Os livros de Job e Jonas contam as histórias de duas personagens diferentes, mas ambas funcionam como parábolas sobre a justiça e o sofrimento humano. O no...
Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
O que nos dizem as histórias de Job e Jonas sobre o sofrimento e a justiça divina? Este é o sétimo episódio da segunda temporada de As Histórias da Bíblia, o podcast da Rádio Observador, em que deciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido. Eu sou o João Francisco Gomes, sou jornalista e escrevo sobre religião no Observador.
Sou Daniel Nascimento, padre e professor na Universidade Católica Portuguesa.
Eu sou o João Basto, padre e colunista do Observador.
Esta semana falamos não de uma, mas de duas personagens da Bíblia. Apesar de serem duas histórias diferentes, contadas em dois livros diferentes, elas têm algo em comum. Ambas funcionam como parábolas sobre a justiça de Deus e o sofrimento humano. Falamos de Job, o homem justo que perdeu tudo, que aguentou todas as provações até se revoltar contra Deus, e de Jonas, o profeta que fugiu de uma missão divina, passou três dias na barriga de um peixe gigante e que também se revoltou contra Deus quando este não quis exterminar os inimigos de Israel. Vamos tentar perceber como é que estas duas vidas se cruzam. Estas são as histórias da Bíblia. Olá a todos. Como sempre, antes de irmos ao tema do nosso episódio, quero lembrar aos nossos ouvintes que nos podem enviar perguntas, comentários e sugestões para o nosso e-mail: ashistoriasdabiblia@observador.pt. Temos recebido muitas perguntas, muitas sugestões. Obrigado a todos os ouvintes que nos seguem todas as semanas, aos domingos e, ao longo das últimas semanas, também às quintas-feiras. Já sabem que agora encontramo-nos aqui duas vezes por semana, além deste episódio semanal, que sai sempre aos domingos e passa na Rádio Observador depois do noticiário das 9h00 e fica sempre em podcast. Temos também um episódio extra todas as semanas, às quintas-feiras, em que em 10 minutos temos tentado responder a uma pergunta enviada pelos nossos ouvintes para o nosso e-mail: ashistoriasdabiblia@observador.pt. Também nos comentários do YouTube e das plataformas de podcast. É um episódio que fica apenas em podcast, não passa na rádio. Portanto, se quer garantir que nada lhe escapa e que apanha sempre todos os episódios que vão saindo nas plataformas, é uma questão de clicar em "seguir o programa" para receber uma notificação sempre que sair um novo episódio. E na próxima quinta-feira vamos tentar responder a uma pergunta complicada: o que é que nos conta a Bíblia sobre o Diabo? Enfim, de que maneira é que este tema tem sido difícil de lidar para os cristãos? Não sei qual de vocês é que se vai querer voluntariar para responder a esta pergunta.
Seremos sacrificados.
Os nossos ouvintes vão poder ouvir a resposta na próxima quinta-feira. Esta semana temos em cima da mesa, como eu dizia na abertura, duas personagens bíblicas para conhecer: o famoso Job e o profeta Jonas, famosíssimo também por ter passado três dias na barriga de uma baleia. Quer dizer, toda a gente acha que é uma baleia, mas na Bíblia, na verdade, não se diz que é uma baleia. Já lá vamos. Mas antes de tentarmos perceber o que é que estas duas figuras têm em comum, se calhar tentamos conhecer cada um deles. João, queres ajudar-nos a perceber um bocadinho quem era Job? Quer dizer, a história dele surge relatada num livro que tem o seu próprio nome, o Livro de Job. É o primeiro dos chamados livros sapienciais. É um longo livro, praticamente todo escrito em poesia e tem uma característica interessante, que é: parece que não tem tempo nem espaço. Parece que não sabemos exatamente onde é que aquilo se passa ou quando é que aquilo se passa. Consegues resumir-nos mais ou menos a história desta figura?
