Bruno Cardoso Reis analisa a subida da extrema-direita alemã e as sabotagens russas. Ainda o recuo da Islândia em retomar negociações com Bruxelas e o acordo petrolífero dos EUA com a Venezuela.

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Pegamos nas malas e viajamos pelos cinco continentes. É um programa que pode ouvir sempre ao sábado e que analisa a geopolítica internacional aqui na Rádio Observador. Eu sou o João Costa e Silva e estou com o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, seja muito bem-vindo.

Olá, João. Obrigado.

Como é que foi essa semana? Ainda estamos a regressar nesta primeira semana de setembro.

Sim, eu tenho aproveitado para passar uns tempos em Tomar, na minha terra, portanto mesmo a trabalhar, muda um pouquinho de ar, mas agora já cada vez mais em Lisboa.

Exato. As rotinas começam a fervilhar e tudo volta à base. Nós temos vários temas pra falar hoje. Vamos começar pelas eleições na Alemanha e as declarações de Putin, até porque vamos ter eleições regionais na Alemanha, na Saxônia-Anhalt. É assim que se diz, Bruno?

Sim, acho que "Saxonia" costumamos traduzir, "Anhalt" não traduzimos.

Estava a pensar na questão da pronúncia mais alemã, que é sempre mais complicada. Mas este fim de semana, Putin fez questão de insinuar que a atribuição por Berlim de tentativas de ataques com drones à Rússia serve apenas propósitos políticos internos. E queremos todos perceber qual é a importância concreta desta eleição estadual e até que ponto a política doméstica alemã explica esta postura de Berlim em relação a Moscovo, com Putin metido ao barulho.

Eu acho que isto é desde logo um sinal de que esta eleição interessa muito a Putin. Estamos a falar de umas eleições regionais ou estaduais na Alemanha. Interessa por quê? Porque é a primeira vez que o partido da direita mais radical, mais nativista alemã, Alternative für Deutschland, a alternativa pra Alemanha, a opção alemã, AfD, tem hipóteses de ganhar com maioria absoluta num dos 16 Estados que constituem a Alemanha federal. Falávamos muito da Alemanha Federal ou da República Federal Alemã no período da Guerra Fria, para distinguir da outra, da República Democrática Alemã, que não tinha nada democrático, era o regime comunista ditatorial, ao qual aliás pertencia esta região. A Saxônia-Anhalt é um dos estados que são incorporados depois, em 1991, no final da Guerra Fria, com a reunificação alemã. Na verdade, este partido realmente tem a hipótese de ganhar com maioria absoluta neste Estado, é a primeira vez, e portanto realmente constitui governo, porque este partido tem estado a subir nas sondagens e também nas votações, embora com algumas oscilações basicamente desde 2016 nos últimos 10 anos, mas não consegue governar porque todos os outros partidos alemães recusam-se a fazer coligação com eles, acham-nos demasiado radicais, não têm pontos de convergência na agenda. É um partido que é abertamente pró-Rússia, abertamente pró-Putin. No caso da Marine Le Pen, houve um esforço para se distanciar da Rússia, apesar de um histórico longo de cooperação, até de financiamento, empréstimos, etc. No caso deste grupo, não. Isso é bastante claro. Há aqui também um ângulo interno alemão, de política interna alemã nesta decisão de pela primeira vez a Alemanha de forma muito clara dizer que são ataques híbridos com origem na Rússia. Não é impossível.

Aliás, tem-se ouvido cada vez mais falar desta expressão, não é? Ataques híbridos.

