Matemática ajudou a desenvolver campo da economia que otimizou transplante de órgãos e seleção em universidades

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1º.ago.2026 às 23h00

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Rafael Cariello Doutor em economia pela USP e repórter especial da Folha

Doutora em economia pela Universidade de Stony Brook e professora do Insper

[RESUMO] Três prêmios Nobel de Economia vieram ao Brasil para participar de congresso sobre teoria dos jogos que começou no último fim de semana na USP, sinal inequívoco do prestígio internacional da organizadora do evento, Marilda Sotomayor, 82. A matemática, que pensava em ser professora primária na juventude, se tornou coautora de pesquisadores renomados dos EUA no início da carreira e se consolidou como um dos grandes nomes em sua área de pesquisa, trajetória que desperta debate sobre se deveria ter sido lembrada pela academia sueca.

Alvin Roth, 74, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2012, faz lembrar o escritor e neurologista Oliver Sacks: além da barba grisalha, da calva e dos óculos, ele também tem a fala rápida e inteligente do autor de "Tempo de Despertar". Roth é um senhor simpático —prolixo e sorridente— que, ao que tudo indica, não gosta de perder tempo.

Pelo menos uma testemunha da época em que Roth dava aulas na Universidade de Pittsburgh, nos anos 1980, relata que o pesquisador aproveitava o caminho entre a sua casa e o Departamento de Economia para fazer exercícios. Atrelava dois pesos aos tornozelos e levava outros dois nas mãos enquanto caminhava em ritmo acelerado até o campus.

No fim de junho, Roth deu entrevista à Folha por vídeo, segurando o celular a um braço de distância do rosto. Enquanto respondia às perguntas, percorria a passos largos um circuito ao ar livre —em intervalos regulares, uma mesma árvore e uma construção em madeira passavam pela tela, ao fundo.

A teoria que rendeu a Roth a maior láurea da sua profissão busca compreender transações que, por muito tempo, estiveram fora do escopo da ciência econômica. A pesquisa de Roth tem como objeto mercados sem preço, ou seja, mecanismos de alocação de recursos que prescindem da intermediação do dinheiro —justamente daquilo que, para a maioria das pessoas, caracteriza a economia moderna.

Roth queria saber como funcionavam "trocas" em que um valor monetário não era bem-vindo ou não tinha muita utilidade: como se ajustavam as preferências de homens e mulheres entre si, nos casamentos, por exemplo; ou se era possível "casar" de maneira satisfatória e eficaz hospitais e residentes de medicina, empresas e candidatos a empregos; ou como fazer chegar, aos pacientes adequados, os rins dos doadores em potencial.

O ramo da economia que ele ajudou a fundar, que explica e promove a melhor alocação mútua entre as partes interessadas, ganhou o nome de teoria do matching —palavra que significa pareamento, ou seja, um método para formar pares.

Ao explicar e promover o melhor emparelhamento possível entre doadores e transplantados, por exemplo, Alvin Roth não apenas contribuiu para uma melhor compreensão da realidade, mas, talvez mais diretamente do que outros vencedores do Nobel de Economia, efetivamente fez o mundo funcionar um pouquinho melhor.

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Marilda Sotomayor é uma senhora elegante, de cabelos grisalhos. Aos 82 anos, a professora emérita da FEA-USP é esguia e tem o porte ereto. Ao receber a reportagem da Folha em um dia frio de inverno em São Paulo, portava xale e sobretudo. Marilda fala com muita clareza e mantém a voz um pouco mais alta do que seria necessário, como se estivesse dando uma aula, mesmo em uma conversa a dois.

Nos anos 1980, quando ainda estava começando a sua carreira de economista matemática, Marilda foi pesquisadora visitante na Universidade de Pittsburgh. Ali trabalhou com Alvin Roth e o ajudou a organizar a teoria do matching. Os dois ocupavam salas próximas no Departamento de Economia.