Em 2022, apenas seis dos 74 candidatos locais foram eleitos; dispersão dos votos, força de candidatos de fora e estratégias dos partidos ajudam a explicar o ...

Nas eleições de 2022, Juiz de Fora teve 74 candidatos com vínculo direto na cidade na disputa por vagas na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), mas apenas seis foram eleitos. Embora os nomes locais tenham presença expressiva entre os mais votados no município, candidatos de outras regiões também conquistaram espaço no eleitorado juiz-forano no pleito daquele ano. A dispersão dos votos e as estratégias dos partidos ajudam a entender esse cenário. Para discutir o comportamento do eleitorado e as tendências observadas nas últimas eleições, a Tribuna de Minas ouviu um especialista em marketing político e um cientista político.

Segundo levantamento realizado pela Tribuna à época, 35 candidatos com domicílio eleitoral em Juiz de Fora disputaram uma vaga de deputado federal. Apenas duas foram eleitas: Ana Pimentel (PT) e Delegada Ione (atualmente no PL, mas, na ocasião, pelo Avante). Entre os 39 candidatos à ALMG no último pleito geral, quatro conquistaram uma cadeira: Betão (PT), Charles Santos (Republicanos), Delegada Sheila (PL) e Noraldino Júnior (atualmente no PSB, mas, em 2022, pelo extinto PSC). A taxa de sucesso das candidaturas locais, considerando as duas disputas, ficou em aproximadamente 8%.

Apesar do número reduzido de eleitos, os candidatos da cidade costumam aparecer entre os mais votados pelo eleitorado local. Jefferson Rodrigues, formado em marketing político pela Academia Vitorino & Mendonça, já foi estrategista em mais de 50 campanhas em todas as regiões do Brasil e também presta consultoria para parlamentares.

Ao analisar a votação proporcional em  Juiz de Fora de 2022 e também de 2018, ele destaca que, entre os cinco candidatos mais votados para ambos os cargos, há predominância de nomes locais, com história política, trabalho, trajetória e ligações muito fortes com Juiz de Fora.

O professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná, Mateus de Albuquerque, explica que esse comportamento está relacionado a um efeito de “profecia autorrealizável”.

“Primeiro porque os partidos já segmentam as campanhas, fazendo com que a maioria dos candidatos tenham campanhas regionalizadas, ainda mais em um estado grande como Minas Gerais. Segundo que os próprios deputados já apostam na estratégia da regionalização, investindo emendas para a sua região a fim de conservarem o seu eleitorado lá”, pontua.

Quanto à execução de emendas, cuja importância eleitoral já foi apontada por estudos, o professor da UFJF ressalta que também é necessário contar com prefeitos aliados. Por isso, a regionalidade precisa ser acompanhada de uma “capilaridade local”. Além disso, o pesquisador cita uma característica antiga da política brasileira: a presença de núcleos familiares com influência política nos municípios.

“Outro elemento importante é o de que a transferência regional de votos de prefeitos para deputados é condicionada pela economia local, sendo substancialmente maior em municípios que possuem alta dependência financeira do setor público”, conclui.

Ao mesmo tempo, a votação expressiva de candidatos de outras regiões já era perceptível em Juiz de Fora em 2022. Naquele ano, Nikolas Ferreira (PL) obteve 29.404 votos na cidade, ficando atrás apenas das duas deputadas federais eleitas. Na disputa estadual, Bruno Engler (PL) foi o quarto mais votado, com 14.626 votos, atrás de Betão, Noraldino Júnior e Cido Reis.

Para Jefferson, os dois casos mostram a força de candidaturas que conseguem ultrapassar os limites de suas regiões, especialmente no campo da direita. O estrategista acredita que, neste ano, tanto a valorização dos nomes locais quanto a votação em candidatos de fora devem continuar presentes, “até se levarmos em conta que há vereadores e lideranças locais trabalhando aqui para candidatos de outras regiões de Minas Gerais”.

Ele destaca, ainda, o papel das mídias sociais na aproximação entre candidatos e eleitores que compartilham interesses e posições políticas, mesmo sem vínculos territoriais.

“Isso contribui muito para que um candidato de fora, por exemplo, consiga apresentar seu conteúdo e seu trabalho para pessoas de uma determinada região, mesmo sem ter uma presença física ou uma trajetória política construída ali”, observa o estrategista.

Mateus também acredita que o voto em candidatos de fora deve permanecer estável.

“O maior desafiante a esse voto são as grandes candidaturas de nível estadual, especialmente aquelas que atraem um eleitorado motivado por razões valorativas. Candidatos ligados à militância de causas sociais, por exemplo”, frisa o professor da UFJF.

Ele complementa: “o que tende a acontecer, no atual cenário de consolidação do voto nacional, é a disputa por campo. No caso, quem será o nome de Lula (PT) e quem será o nome de Flávio Bolsonaro (PL) na Zona da Mata, por exemplo”.

Para o cientista político, “o número total de candidaturas diz pouco, efetivamente, sobre fragmentação e competitividade”.

“Essa pulverização, de certa maneira, pode prejudicar o candidato local no fechamento da conta, porque a eleição proporcional depende também do quociente eleitoral e da distribuição dos votos. Você pode ter vários candidatos da cidade recebendo votos, mas nenhum deles necessariamente alcançar uma votação suficiente para garantir uma cadeira”, lembra.

A fragmentação também ocorre entre candidaturas locais de um mesmo partido ou campo ideológico, que acabam dividindo os votos. Jefferson compara esse cenário ao de outras regiões de Minas Gerais, como o Triângulo Mineiro e o Sul de Minas, onde identifica uma “cultura política de valorização e concentração do voto em candidatos locais” que não enxerga em Juiz de Fora. Na avaliação dele, isso faz com que os candidatos juiz-foranos precisem buscar votos fora da cidade, disputando espaço com outros nomes em diferentes regiões do estado.

Assim como Mateus, Jefferson afirma que não há uma fórmula para definir o número ideal de candidaturas locais, até porque a democracia pressupõe uma diversidade de concorrentes. Para ele, a discussão deve se concentrar em outro aspecto. “O que eu acho que podemos discutir de uma maneira muito mais interessante é: como uma candidatura se torna competitiva?”, idealiza.

“E, quando eu olho para Juiz de Fora, vejo um número grande de candidaturas locais, mas uma quantidade bem menor de candidaturas que, de fato, chegaram agora no período eleitoral com competitividade”, analisa. “E por que isso acontece? Porque muitas candidaturas começam a construir sua comunicação, sua presença pública e sua projeção política muito tarde. E aí você não consegue construir, em poucos meses, o nível de conhecimento e de confiança necessário para disputar uma eleição proporcional desse tamanho”, complementa o estrategista.