Índice Omie de Desempenho Econômico aponta crescimento de 2,2% para pequenas e médias empresas em 2026
O faturamento real médio das pequenas e médias empresas (PMEs) brasileiras registrou desaceleração e encerrou o terceiro trimestre de 2026 praticamente estável, com uma leve alta de 0,6% na comparação com o mesmo período do ano anterior. O resultado, apurado pelo Índice Omie de Desempenho Econômico das PMEs (IODE-PMEs), consolida a perda de ritmo da atividade econômica no país e motivou uma revisão na projeção de crescimento do indicador para o acumulado de 2026, que caiu de 2,6% para 2,2%.
O desempenho do trimestre reflete a combinação de juros em patamares elevados, inflação persistente e elevado endividamento das famílias. "O que o IODE do terceiro trimestre mostra, de forma bem clara, é que a economia, de fato, perdeu força e que os juros já estão pesando no desempenho de praticamente todo o mercado de pequenas e médias empresas aqui no Brasil", analisa Felipe Beraldi, economista da Omie. Segundo ele, o movimento vinha se desenhando há meses e se consolidou no fechamento do período.
Apesar do cenário adverso, tanto os dados do relatório quanto o economista ressaltam que o quadro não configura uma crise estrutural. O mercado de trabalho segue aquecido, com o desemprego apurado pelo IBGE em mínima histórica de 5,3%, algo que, quando somado aos ganhos de renda real e aos programas de transferência de renda, garante sustentação ao consumo básico.
"É importante dizer que não estamos falando de uma crise. O mercado de trabalho continua forte, a renda geral sustenta o consumo, isso amortece a desaceleração. O que a gente vê é uma economia perdendo fôlego e não necessariamente parando", pondera Beraldi.
Disparidades setoriais e regionais
A desaceleração não ocorreu de forma homogênea. A indústria foi a principal afetada, registrando queda de 1,4% na comparação anual e interrompendo uma sequência positiva de cinco trimestres de expansão, puxada para baixo pelas indústrias extrativas. Já o setor de serviços teve variação negativa (-0,2%).
Em contrapartida, o comércio atuou como o principal sustentador do índice no campo positivo, com avanço de 2,1% no faturamento (impulsionado pelo atacado com +3,6% e varejo com +1,1%). O setor de infraestrutura teve leve variação de +0,4%.
As aberturas regionais também mostraram fortes assimetrias: enquanto o Norte (+7,2%) e o Nordeste (+4,2%) sustentaram altas expressivas, o Sudeste permaneceu estagnado (+0,3%). Por outro lado, o Sul apresentou resultado negativo (-0,5%), e o Centro-Oeste registrou sua terceira queda trimestral consecutiva (-6,4%).
Margens espremidas e demanda cautelosa
Na análise de Beraldi, o ambiente macroeconômico atual impõe barreiras severas ao crescimento dos pequenos negócios, criando uma pressão dupla. Do lado dos custos, a taxa básica de juros (Selic), que está em 13,75%, encarece diretamente o financiamento da produção e da operação. Em setembro, a inflação medida pelo IPCA acelerou 0,82%, atingindo 4,58% no acumulado em 12 meses e ultrapassando o teto da meta do Banco Central.
O economista da Omie diz que, na ponta da demanda, o consumidor encontra-se encurralado. O Índice de Confiança do Consumidor (ICC/FGV) caiu pelo quinto mês consecutivo em setembro, atingindo 84,2 pontos — o menor nível desde novembro de 2022. Para Beraldi, esse pessimismo decorre do comprometimento da renda familiar, que destina em média 28,7% do orçamento mensal ao pagamento de dívidas.
"Para a pequena e média empresa, juro alto não é uma discussão abstrata; ela é bem real: é o capital de giro mais caro, é a margem que fica mais apertada, é o investimento que o empresário decide adiar. E isso vem acompanhado de um consumidor também mais cauteloso, mais endividado, com menos espaço no orçamento. Ou seja, a pressão chega pelos dois lados: na ponta do custo e na ponta da demanda", explica.
Perspectivas para 2027
Para 2027, a projeção é de crescimento moderado do IODE-PMEs de 1,8%, caracterizando um ano de transição no qual a queda dos juros ocorrerá de forma lenta e com defasagem de efeitos. Incertezas fiscais internas, trajetórias da dívida pública e tensões internacionais (como a guerra no Irã e a cotação do petróleo) mantêm a postura dos empresários cautelosa quanto a investimentos e contratações.
"Se eu tivesse que deixar um recado claro pro pequeno e médio empresário nesse momento, seria esse: é hora de olhar com muito cuidado para o caixa, o custo do crédito e o planejamento tributário. Num cenário como a gente vive agora, de crescimento mais lento, a gestão faz absolutamente toda a diferença entre quem atravessa esse período com mais tranquilidade e quem vai sentir muito mais esse aperto", ressalta Beraldi.
O IODE-PMEs, medição desenvolvida pela Omie, acompanha as atividades econômicas das pequenas e médias empresas brasileiras com faturamento de até R$ 50 milhões anuais. Para elaborar os índices, a Omie analisa dados agregados e anonimizados de movimentações financeiras de contas a receber de mais de 180 mil clientes, cobrindo 756 CNAEs (de 1.332 subclasses existentes), considerando filtros de representatividade estatística. Os dados são deflacionados com base nas aberturas do IGP-M (FGV) e usam o índice vigente no último mês de análise para verificar a evolução das movimentações financeiras em termos reais.




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