O homem que dirigiu por nove anos a KGB (atual FSB) passou três dias no Brasil em agosto. Foi recebido por Lula fora da agenda oficial, subiu a bordo do maior navio de guerra da Marinha e apresentou propostas russas de cooperação em tecnologia nuclear.

O homem que dirigiu por nove anos a KGB (atual FSB) passou três dias no Brasil em agosto. Foi recebido por Lula fora da agenda oficial, subiu a bordo do maior navio de guerra da Marinha e apresentou propostas russas de cooperação em tecnologia nuclear.

A imprensa registrou burocraticamente a visita, mas o país não discutiu o que ela significa.

Nikolai Patrushev é o principal auxiliar de Vladimir Putin. Chefiou a KGB, que depois foi renomeada como FSB, de 1999 a 2008, sucedendo o próprio Putin. Depois de liderar o mais icônico e influente serviço secreto do mundo, comandou por 16 anos o Conselho de Segurança da Rússia. É um segundo Putin, para todos os efeitos.

Os Estados Unidos proibiram desde 2018 qualquer negócio com Nikolai Patrushev e bloquearam seus bens em território americano. União Europeia, Reino Unido e Japão adotaram medidas parecidas.

Um homem com essa biografia não vem ao Brasil a passeio.

Patrushev se reuniu no dia 4 com o assessor especial da Presidência, Celso Amorim, com o ministro da Defesa, José Múcio, e com o comandante da Marinha, almirante Marcos Sampaio Olsen. No mesmo dia, Lula telefonou a Putin. Nada disso é corriqueiro.

O pretexto do encontro é econômico, já que a Rússia fornece 63% do óleo diesel importado pelo Brasil e lidera a venda de fertilizantes ao país. Lula passou, a partir do encontro, a falar cada vez mais de "soberania", um recado que todos entenderam como uma subida de tom contra os EUA.

Putin e Patrushev fizeram carreira na KGB e é preciso entender o que isso significa na prática.

A informação falsa, no manual soviético, é a ferramenta mais importante de política externa. Serve para enfraquecer adversários por dentro e para facilitar os interesses russos no exterior.

Os russos batizaram a técnica de "dezinformatsiya".

O genocida Josef Stálin transformou a desinformação e influência em política central do estado soviético e é impossível entender o mundo nos últimos 100 anos sem considerar o papel central da KGB na conquista de corações e mentes nos quatro cantos do planeta.

O Brasil sempre foi uma país particularmente permeável à propaganda soviética, infiltrada em jornais, universidades e na cultura de massa. Politicamente, poucas ações foram tão bem-sucedidas como a criação e fomento da famigerada Teologia da Libertação e a criação das Comunidades Eclesiais de Base, pilares fundamentais da criação e massificação do PT num país pobre, católico e com baixíssimos índices de educação.

O objetivo da dezinformatsiya raramente é fazer alguém amar a Rússia. Jack Barsky, ex-agente soviético que trabalhou com diretamente com ações soviéticas de desinformação, resume o método como "aumentar o volume das divisões existentes" dentro do país-alvo.

Na América Latina, o material russo explora o ressentimento terceiro-mundista contra os Estados Unidos. Quanto mais o brasileiro desconfia dos americanos, mais difícil fica assinar acordos de defesa, comprar tecnologia militar ou aderir a sanções contra Moscou.

Estados Unidos e União Europeia identificaram e puniram ao menos três empresas com atividades identificadas à desinformação ligadas ao governo Putin.

A Social Design Agency, de Moscou, monta cópias de sites de jornais verdadeiros, com o mesmo logotipo e o mesmo layout, para publicar textos inventados. A Structura National Technologies fabrica perfis falsos e infla a repercussão desses textos.

O governo francês criou um órgão só para monitorar essas operações, o Viginum. Foi ele que mapeou a rede Pravda, ironicamente "verdade" em russo, com centenas de sites que publicam em dezenas de idiomas o conteúdo de canais russos, com truques de SEO para aparecer no topo das buscas do Google. Existe versão em português, direcionada ao público brasileiro.

A sofisticação da ação de guerra cibernética russa inclui a influência nas mais conhecidas plataformas e aplicativos de inteligência artificial, que consultam a internet para montar respostas aos usuários. A rede Pravda publica milhares de textos por dia para que a propaganda política russa apareça misturada entre as fontes jornalísticas sérias.

Os pesquisadores chamam isso de "LLM grooming", o adestramento dos robôs de IA com conteúdo que interessa o governo Putin e a KGB.

A NewsGuard, empresa americana que classifica a confiabilidade de sites de notícia, testou em janeiro deste ano os principais aplicativos de IA e chatbots que você conhece e usa. Em metade das respostas, eles repetiram informações falsas plantadas pela rede russa de desinformação. Metade!