A investigação também identificou a participação de um advogado que já atuou para Jair Bolsonaro (PL)
Um ex-integrante do serviço de inteligência de Israel aparece entre os envolvidos na operação que levou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) da fronteira brasileira com a Argentina até os Estados Unidos, segundo reportagem do Fantástico, da TV Globo, exibida neste domingo (1º). A investigação também identificou a participação de um advogado que já atuou para Jair Bolsonaro (PL), além de registros de três entradas do parlamentar em território argentino em um intervalo de 34 minutos, com documentos diferentes.
De acordo com a reportagem, o israelense Menachem Booky Halevy cruzou a fronteira com o advogado Roberto Jorge Alexandre, que já atuou para o ex-presidente Jair Bolsonaro, e o motorista Neri Luiz Dala Corte. Os três estavam em uma van que entrou na Argentina cerca de sete minutos antes de outro veículo, no qual estavam a mulher e as duas filhas de Flávio.
O motorista afirmou que havia sido contratado para buscar dois homens que não conhecia em um posto de combustíveis em Foz do Iguaçu (PR) e levá-los ao aeroporto de Porto Iguazú. Ele negou ter visto a família Bolsonaro. Halevy havia chegado ao Brasil em 19 de outubro, pelo Aeroporto de Guarulhos, e tinha feito outras três viagens ao país naquele ano. Segundo a reportagem, ele também já apareceu em eventos ao lado de autoridades, entre elas o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.
A reportagem identificou que Flávio teve três registros de entrada na Argentina na noite de 27 de outubro. Às 22h37, o senador foi registrado com passaporte italiano. Três minutos depois, houve uma segunda entrada, com a carteira de motorista. Às 23h11, foi registrada uma terceira passagem, dessa vez com o passaporte brasileiro. Os dois registros feitos com documentos brasileiros foram posteriormente cancelados. Apenas a entrada com o passaporte italiano permaneceu válida.
A mulher e as filhas do senador aparecem nos registros de uma segunda van, que havia saído de Cascavel (PR). Às 20h02, elas deixaram um hangar do aeroporto da cidade em um veículo registrado em nome da empresa Iguaçu Dallas Travel Turismo Ltda. A companhia negou ter transportado a família. No endereço cadastrado na Receita Federal, a reportagem encontrou um estacionamento, e trabalhadores da região disseram que a agência não funcionava no local. A mulher responsável pelo estacionamento afirmou ser irmã de um dos representantes da empresa.
Uma das linhas investigadas aponta que Flávio teria saído de Brasília às 5h05 de terça-feira (27), em um jato Cessna Citation Excel ligado ao advogado Willer Tomaz. A aeronave pousou às 8h40 em San Fernando, na região de Buenos Aires. De lá, segundo essa versão, o senador teria seguido em outro avião até Puerto Iguazú. A reportagem, porém, aponta que a principal hipótese é que ele tenha chegado ao aeroporto da cidade argentina de avião, vindo de Buenos Aires, e aguardado por horas dentro da aeronave, na pista, até a chegada da família.
O caso levou a Justiça argentina a determinar a preservação de imagens de câmeras de segurança da fronteira e do aeroporto de Porto Iguazú. A deputada argentina Marcela Pagano questionou possíveis irregularidades no controle migratório e a presença de escolta policial e veículos com placas diplomáticas. O secretário de Comunicação do governo argentino, Fabian Fernandez, afirmou ao Fantástico que o governo não comentaria o caso.
À reportagem, o advogado de Flávio, Frederick Wassef, afirmou que não tinha informações oficiais sobre a viagem e negou que a saída do senador pudesse ser considerada uma fuga. A assessoria de Willer também negou que aeronaves do advogado ou empresas ligadas à família tenham sido usadas para transportar Flávio ou seus familiares. A Baires Fly não respondeu aos questionamentos da reportagem do Fantástico.
Repercussão internacional
Depois de deixar a Argentina, Flávio e a família embarcaram em um jato Gulfstream G400 operado pela empresa de fretamento aéreo Baires Fly. A aeronave fez uma parada para abastecimento em Guayaquil, no Equador, antes de seguir para Miami, nos Estados Unidos, onde chegou na manhã de quarta-feira (28).
O proprietário da Baires Fly, Luis Grande, afirmou à agência de notícias AFP que o voo custou US$ 150 mil (R$ 815,5 mil pela cotação mais recente). Segundo ele, o pagamento foi feito por um intermediário do setor aeronáutico baseado nos Estados Unidos, por meio de uma conta empresarial no país, com transferência para uma conta bancária na Argentina. Grande disse conhecer o intermediário havia dez anos, mas não revelou sua identidade nem soube informar quem contratou o voo.
A participação de Jason Miller, integrante da equipe de comunicação do presidente dos EUA, Donald Trump, também foi mencionada pela imprensa dos Estados Unidos. O New York Times informou que Miller organizou o jato que levou Flávio e a família a Miami. O Wall Street Journal, por sua vez, relatou que Miller estava entre aliados que ajudaram a fretar a aeronave, com participação de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), irmão do senador. As reportagens não esclareceram se Miller teve contato direto com o intermediário que realizou o pagamento.
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, no sábado (31), negou que o governo dos Estados Unidos tenha participado da saída do senador do Brasil. “Não facilitamos nada. Não tivemos nenhuma participação nos preparativos que ele fez. O governo dos Estados Unidos não teve participação direta em nenhuma das movimentações realizadas”, afirmou. Rubio disse que Flávio já tinha visto e que a entrada no país havia sido autorizada pela Presidência americana.
Viagem ocorreu após ordem de Moraes
A saída do senador ocorreu depois de o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar que ele entregasse os passaportes à Polícia Federal em até 24 horas. A decisão foi tomada no domingo (25), após a PF apontar risco de fuga em razão de investigações que envolvem o parlamentar.
Flávio é investigado em um inquérito que apura suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz e empresas de apostas. Também é alvo de outra apuração sobre possíveis irregularidades relacionadas ao financiamento do filme Dark Horse, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro, com recursos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O senador nega irregularidades.
Na segunda-feira (26), Flávio publicou um vídeo em que afirmou que cumpriria a determinação judicial e negou a intenção de deixar o Brasil. Na ocasião, atribuiu a ordem de Moraes a declarações de seu irmão Eduardo sobre a possibilidade de o senador sair do país.




0 Comentário(s)
Deixe seu comentário