Hoje o presidente da Bolívia decretou estado de exceção no país. Veja como vivi meus últimos dias na conflituosa Bolívia

A notícia de que o  presidente da Bolívia decretou estado de exceção nesta noite para conter os crescentes protestos e bloqueios no país marca, de forma dramática, o desfecho desta temporada. Olho para trás com um suspiro de profundo alívio: apesar de um cenário de incertezas constantes, consegui cumprir 100% das minhas obrigações profissionais. É um peso enorme que se retira dos ombros saber que, hoje, já me encontro em segurança em outro país, acompanhado pelos meus clientes, tendo vencido os desafios logísticos severos que esta temporada impôs.

Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Pedro Hauck (@pehauck)

Acabo de encerrar minha temporada de montanha na Bolívia e, ao fazer um balanço do período, percebo o quanto esta vivência foi atípica. Após 25 anos frequentando o país, posso afirmar que esta foi, sem dúvida, a temporada mais conturbada de todas, repleta de desafios e obstáculos que colocaram à prova não apenas minha resiliência, mas também a própria natureza da minha relação com estas montanhas.

Ao longo da temporada, realizei quatro expedições distintas, começando por aquela que chamo de " Vulcões da Bolívia ", a mais distante de La Paz. Foi uma jornada intensa onde escalamos três montanhas de 6 mil metros, incluindo o Sajama , o cume mais alto do país. Cheguei à Bolívia no dia 28 de abril com a habitual alegria de reencontrar La Paz e revisitar meus restaurantes favoritos na cidade, sem sequer imaginar o que estava por vir. Saímos rumo a Villa Sajama de ônibus e, embora o trajeto inicialmente parecesse tranquilo, a apreensão do nosso motorista, Moisés, já denunciava o clima tenso que se formava: no dia seguinte, os bloqueios começariam a tomar as estradas .

Os  bloqueios se materializaram logo no dia seguinte, como previsto. Inicialmente, acompanhei a situação com certo otimismo, acreditando que os 10 dias programados nas montanhas seriam tempo suficiente para que o cenário se normalizasse. No entanto, a realidade foi na contramão: em vez de uma solução, o quadro apenas se agravou. Ao encerrarmos as atividades na montanha, nos vimos em um impasse, sem possibilidade de retorno a La Paz. A situação exigiu uma logística de emergência, e meus clientes precisaram, por fim, retornar ao Brasil via Arica, atravessando a fronteira com o Chile para conseguir deixar o país.

Consegui deixar Villa Sajama para trás num dia de impasse. Com muita dificuldade consegui vencer os cerca de 300 km de distância numa jornada de 12 horas por caminhos de terra em carros 4x4. Passamos por muitos bloqueios, em alguns passando com conversa, outros tendo que pagar e alguns não passando mesmo, tendo que dar voltas e mais voltas pelo meio do altiplano. Tivemos sorte!

Em seguida, dei início à segunda expedição, focada no meu tradicional curso de alta montanha , enquanto paralelamente dividimos a equipe para uma investida ao Pequeno Alpamayo. Com os bloqueios ainda mais intensos, chegar à região do Condoriri transformou-se em uma verdadeira odisseia; navegar pelo caos nas estradas de terra secundária, exigiu uma logística complexa e muita resiliência para que pudéssemos, enfim, atingir nosso objetivo.

Até aquele momento, o maior desafio era o deslocamento, mas o retorno a La Paz após essas expedições nos apresentou uma cidade completamente transformada. Encontramos uma capital atipicamente silenciosa, desprovida de seu trânsito habitual, mas tomada por filas intermináveis de carros aguardando combustível nos postos. A ausência de turistas era notável, e o cenário revelava uma realidade ainda mais dura: os mercados já enfrentavam uma evidente escassez de alimentos .

Em meio a esse cenário incerto, um grupo de alunos e clientes que havia participado do Alpamayo e do curso no Huayna Potosí encontrou uma brecha inusitada. Aproveitando um momento de menor vigilância, eles decidiram arriscar: atravessaram a pé uma das barreiras durante a madrugada e