Numa boa entrevista ao Roda Viva, Miguel Falabella tratou de um tema que volta e meia reaparece: o temor de "cancelamento" por causa de piadas "politicamente incorretas" estaria inibindo a produção de novos programas de humor na televisão. Leia mais (06/23/2026 - 18h12)

Jornalista e crítico de TV, autor de "Topa Tudo por Dinheiro". É mestre em sociologia pela USP

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23.jun.2026 às 18h12

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Numa boa entrevista ao Roda Viva, Miguel Falabella tratou de um tema que volta e meia reaparece: o temor de "cancelamento" por causa de piadas "politicamente incorretas" estaria inibindo a produção de novos programas de humor na televisão.

"A TV de hoje fica muito refém da coisa opinativa da internet, do tribunal da internet. Tudo é um problema", disse. "Não sei se há mais espaço porque a televisão está com muito medo de desagradar."

O comentário de Falabella coincidiu com a exibição dos dois últimos episódios de "E.T.: Edu e Tatá", um humorístico criado por Tatá Werneck, Eduardo Sterblitch e Rafael Queiroga, apresentado no Multishow e no Globoplay entre maio e junho.

Em dez episódios de 25 minutos, "E.T.: Edu e Tatá" se filia à tradição de programas de humor baseados em esquetes curtos, com comentários afiados sobre a própria televisão, incluindo imitações de figuras famosas e programas conhecidos, além de piadas variadas sobre temas contemporâneos.

Para ficar apenas no portfólio da Globo, a tradição de rir da própria televisão é enorme e de alto padrão, de "Satiricom" a "Tá no Ar", passando por "TV Pirata", "Casseta & Planeta" e muitos outros.

"E.T.: Edu e Tatá" se diferencia por querer ser visto como um programa minimalista, do ponto de vista de recursos. É centrado no talento extraordinário e na química impressionante da dupla de comediantes.

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Na abertura de cada episódio, Tatá e Edu surgem de cara lavada e sem figurino num estúdio vazio. "A Globo convidou a gente através de uma ameaça a fazer um programa em um mês. Não deu condições para a gente, não deu dinheiro, não deu estrutura, não deu nada", diz Tatá, brincando (ou não). "E fiquem agora com o que deu para fazer".

Um esquete, em particular, lembrou a observação de Falabella no Roda Viva. Com duração de quatro minutos, exibe o diálogo, quase um monólogo, de uma mulher com o parceiro, num restaurante. A personagem de Tatá reproduz, de forma explicitamente caricatural, bandeiras variadas do feminismo, resultando numa figura ridícula. Na conclusão do quadro, ela pega a conta para pagar, mas, após ver o valor, diz: "O homem paga". Por fim, surge na tela a palavra: "Lacrassandra".

Em diferentes redes sociais, o esquete foi festejado por gente que viu uma rendição da Globo a críticas feitas à postura politicamente correta que adotou em outros momentos. Por outro lado, mulheres consideraram o quadro como "um desserviço" ao feminismo. Tatá se manifestou, dizendo: "Eu sou feminista, obviamente".