A Lisbon AI Week já começou com debates e experiências sobre Inteligência Artificial. Nesta segunda-feira falou-se do futuro dos media e houve jovens desafiados a resolver problemas com IA.
A Lisbon AI Week começou esta segunda-feira, 21 de setembro, e com ela arrancaram sete dias de eventos espalhados por Lisboa para discutir, experimentar e perceber o impacto da Inteligência Artificial. O primeiro dia mostrou bem a amplitude da discussão: enquanto num dos encontros se procurava perceber como a tecnologia está a transformar os media, o jornalismo e as empresas, noutro testava-se uma nova forma de recrutar jovens num mercado de trabalho em que algumas das tarefas tradicionalmente entregues aos juniores já podem ser feitas por uma máquina.
Nas instalações da agência de comunicação The Square, Rudolf Gruner, diretor-geral do Observador, e Pedro Morais Leitão, administrador-delegado da Media Capital, discutiram “Como a IA irá impactar os media, o jornalismo e as democracias”. E uma das primeiras ideias a atravessar a conversa foi a de que, mais do que esperar para perceber até onde irá esta transformação, as empresas já estão dentro dela.
Rudolf Gruner comparou a Inteligência Artificial a “um comboio de alta velocidade, um TGV”, perante o qual o Observador está “a tentar correr o mais rápido possível” para conseguir entrar. A utilização começou de forma individual, muitas vezes por iniciativa dos próprios trabalhadores, mas levou entretanto à criação de uma estrutura dentro da empresa, com um responsável pelos processos de IA e pessoas em diferentes áreas — da redação ao departamento comercial e financeiro — envolvidas na definição de procedimentos.
Há já, por exemplo, processos testados e validados que podem ser utilizados por quem chega à empresa. E a tecnologia está também a ser aplicada diretamente aos conteúdos. Rudolf Gruner deu o exemplo das transcrições automáticas dos programas da Rádio Observador. Com dezenas de novos episódios de podcast publicados diariamente, seria “humanamente impossível” ter alguém a ouvir todas essas horas e a transformá-las em texto. A automatização permite agora que esse conteúdo seja pesquisável e indexável, estando também em curso a recuperação de vários anos de arquivo.
Uma das preocupações foi garantir que a adoção não criava duas velocidades entre os trabalhadores. “Todas as pessoas tinham que ter um mínimo, um patamar mínimo de utilização e compreensão para que a organização toda se movesse”, explicou Rudolf Gruner. A formação tornou-se, por isso, parte do processo, mas a experiência mostrou também que não bastava fazê-la uma única vez. Depois do entusiasmo inicial, era necessário manter sessões de continuidade. “A inovação também continua, há sempre novidades, é sempre necessário criar alinhamento, rever coisas que já fizemos e se ainda fazem sentido agora.”
Na Media Capital, a empresa proprietária da TVI e da CNN, entre outros títulos, Pedro Morais Leitão descreveu uma evolução semelhante. Numa primeira fase, a opção passou por “deixar acontecer”, permitindo que a tecnologia começasse a ser utilizada dentro da organização. Hoje, a IA já aparece na criação de texto e imagem, traduções, dobragens, montagem de vídeo e autopromoções televisivas, entre outras aplicações.
A empresa entrou, entretanto, numa nova fase. Depois das férias começou a trabalhar num plano estruturado para a Inteligência Artificial, com uma equipa dedicada e um responsável com objetivos nesta área. O plano inclui várias frentes e cerca de setentta iniciativas a implementar nos próximos anos.
A velocidade da adoção traz, no entanto, uma incógnita que os dois gestores colocaram em cima da mesa: quanto vai custar tudo isto?
Pedro Morais Leitão antecipa “um plano de escalada de custos” e compara a transformação em curso a uma revolução industrial. A diferença é que ainda ninguém sabe exatamente quem suportará a enorme vaga de investimento necessária. Na Media Capital, a própria preparação do orçamento para 2026 tornou visível o problema: diferentes áreas começaram a disputar orçamento para projetos de Inteligência Artificial. A resposta foi centralizar a decisão e procurar um perfil técnico capaz de avaliar aquilo em que faz ou não sentido investir.
