Durante décadas, a globalização foi sinônimo de escala, integração e previsibilidade. Eficiência significava produzir onde fosse mais competitivo, buscar insumos em outras regiões e atender mercados distantes com custos menores. Esse mundo não desapareceu. Mas ficou mais instável. Tensões geopolíticas, tarifas, restrições sanitárias, eventos climáticos, oscilações cambiais e problemas logísticos passaram a afetar os negócios ao mesmo tempo. Decisões que
Durante décadas, a globalização foi sinônimo de escala, integração e previsibilidade. Eficiência significava produzir onde fosse mais competitivo, buscar insumos em outras regiões e atender mercados distantes com custos menores.
Esse mundo não desapareceu. Mas ficou mais instável.
Tensões geopolíticas, tarifas, restrições sanitárias, eventos climáticos, oscilações cambiais e problemas logísticos passaram a afetar os negócios ao mesmo tempo. Decisões que antes pareciam estruturais hoje precisam ser revistas com muito mais frequência.
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Exemplos não faltam. Os conflitos no Oriente Médio voltaram a mostrar a vulnerabilidade de rotas importantes para o comércio e a energia. No Mar Negro, ataques a embarcações e à infraestrutura portuária levaram compradores de grãos a buscar fornecedores alternativos. E tarifas, cotas e outras barreiras comerciais voltaram a fazer parte do dia a dia de governos e empresas.
Nesse ambiente, vantagem competitiva não depende apenas de tamanho ou presença internacional. Depende também da capacidade de interpretar o que está acontecendo e reposicionar recursos com rapidez e disciplina. Presença sem inteligência pode aumentar a exposição. O valor está em transformar presença em opções.
É aí que a regionalização ganha um novo significado. Não se trata apenas de vender em vários países, mas de combinar ativos produtivos, fornecedores, moedas, estruturas de custos e acessos comerciais diferentes. Quanto maior essa complementaridade, menor a dependência de uma única origem, destino ou rota logística.
Poucos setores mostram isso tão bem quanto o de proteína animal. A demanda mundial por carne bovina deve continuar crescendo, enquanto a produção está distribuída de forma desigual. Dados da OCDE e da FAO indicam crescimento de cerca de 13% no consumo global entre 2024 e 2034, puxado principalmente pelas economias emergentes.
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Nesse cenário, a América do Sul reúne recursos naturais, produtividade, conhecimento e uma base industrial preparada para atender mercados exigentes. O Brasil deverá responder por quase 30% das exportações mundiais de carne bovina em 2026, segundo estimativas do USDA. Argentina, Uruguai, Paraguai e Colômbia completam essa plataforma com ciclos pecuários, custos e habilitações sanitárias diferentes.
Essa diversidade se torna ainda mais valiosa nos momentos de incerteza. Diante de uma tarifa, uma restrição sanitária ou uma mudança na demanda, diferentes origens permitem ajustar a compra de matéria-prima, a utilização dos ativos, o destino da produção e o momento da comercialização. Regionalização, nesse sentido, é ter liberdade de escolha.
Na carne bovina, essa flexibilidade é fundamental. A geração de valor depende da coordenação entre origens, ativos e mercados ao longo de todo o ciclo produtivo e comercial.
Essa inteligência conecta gestão de riscos, operação e estratégia financeira. Decisões comerciais afetam margens, estoques, capital de giro, exposição cambial e financiamento. E negócios globais e sazonais não produzem resultados lineares: a fotografia de um trimestre nem sempre mostra o valor de uma decisão que será realizado mais adiante. Por isso, cada escolha precisa ser avaliada pelo retorno, pelo capital empregado e por sua contribuição para a solidez do negócio.
Essa lógica vai muito além do agronegócio. Energia, indústria e logística enfrentam o mesmo desafio: manter alternativas sem perder foco, rentabilidade ou capacidade de execução. A globalização não acabou nem necessariamente recuou. Ela ficou mais condicional, seletiva e instável. Nesse novo ambiente, as empresas mais preparadas serão aquelas capazes de pensar globalmente, operar regionalmente e decidir rapidamente. Gestão de riscos deixa de ser apenas proteção e passa a ser parte da estratégia de crescimento.
*Edison Ticle é CFO da Minerva Foods e conselheiro independente de diversas empresas, como Azzas 2154, Turbi, Shopper e Haoma. É mestre em Finanças e Economia pela FGV-SP, e pós-graduado em Advanced Management pela Harvard Business School



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