Cereais matinais, iogurtes, macarrão instantâneo , carne processada , sorvete, pão de forma? Cada refeição diária representa uma nova oportunidade para colocar no prato algum tipo de alimento ultraprocessado . Em geral, suas composições possuem elevados índices de gorduras, açúcares e sódio, substâncias capazes de produzir importantes impactos em qualquer organismo. Leia mais (07/20/2026 - 04h00)
benefício do assinante
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
benefício do assinante
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.
Salvar para ler depois
Recurso exclusivo para assinantes
assine ou faça login
Cereais matinais, iogurtes, macarrão instantâneo, carne processada, sorvete, pão de forma… Cada refeição diária representa uma nova oportunidade para colocar no prato algum tipo de alimento ultraprocessado. Em geral, suas composições possuem elevados índices de gorduras, açúcares e sódio, substâncias capazes de produzir importantes impactos em qualquer organismo.
Desenvolvidos pela indústria após a Segunda Guerra Mundial, os alimentos ultraprocessados são recheados de corantes, adoçantes, emulsificantes e estabilizantes que lhes conferem certas características mais atraentes e prolongam sua vida útil nas prateleiras dos supermercados.
Atualmente, os alimentos ultraprocessados respondem por até 58% da ingestão calórica diária em países de alta renda, e nas economias emergentes estão perto de 30%. Ou seja, cada vez mais, estão ocupando o lugar da comida "de verdade", como frutas, legumes e verduras.
Essa mudança tem trazido consequências. O hábito de "desembalar mais e descascar menos" está acompanhado pelo aumento da incidência de doenças inflamatórias intestinais (DIIs), inclusive em regiões historicamente caracterizadas por uma baixa prevalência, como é o caso de países da América Latina, Ásia e África. As DIIs são condições crônicas que causam inflamação no trato gastrointestinal. Entre as mais comuns estão a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa.
Esse crescimento chamou a atenção de pesquisadores da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu que, em parceria com pesquisadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e da Aalborg University da Dinamarca, decidiram mapear o impacto dos alimentos ultraprocessados na microbiota intestinal, o conjunto de micro-organismos –incluindo bactérias, fungos e vírus– que habitam o trato gastrointestinal, e a relação desse impacto com as DIIs.
Os pesquisadores buscaram artigos que relatassem estudos sobre o tema do impacto dos ultraprocessados em três das principais bases de dados científicas da área da saúde: SciELO, PubMed e Cochrane. Com base em critérios de relevância, qualidade metodológica e data de publicação, foram selecionados dez artigos para a elaboração de um estudo de revisão.
Em artigo publicado na revista Nutrients, os autores sustentam que há evidências para relacionar o alto consumo de alimentos ultraprocessados ao desequilíbrio na microbiota intestinal. Esse desequilíbrio ocorre porque a ingestão de ultraprocessados ocasiona uma redução na diversidade de bactérias que vivem no intestino, por um lado, e um crescimento das populações de micro-organismos nocivos à saúde, por outro. Esse desequilíbrio resulta em um processo inflamatório no intestino que favorece o surgimento das DIIs, em especial da doença de Crohn.
"Algumas pessoas ainda desconhecem que é possível modular a microbiota intestinal de acordo com o que se come", explica Ligia Yukie Sassaki, médica gastroenterologista e professora da Faculdade de Medicina de Botucatu, uma das autoras do artigo. "Alguém que come apenas alimentos ultraprocessados possui uma microbiota pró-inflamatória. Se consome mais fibras, a microbiota é mais saudável. Isso ocorre porque a dieta com fibras resulta na produção de substâncias chamadas de ácidos graxos de cadeia curta, que fazem o equilíbrio de todo o funcionamento do organismo", conta. Ela coordena o grupo de pesquisa em doença inflamatória intestinal.
Alguém que come apenas alimentos ultraprocessados possui uma microbiota pró-inflamatória. Se consome mais fibras, a microbiota é mais saudável. Isso ocorre porque a dieta com fibras resulta na produção de substâncias chamadas de ácidos graxos de cadeia curta, que fazem o equilíbrio de todo o funcionamento do organismo
Sassaki diz que a população desconhece os sintomas das DIIs e os impactos que elas geram na qualidade de vida. "O paciente sofre muito com diarreia, dor abdominal e muita fadiga. Esse paciente não consegue trabalhar, não consegue estudar, não consegue ter vida social. O que a gente tem visto é um acometimento cada vez maior da população jovem: adolescentes, crianças, adultos jovens, muitas vezes em início de carreira. Isso atrapalha muito. São doenças muito debilitantes quando não tratadas. Podem apresentar complicações e, inclusive, levar um paciente não tratado a óbito", diz.
O estudo deixa claro que a microbiota intestinal tem um papel vital na saúde humana. Em um "estado saudável", ela é responsável pelo metabolismo de nutrientes, degradação e fermentação de fibras, síntese de vitaminas como B12, B6, folato e K, e modulação das respostas imunes do organismo, ou seja, a reação do sistema de defesa e proteção contra micro-organismos que podem causar doenças.
Voltar Compartilhe Ícone Facebook Facebook Ícone Whatsapp Whatsapp Ícone X X Ícone de messenger Messenger Ícone Linkedin Linkedin Ícone de envelope E-mail Ícone de linkCadeado representando um link Copiar link Ícone fechar
Esses mecanismos são altamente impactados pelo consumo de mais de cinco porções de alimentos ultraprocessados por dia, ou o equivalente a mais de 20% das calorias ingeridas. Isso ocorre porque os aditivos presentes nesses alimentos alteram o equilíbrio entre micro-organismos benéficos e patógenos e geram uma inflamação nos tecidos. Essa condição dá origem às doenças inflamatórias intestinais crônicas, ou seja, que têm tratamento, mas não têm cura.




0 Comentário(s)
Deixe seu comentário