Sustentar o financiamento do SUS diante de uma crise fiscal iminente, organizar filas de atendimento e preparar o sistema para fatores de risco emergentes como a dependência em jogos e apostas. Esses são alguns dos principais desafios que o próximo presidente da República terá de enfrentar na área da saúde, segundo especialistas ouvidos pela Folha . Leia mais (09/09/2026 - 23h00)

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Cláudia Collucci Luana Lisboa

Sustentar o financiamento do SUS diante de uma crise fiscal iminente, organizar filas de atendimento e preparar o sistema para fatores de risco emergentes como a dependência em jogos e apostas —cujos atendimentos na rede pública vêm aumentando de forma expressiva.

Esses são alguns dos principais desafios que o próximo presidente da República terá de enfrentar na área da saúde, segundo especialistas ouvidos pela Folha.

A lista inclui ainda a criação de mecanismos de coordenação entre municípios, estados e União, o fortalecimento da atenção primária e a incorporação de riscos climáticos.

Os gargalos vão além do debate sobre volume de recursos e passam também por questões de desenho institucional. É sobre esse último ponto que os programas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) —líderes nas pesquisas— mostram lacunas mais evidentes.

O plano de Lula não equaciona o embate entre o arcabouço fiscal e o piso constitucional da saúde. O de Flávio promete corrigir a tabela do SUS e migrar para pagamento por desempenho, sem detalhar custo ou fonte de recursos.

Tânia Mara Coelho, presidente do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde), afirma que estados e municípios assumiram responsabilidades crescentes sem que a participação financeira da União acompanhasse o ritmo.

Essa tendência, diz, deve piorar com o envelhecimento populacional e o avanço das doenças crônicas. "Precisamos construir um financiamento sustentável e ampliar progressivamente a participação da União", afirma.

Reportagens mostram os principais gargalos com que o mandatário eleito terá de lidar em sete áreas estratégicas —fiscal, saúde, segurança, Judiciário, relações internacionais, educação e energia— e apresenta as propostas dos principais candidatos para cada tema

O Conass defende que os gastos públicos com saúde saiam da atual faixa de 4% do PIB (Produto Interno Bruto) para 6% até 2030.

Michelle Fernandez, professora do Instituto de Ciência Política da UnB (Universidade de Brasília), destaca o avanço das emendas parlamentares impositivas como fonte de custeio da saúde. Esse é um ingrediente que reduz a margem discricionária do Executivo e exige negociação permanente com o Congresso.

"Ao mesmo tempo que temos que aumentar o financiamento da saúde, vemos elementos que estão esvaziando esse financiamento", afirma.

O médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, defende blindar a saúde de cortes automáticos e cobra eficiência. "Somos muito ineficientes. Licitar e concursar exigem tempo. A alternativa são parcerias com o setor privado, desde que bem fiscalizadas."

Para Rudi Rocha, professor da FGV (Fundação Getulio Vargas) e diretor de pesquisa do Ieps (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde), a prioridade imediata é recompor o orçamento e reverter a fragmentação gerada pelas emendas. "Mas isso é só para empatar o jogo."

A questão de fundo, segundo ele, é a ausência de um responsável por coordenar o percurso do paciente entre serviços de entes federativos diferentes. Ele defende instâncias regionais, com quadro técnico e orçamento próprios, fora do calendário eleitoral, com coordenação induzida pelo governo federal.