Ataques híbridos, e já lá iremos, mas o contexto político permite ao governo alemão usar isso para relembrar aos eleitores que este é um partido muito próximo da Rússia, que tem hesitado sempre muito em criticar Putin, parece atribuir a invasão da Ucrânia a culpar mais as vítimas ucranianas ou até os países ocidentais. Esse contexto político interno existe. Que seja essa a razão da atribuição, que signifique que os alemães estão falsoficando uma atribuição à Rússia, isso já não me parece ser credível. Há demasiados ataques a interesses, atores Ocidentais, à Rússia, à indústria de defesa europeia. Por exemplo, no caso da Alemanha, houve um ataque que foi desmontado numa tentativa de atentado contra o presidente, o chefe máximo da maior empresa de defesa alemã, Rheinmetall, aquela que fabricava os Leopard. Ainda agora houve um incêndio também numa empresa de drones na Polónia. São centenas de casos e todos eles, por coincidência, entre aspas, têm a ver com interesses. No caso da Espanha, muito menos, mas foi assassinado um militar russo que desertou no início da invasão e estava vivendo com outra identidade em Espanha. Portanto, são realmente demasiadas coincidências para isso ser crível. Estas eleições realmente têm alguma importância simbólica, para já Apesar de tudo, estamos a falar de um estado médio a pequeno. É um Estado com pouco mais de 2 milhões de habitantes, portanto tem um peso relativamente pequeno no Parlamento alemão. Na economia alemã ainda menos. Estes estados são os Estados mais pobres da Alemanha, os Estados na antiga Alemanha de Leste, também explica um pouco a insatisfação e este voto de protesto na AFD, mas representa para aí 2% do total da economia alemã. Agora realmente seria o quebrar aqui de um precedente, de um padrão, e desse ponto de vista podia começar a ter algum impacto na política externa alemã, na política europeia alemã. E terminava com esse aspecto, convém recordar que a AFD começa a surgir nos movimentos que vão levar depois ao surgimento da AFD, vai ser criada no contexto da crise do euro, a partir de 2011. O primeiro grande argumento que mobiliza estas pessoas é a rejeição da ajuda aos países do Sul, países como Portugal ou como a Grécia, que eles acham que não estão à altura da superioridade ariana na gestão da economia. Um dos grandes objetivos da AFD é basicamente destruir a União Europeia tal como nós a conhecemos, manter o mercado único, porque isso é ótimo para as exportações alemãs, mas acabar com todo o resto, inclusive com as contribuições alemães, que são as mais importantes pro orçamento comunitário, ou pelo menos reduzi-las o mais possível. Estamos agora a discutir o Orçamento plurianual, este palavrão pra dizer, no fundo, o orçamento comunitário pros próximos anos Uma vitória pode dar até argumentos adicionais ao governo de Berlim para ser o mais restritivo possível nessas negociações. Pode ter aqui algum impacto. Na questão da relação com a Rússia, na relação com Ucrânia veremos, tenho mais dúvidas, mas não há dúvida que o fato de haver muitos alemães que continuam a ter posições relativamente pró-russas condiciona alguma coisa a postura, a posição do governo de Berlim.

Vamos estar atentos a esses resultados. Há bocadinho falávamos dessa expressão "ataques híbridos", Bruno. O que abrange exatamente esta definição e também como é que avalias a reação alemã e europeia a estas ameaças? É algo proporcional ou o continente corre o risco de vir a ser arrastado para uma guerra direta com a Rússia? É demasiado alarmista pensar nisto?

Eu acho que a proliferação destes ataques russos deste tipo significa também um certo reconhecimento da Rússia de que a Europa está a desempenhar um papel vital muito importante na resistência ucraniana à invasão russa. No último ano, basicamente o apoio que existe tem sido apoio europeu. O americano acabou com a eleição do Donald Trump praticamente, ou o que existe é financiado pela Europa ou resulta da pressão europeia. Também significa que a Rússia não quer escalar para um conflito aberto com a Europa, apesar de ameaçar constantemente com isso. Porque o que são ataques híbridos em conceito muito associado, mas distinto de guerra ou conflito na zona cinzenta, gray zone warfare ou hybrid warfare, guerra híbrida ou guerra na zona cinzenta. Híbrido quer dizer que é uma mistura de vários meios de atacar, pressionar um adversário por definição abaixo do limiar num ataque convencional armado em grande escala. Significa coisas como ciberataques, propaganda, desinformação, mas depois ações já mais cinéticas, ou seja, que implicam uso da força, por exemplo, ações de sabotagem ou até de assassinato. Por isso é que isto tá relacionado com o tal conceito também de guerra na zona cinzenta ou conflito na zona cinzenta. Tipicamente, um dos objetivos é que sejam ataques difíceis de atribuir de forma clara, inequívoca, rápida a um determinado ator externo. Por exemplo, a Rússia usa bandidos, criminosos, criminalidade organizada pra fazer algumas desse tipo de ações, subcontratar. Nem são agentes russos que estão diretamente envolvidos a fazer esse tipo de ações com drones, com explosivos, como é o caso neste mais grave aqui na Alemanha, no aeroporto Leipzig. Ou seja, o objetivo é evitar que seja fácil ao Estado que está a ser atacado responder usar alianças de defesa mútua, acionar o Artigo Quinto da NATO, este artigo de defesa mútua pressupõe um ataque armado. Desse ponto de vista parece-me que a Rússia quer evitar, apesar de estar numa escalada perigosa que ainda não deu resultados mais trágicos quase por milagre.

