Documentos apresentados em tribunais e entrevistas à CNN mostram que esforços do governo americano enfrentam obstáculos logísticos além de disputas judiciais
Compartilhar matériaOs esforços do governo Trump para forçar mudanças na forma como as cédulas eleitorais são processadas podem estar enfrentando um obstáculo maior do que os desafios judiciais em todo o país e a resistência política: autoridades eleitorais afirmam que simplesmente é tarde demais para tentar cumprir as regras propostas.
Em documentos apresentados aos tribunais e em entrevistas à CNN, autoridades eleitorais e outros especialistas em votação pelo correio disseram que não há uma maneira prática de cumprir os planos do Serviço Postal dos EUA — mesmo que os estados consigam encontrar os milhões de dólares que estimam que a adequação às regras custaria.
O governo descreveu as novas regras postais como uma mudança “modesta” para os estados. Mas, se os estados ou autoridades locais não cumprirem os requisitos para os programas de votação pelo correio, a agência não entregará suas cédulas — o que pode provocar uma privação em massa do direito de voto.
Fornecedores disseram às autoridades eleitorais que não há tempo suficiente para imprimir os milhões de envelopes que precisariam ser redesenhados de acordo com a regra. Segundo documentos judiciais, é possível até que não haja quantidade suficiente de papel disponível para isso.
Autorizar e treinar administradores eleitorais locais para utilizar um portal nunca antes usado, criado pela agência para o envio das listas de eleitores que receberão cédulas pelo correio, exigiria milhares de horas de trabalho dos funcionários.
“Estamos a semanas do envio das cédulas e o USPS ainda não consegue responder a perguntas básicas sobre como isso vai funcionar. Claramente, eles mesmos não sabem”, disse à CNN Amanda Gonzalez, secretária eleitoral do condado de Jefferson, no Colorado, que enviará 433 mil cédulas pelo correio.
“Esses não são detalhes menores de implementação — eles determinam se milhões de eleitores elegíveis receberão suas cédulas”, disse Gonzalez, que concorre ao cargo de secretária de Estado do Colorado pelo Partido Democrata. “Neste momento, mesmo que prevaleçamos e isso não seja implementado, a incerteza criada por tudo isso, por si só, já representa um risco eleitoral.”
Essa realidade explica por que autoridades eleitorais e as pessoas que trabalham com elas têm evitado entrar em pânico diante das possíveis consequências das regulamentações. Em vez disso, elas estão concentradas na confusão imediata que foi causada entre os eleitores. Nas comunicações com o público, as autoridades eleitorais têm procurado transmitir uma mensagem clara: a eleição acontecerá em novembro, e a capacidade dos eleitores de votar — pelo correio ou de outra forma — será protegida.
Um novo relatório de um denunciante do USPS, divulgado esta semana, acrescentou ainda mais incerteza. O relatório alegou que a agência reservou apenas alguns dias para testar um sistema montado de forma improvisada para processar as informações dos eleitores exigidas pelo plano.
Os riscos relacionados a falhas de tecnologia foram agravados pela intenção da agência, segundo o relatório, de rejeitar lotes inteiros de cédulas — afetando o acesso ao voto de potencialmente dezenas de milhares de eleitores em algumas jurisdições — caso apenas um envelope do lote não correspondesse às informações registradas no portal.
As exigências estão atualmente suspensas por uma decisão temporária de um tribunal federal, contra a qual o governo apresentou recurso. Mas a questão já chegou uma vez à Suprema Corte — que autorizou o governo a elaborar um plano final para as regras — e, agora que o plano definitivo foi anunciado, espera-se que o assunto volte aos ministros.
“A maioria das autoridades eleitorais — quando viu a Ordem Executiva em março — estava de cabeça baixa, realizando suas eleições primárias e se preparando para as eleições de meio de mandato”, disse Tammy Patrick, diretora de programas da Associação Nacional de Funcionários Eleitorais. Quando o plano final do USPS foi divulgado no mês passado, “muitos ficaram chocados ao descobrir o que havia na regra”.
A Casa Branca rejeitou as preocupações das autoridades eleitorais, dizendo que elas deveriam estar preparadas, já que a proposta havia sido apresentada “meses atrás”.
“Qualquer confusão foi causada pelo litígio de democratas radicais para impedir essas medidas de bom senso, que protegem a segurança das cédulas enviadas pelo correio e garantem que apenas americanos elejam líderes americanos”, disse a porta-voz da Casa Branca Lauren Bis em um comunicado.
Um porta-voz do Serviço Postal disse à CNN, em comunicado divulgado esta semana, que a agência está “analisando cuidadosamente” as preocupações levantadas pelo denunciante.
“O Serviço Postal dos Estados Unidos passou meses desenvolvendo um Portal Federal de Cédulas Eleitorais pelo Correio para oferecer às autoridades eleitorais uma maneira simples, segura e eficiente de compartilhar listas de pessoas que recebem cédulas pelo correio em seus respectivos estados. Esse trabalho sempre foi realizado de maneira consistente com as ordens judiciais”, disse o porta-voz.
“Independentemente de partido político ou perspectiva, compartilhamos um objetivo comum: garantir que os americanos possam confiar que suas correspondências eleitorais serão tratadas com segurança e entregues de forma confiável”, acrescentou.
Em documentos judiciais, o USPS defendeu as exigências, observando que está se baseando nas mesmas leis que regulam o “tratamento especial e as condições de aceitação para outros tipos de materiais que são igualmente sensíveis, mas não perigosos, e que apresentam desafios operacionais específicos — como restos mortais cremados ou explosivos de imitação”.
Em meio às idas e vindas jurídicas, as autoridades eleitorais estão concentradas em realizar a eleição enquanto asseguram aos eleitores que eles devem esperar votar pelo correio como já fizeram anteriormente. As autoridades esperam uma verdadeira montanha-russa jurídica, com a ordem de Trump sendo reativada e novamente bloqueada. Mas, como uma eleição precisa acontecer em novembro, os obstáculos práticos para seguir o plano se tornaram intransponíveis.
O secretário de Estado de Nevada, Cisco Aguilar, disse à CNN, em entrevista a Dana Bash, que as novas revelações do denunciante o deixaram “nervoso” e “muito preocupado”. Mas afirmou que, enquanto a batalha judicial continua, ele e outros secretários de Estado democratas “não vão ceder e permitir que este governo dite como as eleições devem ser conduzidas”.



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