Autoridades vetaram conferência sobre expulsão de imigrantes e manifestação em Paris após ataque racista que deixou um morto e sete feridos; suspeito foi acusado de homicídio com agravante de motivação racista

Quase uma semana após um atentado racista na região de Paris, as autoridades francesas proibiram um colóquio da direita radical sobre a “remigração”, previsto para sábado, 31, e uma manifestação marcada para domingo, 1° de novembro, na capital.

As proibições ocorrem em um contexto de apelos a contramanifestações e em um momento de aumento das tensões no cenário político francês, a seis meses das eleições presidenciais, nas quais a candidata da direita radical Marine Le Pen aparece nas pesquisas como favorita.

Nesse contexto, o nacionalista radical austríaco Martin Sellner afirmou nesta quinta-feira, 29, que foi proibido de entrar na França, depois que as autoridades vetaram a conferência sobre a “remigração”.

O termo “remigração” é utilizado pela direita radical para definir sua política de expulsão em massa de pessoas de origem estrangeira.

Desde o atentado da semana passada em Trappes, no qual um homem negro foi assassinado e outras sete pessoas ficaram feridas, a esquerda, mas também figuras mais centristas, vêm criticando a direita radical e determinados veículos de comunicação por terem criado um ambiente propício a esse tipo de violência.

“A pedido do ministro do Interior, tendo em vista os riscos de perturbação da ordem pública, especialmente após o atentado de Trappes”, as autoridades “emitiram duas ordens de proibição”: uma para o fórum organizado no sábado em Le Plessis-Robinson e outra para a manifestação prevista para domingo em Paris.

Organizações de esquerda e sindicatos multiplicaram os apelos à “mobilização antifascista”, especialmente para a manhã de sábado em Le Plessis-Robinson.

Nessa cidade a oeste de Paris, estava prevista uma conferência intitulada “Remigração: vamos abrir o debate”, organizada pelo ex-dirigente eleito da Frente Nacional - rebatizada de Reunião Nacional, partido da direita radical - Jean-Yves Le Gallou.

O prefeito do departamento de Hauts-de-Seine sustenta que essa iniciativa se baseia “em uma ideologia xenófoba e racista, fundamentada na convicção de que os imigrantes são todos, por essência, uma ameaça ao futuro dos países europeus e não têm vocação para permanecer na Europa”.

O suspeito de 39 anos de realizar o ataque a tiros nos arredores de Paris foi acusado preliminarmente de homicídio e tentativa de homicídio com agravante de motivação racista, informou a Promotoria Nacional Antiterrorismo da França. O atentado deixou uma pessoa morta e outras sete feridas.

O homem, um cidadão francês identificado pelas autoridades como Kevin T., afirmou ter escolhido como alvos pessoas que acreditava serem muçulmanas ou de origem africana, segundo o promotor Olivier Christen.

O suspeito foi preso menos de 20 minutos após o início dos disparos, na última sexta-feira, em Trappes e na cidade vizinha de La Verrière, nos arredores de Paris. Seu sobrenome não foi divulgado.

Uma menina de 11 anos está entre os feridos. Segundo as autoridades, o atirador disparou de dentro de um veículo em diferentes pontos de um trajeto de 12 quilômetros.

Nesta quinta, o suspeito foi formalmente acusado, em caráter preliminar, de homicídio e tentativa de homicídio relacionados a um ato terrorista, com o agravante de que os crimes teriam sido cometidos em razão da raça, etnia, nacionalidade ou religião, real ou presumida, das vítimas. A Promotoria Nacional Antiterrorismo pediu que ele permanecesse em prisão preventiva.

De acordo com Christen, o suspeito reconheceu que os ataques foram premeditados e admitiu ter escolhido especificamente pessoas que, pela aparência, acreditava serem muçulmanas ou originárias da África Subsaariana ou do Norte da África.

O promotor acrescentou que o homem afirmou ter escolhido Trappes por considerar a cidade um “refúgio para islamistas”.

Apesar disso, o suspeito negou ter agido com intenção terrorista e afirmou que “não se arrependeu”, segundo Christen.

A vítima fatal foi identificada como Pengo Bossio Wangi, um cidadão francês negro de 26 anos. Outras quatro pessoas ficaram gravemente feridas, uma delas ainda em estado crítico na quinta-feira. Três vítimas sofreram ferimentos leves. As autoridades não divulgaram a identidade dos feridos.

Segundo Christen, o suspeito tem histórico de problemas psicológicos e psiquiátricos, além de dependência química. Exames toxicológicos identificaram cannabis, cocaína e medicamentos prescritos em seu sangue. / Com informações da AP e AFP

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