A volatilidade no preço dos combustíveis, provocada pelo impasse na guerra dos Estados Unidos e Israel com o Irão, está a gerar incerteza nos negócios de v...

A volatilidade no preço dos combustíveis, provocada pelo impasse na guerra dos Estados Unidos e Israel com o Irão, está a gerar incerteza nos negócios de vários lusodescendentes nos Estados Unidos, a caminho das eleições intercalares.

Em São Marcos, cidade localizada a 60 quilómetros de San Diego, no sul da Califórnia, o português João da Silva Nunes tem sentido o efeito do aumento dos combustíveis e do custo de vida no seu negócio, o mercado de produtos portugueses e brasileiros "O Prego".

"Afetou muito", disse à Lusa o empresário, referindo não apenas o preço da gasolina, mas também o efeito das tarifas – 15% para produtos de Portugal – e o encerramento de empresas de distribuição e importação, o que dificulta o fornecimento da loja. "É por isso que nós precisamos do maior apoio possível para continuar a sobreviver", afirmou.

Aberto há seis anos, "O Prego" tem clientes regulares que agora estão a gastar menos e a sentir o efeito do aumento dos preços. "O combustível é sempre o que afeta mais, porque este país trabalha todo à base da logística. Então, assim que sobe o combustível, sobe o preço de tudo", explicou João da Silva Nunes. "O salário aumenta, mas pouco a pouco, e as pessoas não têm aquele bocadinho extra para poder comprar a mais".

O português notou ainda que muitos residentes sofreram cortes nos apoios que recebiam, incluindo no acesso subsidiado a serviços de saúde. "Então estão cada vez a pagar mais, têm cada vez menos dinheiro para poder gastar", resumiu.

"Muitas pessoas vêm cá somente para comprar o produto básico", salvo alturas especiais como Páscoa ou Natal. Clientes que antes gastavam 40 dólares de uma vez agora gastam 15. "Infelizmente, a vida subiu a um certo nível que está a ficar mesmo difícil para todos".

Nunes, que costuma votar nos candidatos que lhe agradam independentemente do partido, tem esperança que as coisas estabilizem e melhorem depois das intercalares, referindo que antecipa alguma mudança.

"O que nós precisamos é uma estabilidade para podermos andar para a frente", partilhou. "De momento não podemos programar nada, porque está tudo a mudar no dia-a-dia", considerou. "Então acho que sim, precisamos daquela certeza para poder andar para a frente".

Kevin Alameda, vice-presidente da Clipper Oil, em San Diego, também notou o efeito que a instabilidade gerada pela guerra com o Irão teve no seu setor.

"O preço do petróleo duplicou ou triplicou, e isso significa que todas as faturas a receber duplicaram ou triplicaram o valor", descreveu. "Por isso, todos os nossos clientes estão agora em pior situação, porque estão a pagar mais pelo combustível do que nunca".

Embora a Clipper Oil não tenha propriamente perdido clientes, há limites às linhas de crédito que dificultam o negócio dessas empresas.

"Antes conseguíamos vender combustível a um navio de cruzeiro por 400 mil dólares, e agora a mesma fatura custa um milhão de dólares porque o preço do combustível aumentou", explicou Alameda. Os barcos de pesca do atum estão numa situação especialmente desafiante, porque o preço do peixe não acompanhou o aumento do petróleo.

"Na nossa perspetiva, preferimos combustível mais barato, em que podemos vender maior quantidade a um preço mais baixo, porque os nossos clientes beneficiam", salientou. "Preferimos preços do petróleo mais estáveis e baixos do que um ano como este, com muitas oscilações, incógnitas e variáveis".

Olhando para o futuro e o período pós-eleitoral, o lusodescendente expressou dúvidas quanto à resolução da situação, não vislumbrando como os Estados Unidos vão conseguir sair da guerra no Irão.

"Penso que todos estão muito curiosos para ver como terminará a guerra no Irão, quando terminará, quais serão os efeitos a longo prazo no Estreito de Ormuz, quem o controlará e qual será o desfecho final", resumiu. "Temos esperança que termine o mais rapidamente possível. Mas não sabemos realmente o que o futuro nos reserva e o que vai acontecer por lá".

O setor navega na incerteza sobre como vai evoluir o preço do barril de petróleo. "Em que ponto nalgumas indústrias, como a da pesca, o preço do diesel vai tornar-se insustentável a ponto de os barcos já não poderem operar", questionou Kevin Alameda. Se os clientes não conseguirem pagar as contas, não conseguem pagar à empresa, notou.

Kenny Alameda, fundador da Clipper Oil e Clipper Capital Group, até disse estar otimista. "Mas tenho algumas preocupações, tanto económicas como políticas", afirmou. "Gostava que nos livrássemos do extremismo dos dois lados e todos pudessem dar-se bem e tentar ter uma posição centrista".

As eleições intercalares decorrem em 03 de novembro e vão decidir o controlo do Congresso. O partido democrata, que se opõe ao presidente Donald Trump, é favorito para conquistar a maioria na Câmara dos Representantes e tem possibilidade também de ganhar o Senado, embora neste caso as margens sejam demasiado apertadas para fazer projeções.

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