Claudia Mascarenhas - Psicanalista e Escritora - Arquivo Pessoal O crescimento de crianças influenciadoras nas redes sociais trouxe para o centro do debate uma questão que desafia famílias, especialistas e a sociedade: até que ponto a exposição digital pode ser considerada entretenimento e em que momento passa a representar uma forma de exploração?
Embora a presença de crianças na internet seja cada vez mais comum, o tema vai muito além da publicação de vídeos e do compartilhamento do cotidiano. A discussão envolve desenvolvimento infantil, saúde emocional, privacidade e situações que podem se aproximar do trabalho infantil em ambiente digital. O primeiro alerta é que nem toda atividade apresentada como brincadeira realmente pode ser entendida dessa forma. Brincar pressupõe uma experiência vivida pela criança para si mesma ou em interação com seus pares. Quando essa atividade passa a ser produzida para uma audiência, especialmente fora do círculo familiar, sua natureza muda. Se o conteúdo é criado para alcançar mais pessoas, gerar engajamento ou atender expectativas externas, a criança deixa de apenas participar da atividade e passa a se apresentar para um público. Essa mudança ocorre justamente em uma fase marcada pela construção de referências afetivas, sociais e emocionais fundamentais para o desenvolvimento. A busca pela aprovação Uma das principais preocupações está na valorização excessiva do reconhecimento externo. A infância é o período em que se constroem valores como amizade, empatia, reciprocidade e companheirismo. Nas redes sociais, porém, a aprovação passa a ser medida por curtidas, visualizações e seguidores. Nesse contexto, a opinião de desconhecidos pode ganhar mais peso do que os vínculos familiares e as amizades. Especialistas alertam que esse reconhecimento pode ser ilusório, criando dependência da validação externa em vez de fortalecer a autoestima. Quando a identidade passa a depender da resposta do público, qualquer redução na atenção recebida pode provocar insegurança e sofrimento emocional. Para crianças e adolescentes, que ainda estão em desenvolvimento emocional, social e cognitivo, os impactos tendem a ser ainda maiores. Soma-se a isso a valorização excessiva do sucesso e do dinheiro, que pode ocupar um espaço que deveria ser dedicado aos afetos, à convivência e às experiências próprias da infância. O direito de crescer sem exposição permanente Outro ponto importante é o direito ao esquecimento. Durante muito tempo, erros e situações típicas da infância permaneciam restritos aos ambientes familiares e escolares. Hoje, fotografias, vídeos e momentos íntimos são registrados e compartilhados de forma permanente. Muitas crianças chegam à adolescência e à vida adulta sem terem escolhido essa exposição e sem a possibilidade de apagar parte dessa história digital construída por decisões tomadas por adultos. A preocupação aumenta quando a exposição envolve retorno financeiro. Especialistas defendem que toda situação em que uma criança desempenha atividades para gerar renda merece atenção. Independentemente da condição social da família, quando existe expectativa de ganho financeiro associada à atuação infantil, surgem elementos que aproximam essa realidade das discussões sobre trabalho infantil.


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