Na penumbra de uma sala fria, uma mãe qualquer, marcada pela hanseníase, sentia a vida pulsar em seu ventre, mas a ansiedade a consumia. Os gritos de dor eram abafados por um silêncio ensurdecedor, enquanto as parteiras a isolavam, como se a doença fosse um pecado inconfessável. O momento mais sagrado de sua vida transformava-se [...]
Por Astério Moreira 9 de setembro de 2026 – 21h13 2 min de leitura
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Na penumbra de uma sala fria, uma mãe qualquer, marcada pela hanseníase, sentia a vida pulsar em seu ventre, mas a ansiedade a consumia. Os gritos de dor eram abafados por um silêncio ensurdecedor, enquanto as parteiras a isolavam, como se a doença fosse um pecado inconfessável. O momento mais sagrado de sua vida transformava-se em uma condenação.
Quando os bebês nasceram, o mundo exterior não compreendeu o amor que habitava em seus corações. “Você não pode vê-los” era uma sentença brutal, e as palavras ecoavam como um veredicto cruel. Assim, as crianças foram levadas e adotadas por famílias que desconheciam a profundidade daqueles laços sanguíneos. Cada choro que se afastava era uma facada, um lamento que rasgava suas almas.
Os anos se arrastaram, e as mães hansenianas tornaram-se sombras de si mesmas, presas entre as lembranças de risadas que nunca ouviram. O Movimento dos Hansenianos (Mohan) surgiu como um grito desesperado por reconhecimento, mas, para elas e para os filhos lançados ao mundo, a dor era uma constante.
O governo federal, finalmente, começou a ouvir as vozes do passado, mas, para aquelas mães e filhos, o reconhecimento tardio não apagava a ausência. O que é uma pensão diante de um amor perdido? O que é a luta por direitos quando o que se deseja é o calor de um abraço que nunca será sentido?
As mães hansenianas continuaram a viver, mas suas existências eram apenas ecos de um tempo de dor nunca esquecida: uma batalha sem vencedores, uma espera sem fim, marcada pela tragédia de um amor que nunca pôde ser vivido. Hoje, seus filhos, ao se reencontrarem com o passado, buscam um pouco de reparação e paz em meio a cicatrizes que o tempo não apaga.
Astério Moreira, jornalista há 38 anos, colunista político do ac24horas, apresentador do Gazeta Entrevista (TV GAZETA) e do programa A Voz da Cidade (ECOACRE FM), graduado em Ciências Políticas.




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