Realmente, o Livro de Job é o primeiro dos sapienciais, são uma secção de livros da Bíblia, que são livros poéticos, muito ligados a um conjunto de sabedoria, que não é um conto histórico, não é propriamente uma epopeia, não são profecias, é um outro tipo de estilo literário. Há muitos comentadores que falam disto como uma espécie de cume e pináculo da literatura universal. E Job parece ser todos os seres humanos ao mesmo tempo, num espaço que é todos os espaços e todo o tempo. Job é apresentado logo ao início como um homem íntegro, reto, temente a Deus e afastado do mal. É isso que o caracteriza. Não são propriamente características temporais, apesar de as características espaciais de Job, o lugar onde ele vive, mostrarem que ele nem está a habitar claramente no centro do poder e no centro das decisões e do establishment da época. Job parece ser, e isto é muito claro, uma espécie de Noé e de Abraão, no sentido da sua retidão. É um homem íntegro e isto é fundamental, porque é um homem íntegro, que se afasta do mal, que tem uma vida feliz. É um ser humano que tem uma vida cumulada de bens e é isso que permite que Satã, o demónio, diga a Deus que Job só é um homem íntegro unicamente porque é um homem que tem muitos benefícios.
Tudo lhe corre bem, basicamente.
Tudo lhe corre bem e por isso é um homem íntegro, porque no dia em que deixar de ser um homem de tudo lhe correr bem, ele vai deixar de ser um homem íntegro e vai amaldiçoar Deus. E Deus permite que isso aconteça, ou seja, vão acontecer a Job um conjunto de circunstâncias que lhe vão retirar todos os benefícios, desde os bois, aos restantes animais, à sua casa, até aos próprios filhos. Vai ficar com a vida toda despedaçada. E se isso não chegasse, o demónio vai de novo até Deus e dizer do gênero: "Pois, mas isto foi às coisas exteriores, mas no dia em que ele ficar doente E ele realmente não te vai abençoar. Vai te amaldiçoar, vai deixar de ser íntegro. E é isso que acontece a Jó. Já não bastava o que lhe aconteceu, ele fica doente, não maldiz a Deus, mas a paciência de Jó também, nós dizemos na expressão portuguesa: "Jó é um homem muito paciente, tens que ter a paciência de Jó".
Começas a esgotar-te a paciência.
A paciência de Jó também tem os seus limites, ou seja, Jó amaldiçoa o dia do seu nascimento. Aliás, Camões vai pegar na sua poesia, em Jó, para ele próprio se retratar como uma espécie de Jó recente. E é aí que surgem três amigos que tentam explicar a Jó o seu sofrimento, a partir da ideia de que se ele sofre é porque pecou e, portanto, ele está a ser devidamente castigado. Mas Jó recusa isso, ou seja, ele é e sempre foi um homem íntegro e é no falhanço destas três explicações, que Deus surge e sem explicar a Jó aquilo que está a acontecer, tenta lhe dar uma outra perspectiva, numa espécie de viagem pelo universo, pelo cosmos, e no final tudo termina bem com Jó ter quase a vida duplicada, com os seus bens também duplicados.
Então nós já vamos ao desfecho da história, mas antes, Daniel, há um aspecto curioso. Logo no início do texto, o João mencionou esse momento em que o Diabo aparece junto de Deus e quase parece fazer ali uma aposta com ele. Diz assim: "Eu aposto que Jó se perder tudo o que tem, se perder o gado, se perder a família, se perder a riqueza, deixa de ser assim um homem tão temente a Deus". Isto, de acordo com o texto, acontece numa espécie de concílio dos deuses, à falta de melhor expressão, está ali uma espécie de reunião divina em que o Diabo conversa com Deus para fazer esta aposta com ele. Isto de alguma maneira são reminiscências ainda de algum tipo de religiosidade antiga, politeísta, que ainda olhava para o céu como habitado por uma série de seres divinos com um deus principal à cabeça?
