militar apenas não pode garantir a paz. O poder econômico, por si só, não pode instaurar a estabilidade. Poder tecnológico apenas não consegue garantir segurança”, disse.
Guterres também voltou a defender uma reforma do Conselho de Segurança da ONU, criado no contexto do pós-Segunda Guerra Mundial, para que o órgão reflita, segundo ele, “o mundo de hoje”. O português destacou que, quando as Nações Unidas foram fundadas, grande parte da África ainda estava sob domínio colonial e que, oito décadas depois, o continente segue sem um assento permanente no Conselho.
“Um Conselho de Segurança do século 21 sem representação africana permanente é injusto e indefensável”, afirmou. A composição atual reserva assentos permanentes e poder de veto a Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido.
A Assembleia Geral deste ano reúne cerca de 130 chefes de Estado e de governo sob o lema “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma ONU que entrega resultados para todos”. Além das guerras, as discussões deverão se concentrar na inteligência artificial, nas mudanças climáticas, na economia mundial e no futuro do sistema multilateral.
Após a fala de Guterres, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) manterá a tradição brasileira de realizar o discurso de abertura do evento nesta terça-feira. Em seguida, será a vez de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, país anfitrião. Embora não exista uma reunião bilateral programada entre os dois, a agenda pode proporcionar um contato informal semelhante ao ocorrido no ano passado, quando os líderes trocaram algumas palavras nos bastidores antes de seus discursos.



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