Ia te perguntar isso: o facto de a Rússia apostar nestes ataques híbridos é mostrar uma posição de força, mas ao mesmo tempo não é arriscar-se demasiado ou sabe que, por exemplo, a Alemanha nunca iria alinhar numa questão de ataque concertado diante da Rússia? É por saber isso que também arrisca neste sentido?

Exatamente. A aposta é sempre essa, se consegue fazer alguma pressão. A aposta é criar, por exemplo, dar força a estes movimentos que na Europa dizem que somos culpados destes ataques, porque se fôssemos amigos dos russos não havia problemas. Também convém alimentar a ambiguidade. A Rússia não desmente taxativamente que sejam ataques russos. O próprio Putin, ao contrário de alguns putinistas na Europa Ocidental, o que veio dizer é provem isso. Mostrem lá. Muitas vezes é difícil de mostrar. Outras vezes, pra mostrar é preciso revelar fontes métodos dos serviços de informações ocidentais que eles também não querem fazer.

Era aquilo que tu falavas, sabotagens e atos que é muito difícil comprovar que são realmente feitos pela Rússia.

Ou seja, não é um avião de guerra russo que está a disparar um míssil contra o aeroporto de Leipzig. É um drone comercial, mas com explosivos. Tudo isso complica mais as contas. Todo o objetivo russo é realmente complicar uma resposta eficaz. Desse ponto de vista, eu acho que pode-se questionar, e eu questiono, eu acho que a Europa já devia ter dado respostas mais robustas há mais tempo, mas acho que é significativo que a Alemanha tenha avançado nesse sentido. Fechou um consulado, também uma organização cultural em pleno coração de Berlim. Qualquer dessas duas instalações diplomáticas, entre aspas, há muito que suspeita que também servem pra ações de espionagem, inclusive interceção de comunicações, etc. Falou em ações mais robustas contra a frota fantasma russa, que é vulnerável, por exemplo, em inspeções, porque em muitos casos não tem seguros, não respeita barreiras ambientais, etc. Aqui a grande questão é porque a Alemanha não avança com a entrega dos famosos mísseis Taurus, daqueles mísseis de médio alcance, que o próprio chanceler Merz, antes de ser chanceler, tinha dito que se devia entregar. Aquilo que se pode aqui deduzir, talvez, é que a Alemanha esteja em privado a dizer aos russos: "Atenção, que se houver vítimas, se isto der resultados mais sérios, aí nós vamos avançar com a entrega dos Taurus à Ucrânia", que seria uma arma bastante interessante para esta campanha aérea de longo alcance contra refinarias, depósitos de armamento, portanto, que a Ucrânia está a desenvolver nos últimos meses. Espero que isso seja também parte desta gestão da escalada por parte da Alemanha, manter alguma pólvora seca, como se costuma dizer, algumas armas mais poderosas. Já agora, também houve uma outra demonstração de força da parte da Alemanha, interessante, que é um novo míssel naval intermédio de origem israelita. Foi divulgada sua utilização pela marinha alemã, também por coincidência, nos últimos dias. Obviamente, isso também é uma forma de sinalizar à Rússia: "Atenção, que estamos a rearmar-nos, portanto, não levem as coisas demasiado longe, porque temos cada vez mais capacidade de responder".

Temos ainda três minutos até o final desta nossa primeira parte. Do lado histórico, Bruno, e tu és a melhor pessoa para nos ajudar a entender isto, as relações entre a Alemanha e a Rússia sempre oscilaram entre a cooperação pragmática e também alguma rivalidade geopolítica. Quais são os momentos decisivos desse histórico, digamos assim, para ajudar a atender esta crise atual?