Rudolf Gruner acrescentou números à discussão. Segundo os dados que citou, a estimativa de CAPEX (investimento na aquisição , melhoria ou manutenção de ativos físicos, equipamento e tecnologia) dos cinco ou seis principais grupos ligados à IA para 2026 ronda os seiscentos mil milhões de dólares. Ao mesmo tempo, apenas uma pequena parte dos utilizadores destas ferramentas paga atualmente uma subscrição. “Alguém vai ter que pagar isto”, disse o direetor-geral do Observador. “A receita, neste momento, é largamente insuficiente para cobrir o nível de investimentos.” As empresas estão a investir rapidamente para ganhar posição neste mercado, mas, à medida que precisarem de obter retorno, antecipa, “a pressão vai aumentar muito rapidamente” e “as faturas vão aparecer”.
Pedro Morais Leitão admitiu que, para os líderes dos media, a decisão passa por “embarcar no comboio sem saber bem o que é que lhe vai custar”. Não entrar pode deixar uma empresa para trás e entrar significa aceitar uma transformação cujo custo e destino ainda são difíceis de antecipar.
Há outra conta por fazer: a do emprego. Se a Inteligência Artificial permite executar rapidamente tarefas que antes ocupavam várias horas de trabalho humano, que funções desaparecem ou se transformam?
Uma pessoa com pouca experiência acaba por ter pouco a acrescentar ao trabalho que já é muito feito pela Inteligência Artificial”, disse Pedro Morais Leitão. Em sentido inverso, o administrador-delegado da Media Capital considera que profissionais com mais experiência tenderão a ser cada vez mais utilizados para rever e validar o trabalho produzido pela tecnologia. É uma transformação que acredita já estar a acontecer em áreas como consultoria, direito ou arquitetura.
Isso não significa necessariamente, ressalvou, que os juniores sejam desqualificados. As suas funções poderão antes ter de ser “totalmente reconvertidas”, o que obrigará também os profissionais seniores a repensarem a forma como trabalham com quem está a começar.
Rudolf Gruner identifica já essa mudança numa área concreta do Observador: tecnologia. “Neste momento, já não temos quase programadores juniores, e provavelmente não vamos ter no futuro, porque não precisamos de juniores para fazer código de baixo nível”.
Na redação, porém, diz não sentir ainda o mesmo fenómeno. O Observador continua a precisar de jovens talentos para a rádio e para escrever, embora reconheça que a evolução da IA poderá alterar também algumas tarefas tradicionalmente usadas como porta de entrada nas redações.
Há, ao mesmo tempo, trabalho que passa a existir precisamente porque a tecnologia o tornou possível. Rudolf Gruner deu como exemplo um programa de rádio de 40 minutos. Até agora, o Observador não tinha necessariamente alguém a visioná-lo integralmente, identificar os melhores momentos, cortar o vídeo e preparar vários conteúdos para redes sociais. A IA permite automatizar uma parte desse processo. “Não estamos a substituir pessoas por causa disso. Estamos a fazer mais coisas.”
A Inteligência Artificial está, porém, a mexer no negócio dos media por outra via. Se cada vez mais utilizadores encontram respostas diretamente em motores de pesquisa, assistentes de IA ou redes sociais, há menos razões para entrarem diretamente nos sites dos órgãos de comunicação.
Rudolf Gruner descreveu uma inversão que começou a tornar-se mais visível nos últimos dois anos: depois de anos de crescimento, as audiências dos sites de notícias começaram a cair.
No caso do Observador, explicou, cerca de metade das visitas chegava através de diferentes ferramentas da Google, incluindo Search, Discover e News. Esse tráfego está agora a diminuir, num fenómeno que tem vindo a ser associado ao chamado “Zero Click”: o utilizador encontra a informação de que precisa sem clicar na ligação que o levaria à fonte original.




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