Inflação abaixo do esperado impulsiona Bolsa, reduz prêmios na curva de juros e fortalece expectativa de flexibilização monetária

O índice oficial de inflação subiu 0,16% no mês, bem abaixo da projeção do mercado, que esperava avanço próximo de 0,31%. O resultado reforçou a percepção de que o processo de desinflação segue consistente no país, provocando um fechamento da curva de juros, valorização expressiva das ações e queda do dólar frente ao real.

Além do cenário doméstico, o ambiente externo também colaborou para o bom humor dos investidores. A redução das tensões envolvendo Estados Unidos e Irã contribuiu para a acomodação dos preços do petróleo, diminuindo parte dos receios com uma nova pressão inflacionária global.

Para Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, o pregão foi marcado por uma mudança importante nas expectativas do mercado. “O fechamento desta sexta-feira refletiu uma combinação rara de melhora simultânea nos ativos brasileiros. O IPCA abaixo do esperado reforçou a percepção de que a desinflação ganhou consistência, elevando a convicção de que o Banco Central terá espaço para promover um novo corte da Selic na reunião de agosto. O principal sinal do pregão não foi apenas a alta do Ibovespa ou a queda do dólar, mas a mudança na composição das expectativas”, afirma.

Segundo o analista, o mercado voltou a precificar um ambiente de juros estruturalmente mais baixos, cenário que favorece empresas mais dependentes de financiamento e setores ligados à economia doméstica. Apesar do otimismo, ele ressalta que esse movimento ainda depende do cenário internacional. “Uma nova deterioração nas tensões entre Estados Unidos e Irã, com reflexos sobre o petróleo, ou uma reprecificação da política monetária americana pode interromper rapidamente esse movimento de compressão dos prêmios de risco”, pondera.

Na avaliação de Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, a reação da Bolsa foi motivada quase integralmente pelos fatores internos, principalmente pela qualidade da leitura do IPCA. “O dado não apenas veio abaixo do esperado, como sua composição foi muito positiva. Tivemos uma desaceleração importante nos preços de alimentação e também uma melhora na inflação de serviços, que é um dos componentes mais acompanhados pelo Banco Central. Isso reforça o processo de alívio observado desde o IPCA-15 e aumenta a probabilidade de um corte de 0,25 ponto percentual na Selic em agosto”, explica.

Entre os destaques positivos do pregão estiveram empresas mais sensíveis à trajetória dos juros. O setor de utilities registrou forte valorização, com companhias como Eneva e Equatorial entre as maiores altas. O segmento financeiro também avançou, impulsionado principalmente por Bradesco e BTG Pactual. No varejo, Magazine Luiza acompanhou o movimento positivo, enquanto o setor de incorporação imobiliária teve forte desempenho, com ações de Cyrela, Cury e Direcional em destaque. Empresas de locação de veículos, como Localiza, também figuraram entre os principais ganhos da sessão.

Para a próxima semana, os investidores permanecem atentos ao cenário internacional. A reunião da Opep poderá influenciar novamente os preços do petróleo, especialmente diante das incertezas envolvendo o conflito no Oriente Médio. No Brasil, as atenções se voltam para a divulgação do Boletim Focus, que poderá refletir uma revisão para baixo das expectativas de inflação após o IPCA divulgado nesta sexta-feira, reforçando, ou não, o cenário de flexibilização da política monetária pelo Banco Central.