Especialista afirma que negociadores norte-americanos têm interesses pessoais e que Netanyahu prolonga conflitos por razões domésticas

Compartilhar matériaA mais recente rodada de negociações entre representantes dos Estados Unidos e do Irã encerrou-se na manhã desta segunda-feira (22), gerando reações contundentes no cenário geopolítico regional.

Em entrevista ao WW, o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) Juliano Cortinhas avaliou os possíveis desdobramentos do processo negociador e os interesses que permeiam as conversações.

Para Cortinhas, os negociadores norte-americanos carregam uma agenda marcada por motivações pessoais, e não pelo interesse genuíno na estabilidade regional.

"Eu vejo os negociadores do Trump com vários interesses na mesa de negociações, mas esses interesses não passam diretamente pela estabilidade da região", afirmou o especialista. Segundo ele, a paz no Oriente Médio seria, na prática, o objetivo menos almejado pelos envolvidos nas negociações.

O professor citou especificamente Jared Kushner como exemplo dessa dinâmica. "O Jared Kushner não é alguém com capacidade diplomática e não tem esse interesse do Estado americano. Ele é um especulador imobiliário que quer enriquecer com esses acordos", declarou Cortinhas, classificando a situação como "muito lastimável em termos de qualidade da democracia americana".

Para o analista, Trump teria inserido assessores com interesses próprios nas negociações, em detrimento dos interesses nacionais. Além disso, Cortinhas apontou que há um componente de política doméstica: um acordo minimamente aceitável poderia trazer benefícios eleitorais a Trump e reduzir a insatisfação do eleitorado norte-americano.

A decisão dos Estados Unidos de permitir que o Irã retome a venda de petróleo deixou Israel, segundo o professor, "absolutamente furioso". Cortinhas avaliou que Israel também analisa a situação pelo prisma de sua política interna.

"Netanyahu está enfrentando processos muito sérios internamente e corre inclusive o risco de ser preso depois de sair de sua posição de líder", explicou o especialista.

Nesse contexto, o professor argumentou que o prolongamento dos conflitos na região — seja na Palestina, com o Irã ou com o Líbano — serviria aos interesses políticos de Netanyahu.

"Ele não quer a paz no Oriente Médio, porque a paz significa que ele pode estar mais próximo de uma saída do seu governo", disse Cortinhas. Para o analista, Netanyahu busca se manter como figura indispensável no governo israelense, tentando adiar possíveis processos judiciais internos.

A contenção desse ciclo, segundo ele, dependeria de uma pressão direta dos Estados Unidos sobre Israel, tornando as negociações "extremamente difíceis, não só com o Irã, mas com toda a região".