Em parte, sim, mas a tua escolha de palavras é interessante, porque falaste de Diabo, de demónio, de concílio de deuses, e o texto não nos diz bem isso. O nome utilizado é Satan, que não é exatamente uma questão de um demónio, é mais um acusador, e não é bem um concílio de deuses, mas é uma espécie de corte celestial, que é algo que é um bocadinho diferente do monoteísmo puro, que acabará por se impor, mas também não é exatamente um politeísmo. Há um deus e depois há uma espécie de figuras angélicas, à falta de melhor palavra, que são uma espécie de conselheiros ou figuras secundárias. E isto está presente em certas camadas por todo o Antigo Testamento. Portanto, é uma concepção que depois vai sendo purificada, mas que ainda encontramos aqui em alguns salmos e noutros textos. E isso nota-se nesta moldura externa do texto, como o João já nos disse. No fundo, há dois estilos aqui presentes. O livro é, sobretudo, poesia, neste diálogo e discursos de Jó e dos seus amigos, mas há um enquadramento, uma moldura, ou seja, os primeiros capítulos e o último, que são em narrativa, que são provavelmente uma espécie de história mais folclórica, devedora também de outras culturas do antigo Próximo Oriente, neste género sapiencial, que será talvez a parte mais antiga, que termina com um happy ending, com um final feliz. E, portanto, Jó passa a prova e é recompensado. E é a parte poética que vai problematizar toda esta questão. De facto, há culpa ou não de Jó? Há aqui um certo debate polémico com o tipo de literatura que temos estado a ver noutros programas, nesta tal história deuteronomista, esta conceção deuteronomista, que está muito clara, por exemplo, em Josué, nos Juízes, em que há um mal feito, Deus castiga, o homem arrepende-se e Deus reconcilia. E este esquema simplista que vai levar a que se veja o mal sempre como um castigo de algum pecado feito, que é algo que ainda está presente no Novo Testamento, por exemplo, Jesus também ataca um bocadinho essa questão. Este cego de nascença é cego por quê? Porque ele ou alguém da sua família pecou. Portanto, o mal físico visto como um castigo de algum mal.
De retribuição. Portanto, isso é muito deuteronomista, de certa forma. Jó já coloca isso em causa. Se até Jó, que não fez mal, os amigos vão dizendo: "Então, mas isto é certamente o castigo de algum mal que tu fizeste". E vamos vendo que a coisa é mais complicada. Não há mal para os malvados e bem, bênção para os bondosos. A vida é muito mais complexa.
Só uma pergunta rápida que eu faço em quase todos os episódios para uma resposta sempre muito difícil. Desculpa pôr-te nesta posição, Daniel, mas o que é que conseguimos saber, mais ou menos, sobre quando é que este texto foi escrito, qual o tipo de circunstância em que pode ter sido escrito? Porque uma coisa que li muito sobre o livro de Jó é que é muito difícil de penetrar aqui nesta dinâmica.
De certa forma, acho que dou quase sempre a mesma resposta. É difícil dizer, colocar um autor.
Há grandes dificuldades, até no campo lexical. Há aqui imensas palavras que, no hebraico, só aparecem aqui, não se sabe muito bem o que querem dizer. Ainda assim, é no período persa que geralmente colocam este texto, pelo uso de certas palavras mais tardias. Portanto, não será dos textos mais antigos, será um texto pós-exílico, ainda que parece mais lógico considerar, e parece-me que será essa a opinião majoritária, esta tal moldura externa, esta tal narrativa base de Jó ser mais antiga e depois estes textos poéticos serem posteriores, pós-exílicos.
João, a larga maioria do livro de Jó, talvez 90 e tal% do livro, é esta longa conversa entre Jó e os três amigos, que dizias há pouco. Uma conversa poética. Não sei se é um diálogo ou se é uma sequência de monólogos, na verdade, porque cada um vai falando.
Sim, não há propriamente aqui um diálogo.



