Instituição ligada a Humberto Alencar Pizza recebeu pagamentos do ICB por vídeo e metaverso em evento bancado pela Prefeitura de São Paulo.

Uma instituição ligada ao secretário de Tecnologia da Prefeitura de São Paulo, Humberto Alencar Pizza, recebeu pagamentos do Instituto Conhecer Brasil (ICB) para produzir conteúdo em vídeo e em metaverso em um evento bancado pela Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia. O caso ganhou relevância porque o ICB, presidido por Karina Gama, também aparece no centro de uma investigação sobre o contrato de R$ 108 milhões para instalar pontos de wi-fi em comunidades da capital paulista.

Em 2023, quando Humberto já ocupava o cargo de secretário adjunto da pasta, o ICB recebeu R$ 500 mil da secretaria por meio de uma emenda do vereador Isac Felix (PL) para realizar o “congresso/seminário” Rumos da Inovação na Educação do Futuro Agora (RIEFA). A prestação de contas aprovada pela própria secretaria incluiu duas notas fiscais emitidas em 24 de outubro de 2023 pela Instituição Científica e de Inovação Tecnológica Brasil (ICT Inova Brasil).

Humberto, professor de engenharia da USP, fundou o ICT Inova Brasil. Embora a prefeitura afirme que ele não ocupava cargo formal na entidade naquele momento, um documento produzido pelo advogado da ONG duas semanas depois das notas fiscais informou à Justiça os contatos dos representantes do ICT e indicou que Humberto respondia pelo e-mail contato@ictinovabrasil.org.br e por seu celular pessoal.

Uma das notas registrou pagamento de R$ 48 mil ao ICT pelo serviço de “conteúdo de vídeo – preparação do ambiente digital”. Outra apontou R$ 85,5 mil por “conteúdo metaverso”. A prestação de contas, segundo a documentação citada na pauta, não apresentou evidências da existência desse material, e o plano de trabalho aprovado não explicou o que seria o serviço.

A documentação também não trouxe justificativa para a contratação de uma instituição dedicada à produção de carros elétricos, formada por professores de engenharia da USP, para produzir conteúdo em vídeo. A única menção a “metaverso” na prestação de contas aparece sem comprovação do conteúdo produzido, enquanto os equipamentos usados no evento constam como alugados de outro fornecedor.

A Polícia Civil de São Paulo investiga se recursos recebidos pelo ICB no contrato de wi-fi de R$ 108 milhões foram desviados para o filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), produzido por Karina Gama. Um dos indícios citados na investigação é uma nota de R$ 2 milhões considerada fria, emitida pela Complexys, empresa que já teve como donos conselheiros da ONG de Karina e da entidade ligada a Humberto.

O ICB voltou a realizar o RIEFA com recursos públicos em 2025, quando despesas com vídeos de baixo alcance e conteúdo para metaverso voltaram a aparecer. Na segunda edição, os serviços ficaram com empresas de Eduardo Ferreira Franco, que depois assumiu o cargo de conselheiro técnico-científico do ICB. Franco foi sócio da Complexys, que hoje tem André Feldman como único dono; Feldman também integrou o conselho técnico-científico do ICT Inova Brasil.

Em nota, a Prefeitura de São Paulo afirmou que Humberto “nunca exerceu o cargo de secretário-adjunto na Pasta concomitante à função de conselheiro técnico no ICT Inova Brasil” e que a renúncia dele ao conselho técnico e científico da entidade ocorreu em 10 de novembro de 2021. A gestão Ricardo Nunes (MDB) declarou ainda que o termo de fomento do RIEFA decorreu de emenda parlamentar, que a escolha da organização social cabia ao vereador e que a prestação de contas do ICB foi fiscalizada pelo município; Humberto não respondeu aos pedidos de entrevista, e Karina Gama não respondeu às mensagens enviadas pela reportagem original.