Bem, pra não ir demasiado atrás, digamos que a Prússia, que vai dar origem à Alemanha unificada, só se unifica em 1870, aliás, como um império que é, no fundo, uma federação de monarquias. A Alemanha sempre foi uma federação durante grande parte da sua história, a grande exceção é o período nazi. Isso também ajuda a explicar, muitas vezes, por que a política alemã é bastante lenta, demorada, complicada, pra frustração dos seus parceiros fora. Portanto, a Prússia, que vai dar origem a essa Alemanha unificada a partir de 1870, e a Rússia vão ser os dois grandes gigantes do norte da Europa que emergem durante o século XVIII, como resultado da derrota de grandes potências tradicionalmente dominantes, que eram a Polônia e Lituânia, que controlava grande parte da Ucrânia, além do que é hoje a Polônia, a Lituânia e outros territórios, e depois também da Suécia. Vão colaborar, aliás, um pouco nesse esforço de minarem a hegemonia dessas potências anteriores, inclusive vão dividir grande parte da Polônia entre si no final do século XVIII. Depois, de facto, no século XIX começam a haver dinâmicas de rivalidades, sobretudo no final do século XIX, com o peso crescente dos nacionalismos, os czares, os imperadores autocratas russos vão apostar muito na cartada do nacionalismo para mantener esse poder autocrático. Também isso tem reflexo na política externa, por exemplo, no apoio aos povos eslavos na zona dos Balcãs, por exemplo, a Sérvia. Ora, o problema é que a Sérvia vai adotar uma campanha de terrorismo nacionalista contra os Habsburgos de Viena, que não só é uma dinastia de origem alemã, mas são os grandes aliados da Alemanha unificada, o chamado Império Austro-Húngaro, e isso vai levar à Primeira Guerra Mundial no verão de 1914. Aí obviamente é um choque entre esses dois grandes impérios, a Rússia e a Alemanha unificada, mas depois disso a nova Rússia, que se transforma em União Soviética, muda de lado no final da guerra. Na prática torna-se um aliado do Kaiser, de Berlim, e eles vão ser até por isso também os grandes excluídos, os grandes perdedores da paz no final da Primeira Guerra Mundial, da Paz de Versalhes, e tornam-se aliados públicos e até secretos. Ou seja, há uma cooperação militar muito forte nos anos 20 entre a Alemanha, chamada Alemanha de Weimar, e a União Soviética. É lá que os alemães vão desenvolver a sua aviação, por exemplo, que estavam proibidos de desenvolver clandestinamente pelo Tratado de Versailles. A Rússia precisava também disso porque tinha perdido muitos quadros, muita tecnologia, etc. Depois obviamente há a ruptura de 1933 com o nazismo, que é declaradamente anticomunista, mas em agosto de 1939 e depois o verão de 1941, a Alemanha nazi de Hitler e a União Soviética de Stálin vão na prática também ser aliados, vão novamente ocupar a Polônia em setembro de 1939. No período da Guerra Fria, depois da derrota da Alemanha nazi, obviamente a União Soviética tem papel crucial na Segunda Guerra Mundial allieda aos aliados Ocidentais. Mas depois vamos ter a divisão alemã e um terço da Alemanha, precisamente a zona onde fica a Saxônia-Anhalt passa a estar controlado pelos soviéticos numa ocupação muito pesada, mas em aliança com os comunistas alemães. O que marca muito depois do período final da Guerra Fria e toda a política pra Russia da Alemanha até basicamente a invasão de fevereiro de 2022 é esta ideia da Ostpolitik e do apaziguamento econômico da União Soviética/Rússia, ou seja, tentar comprar a amizade de Moscovo. Isso vai parecer dar muitos bons resultados, inclusive económicos. A questão do gás natural, o primeiro grande gasoduto que liga a Rússia à Alemanha em 1979, portanto ainda durante a Guerra Fria. Isso vai permitir facilitar a unificação alemã. A União Soviética era uma das potências ocupantes, tem que dar o seu acordo pra essa unificação. Durante muito tempo, realmente a Alemanha foi o grande defensor, basicamente até febrero de 2022, de sustentar um entendimento quase a qualquer preço com a Rússia de Putin, vários acordos, os Acordos de Minsk, etc. E é essa política que falha estrondosamente com a invasão da Ucrânia e que leva aqui uma revisão radical que agora Putin procura inverter com esta aposta na Alternative für Deutschland

Muito bem. As relações entre a Rússia e a Alemanha aqui em destaque nesta primeira parte do Cinco Continentes. Nós voltamos já a seguir para a segunda parte e vamos ter o país em destaque esta semana, que é a Islândia. Já a seguir com o Bruno Cardoso Reis . Estamos de regresso pra segunda parte dos cinco continentes sempre com o historiador Bruno Cardoso Reis. Eu sou o João Costa e Silva e já vamos ao país em destaque se bem que vai estar antes disso também em evidência neste ponto, Bruno. Vamos falar desse referendo na Islândia, a realização deste referendo traduziu-se numa derrota por 53% dos votos ao retomar das negociações para adesão à União Europeia. Como é que devemos ler este desfecho? É uma derrota política e estratégica relevante para as instituições de Bruxelas ou nem por isso?