Em "Half Man", Stuart Campbell e Mitchell Robertson interpretam os protagonistas na fase jovem - HBO Max Depois de “Bebê Rena”, era natural que existisse uma expectativa enorme sobre qualquer novo projeto de Richard Gadd. O sucesso da série da Netflix foi tão grande que muita gente passou a associar seu trabalho a uma fórmula específica: humor constrangedor, trauma autobiográfico e situações que fazem o espectador rir e se encolher ao mesmo tempo.
Em “Half Man”, disponível na HBO Max, Gadd segue interessado pelas feridas emocionais que carregamos pela vida, mas troca o sarcasmo por algo muito mais sombrio.
A minissérie acompanha Niall e Ruben, dois jovens criados praticamente como irmãos por suas mães. Desde a adolescência, os dois desenvolvem uma relação intensa, marcada por afeto, dependência, ressentimento e violência.
Conforme os episódios avançam, fica claro que eles não conseguem existir completamente longe um do outro, mas também são incapazes de conviver sem se destruírem. A série acompanha essa dinâmica ao longo de vários anos, mostrando como cada encontro deixa novas cicatrizes.
Para quem gostou de “Bebê Rena”, vale um aviso: “Half Man” é uma experiência bem diferente. Menos acessível, menos engraçada e muito mais pesada. A sensação constante é a de assistir a uma bomba-relógio prestes a explodir. Mesmo nas cenas mais tranquilas existe uma tensão discreta, como se qualquer conversa pudesse terminar em tragédia.
Atuação é o acerto da produção
O que mais impressiona é a forma como Richard Gadd constrói Ruben. O personagem poderia virar apenas um retrato de violência e agressividade, mas a série insiste em investigar o que existe por trás desse comportamento.
Não para justificá-lo, mas para entender como alguém pode passar a vida inteira tentando corresponder a uma ideia impossível do que significa ser homem. É um retrato duro, desconfortável e, muitas vezes, doloroso de acompanhar.
Jamie Bell também merece destaque. Seu Niall é alguém constantemente dividido entre o desejo de seguir em frente e a incapacidade de romper os laços com o passado. Há uma fragilidade permanente no personagem, uma sensação de que ele está sempre tentando escapar de algo que continua o alcançando. Bell transmite isso com uma naturalidade impressionante.
Narrativa bem estruturada
A estrutura da série ajuda bastante. Os episódios alternam momentos da adolescência e da vida adulta dos protagonistas, revelando aos poucos as peças que explicam a deterioração daquela relação.
O recurso não é exatamente novo, mas funciona porque o roteiro sabe dosar informação e mistério sem transformar tudo em um quebra-cabeça artificial.
Nem tudo funciona com a mesma força. Em alguns momentos, a série parece tão determinada a mergulhar na escuridão que acaba se tornando exaustiva. Há episódios inteiros dominados por uma sensação de sofrimento contínuo que pode afastar parte do público. Além disso, certos conflitos se repetem tanto que algumas passagens perdem impacto.
Tristeza e amargura dominam
Ainda assim, é difícil negar a força do resultado. “Half Man” talvez não provoque o mesmo fenômeno cultural de “Bebê Rena”, mas demonstra que Richard Gadd está longe de ser um criador de uma obra só.
Ele continua interessado em personagens quebrados, relações tóxicas e traumas que atravessam décadas, mas encontra uma nova forma de abordar esses temas.
Quando chega ao último episódio, a série abandona qualquer preocupação em oferecer respostas confortáveis. O desfecho é amargo, ambíguo e profundamente triste. E talvez seja justamente por isso que funciona tão bem. Porque entende que algumas feridas não desaparecem, apenas mudam de forma.
“Half Man” é uma minissérie difícil, pesada e sufocante. Mas também é uma das produções mais intensas do ano. Um drama que incomoda, provoca e permanece na cabeça muito depois dos créditos finais.
*Fernando Martins é jornalista e grande entusiasta de produções televisivas. Criador do Uma Série de Coisas, escreve semanalmente neste espaço. Instagram: @umaseriedecoisas.
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