Em cartaz em 'Tom Jobim Musical' a partir desta sexta-feira, 12, ator fala sobre aproximação com o canto

Priorizar nos meus resultados Google Chega em São Paulo no dia 12 de junho a última temporada de Tom Jobim Musical, uma produção que retrata a vida do músico Tom Jobim (1927-1994) e suas parcerias musicais, com texto de Nelson Motta e Pedro Brício. O fim da peça coincide com um grande início para Leopoldo Pacheco: intérprete de Vinícius de Moraes na produção, o ator de 65 anos tem dado os primeiros passos no teatro musical. Desde Elvis: A Musical Revolution, peça de 2024 dirigida por Miguel Falabella e estrelada por Leandro Lima, o ator tem tido mais contato com esse formato, ao fazer o papel de Coronel Parker, que timidamente cantava algumas passagens em meio aos outros personagens.

Após décadas de experiência como ator, visagista e diretor de teatro, a cantoria ainda era novidade para o artista de 65 anos. “Nunca arrisquei cantar em público, inclusive porque morria de vergonha”, confessa Pacheco. Além de cantar, ao lado de Elton Towersey, que interpreta Tom Jobim, Pacheco dá vida a um Vinícius de Moraes narrador dos grandes momentos da vida do músico, em uma montagem que privilegia momentos divertidos da história da dupla, bem como os grandes marcos da carreira de Jobim, como a gravação do icônico disco Elis & Tom, de 1974, feito com Elis Regina (1945-1982). A VEJA, Leopoldo Pacheco fala sobre a iniciação no teatro musical e reflete sobre a identificação do brasileiro com a Bossa Nova. Confira:

Como esse papel chegou até você? Tom Jobim Musical estreou no Rio de Janeiro em 2024, mas quem fazia o Vinícius de Moraes era o Otávio Müller. Eu entrei na temporada de São Paulo do ano passado, quando fui seu substituto. Eu peguei o espetáculo já construído, mas já estou fazendo há bastante tempo, tenho uma intimidade bem grande com ele. E eu fui convidado porque, curiosamente, eu tinha feito uma substituição no Elvis: A Musical Revolution [musical de 2024], peça em que Luiz Fernando Guimarães fazia o Coronel Parker. Quando estava no final da temporada, eu entrei na peça e foi meu primeiro contato em cena com um musical, que teve a mesma equipe de produção do Tom Jobim Musical. Acabei assumindo o Vinícius de Moraes por esse caminho.

Desde Elvis, como mencionou, o senhor tem se aventurado no teatro musical. Como tem sido a experiência? Eu lembro que logo que eu saí da EAD [Escola de Arte Dramática da USP] lá nos anos 1980, eu não tinha muita técnica, e a aula de canto foi uma coisa que me ajudou muito na voz, na fala. Mas eu nunca fiz um musical, nunca arrisquei cantar em público, inclusive porque morria de vergonha. E no Elvis, eu quase não cantava, só algumas coisas que eram em conjunto. No Tom Jobim eu tenho alguns pequenos momentos. Eu me sinto muito confortável por ter estudado e saber que, como ator, se eu estudar, eu consigo cantar. Isso foi uma coisa que me deixou bem tranquilo. Uma outra coisa é minha parceria com o Elton [Towersey], no caso, que é o Tom Jobim na peça, estamos sempre bastante juntos em cena. Ele sabe muito, ele conhece muito de técnica vocal, ele alcançou um lugar de Tom Jobim que eu acho que é muito especial. Eu me sinto seguro do lado dele, ele me ensina muito. Eu tenho arriscado e tenho me sentido mais confortável para cantar.

Qual a sua relação com música e poesia, que são os grandes temas da vida e da carreira do Vinícius? O brasileiro, o Brasil e a música têm uma relação muito profunda. Todos esses períodos aí que vieram do fim dos anos 50 para cá, a Bossa Nova, Tropicália, a Jovem Guarda, são as trilhas pessoais que a gente tem, Clube da Esquina, Milton Nascimento… Cada um de nós tem uma trilha pessoal. Quando a gente vai falar de artistas como Vinícius de Moraes (1913-1980), Elis Regina (1945-1982), Dolores Duran (1930-1959), esses personagens que permearam as parcerias do Tom Jobim (1997-1994) e por consequência do Vinícius também, fazem muito da alma da gente. Temos uma construção musical muito forte, um conhecimento musical muito grande. Eu sempre tenho a impressão que se o Brasil tivesse feito da música sua indústria, como o americano fez do cinema sua indústria, seria de um alcance e qualidade criativa absurdos. O Brasil tem essa potência musical. 

Qual parte da relação do Tom e do Vinícius é retratada na peça? É essa onda dos dois amigos que criaram uma história juntos. Às vezes, eu comparo um pouco Vinícius e Tom com Leopoldo e Elton, no sentido de que eles se apoiaram muito e foram muito irmãos. A boemia trouxe um lugar tão profundo como artistas para eles e eles tiveram realmente um encontro de almas, são dois profissionais de uma qualidade muito grande que falavam uma língua muito parecida. Nelson Motta e Pedro Brício, escritores da peça, escrevem muito bem. Nelson conhecia esse universo realmente de uma maneira incrível, o jogo que o Tom e o Vinícius têm em cena é um jogo bem humorado, é um jogo de brincadeiras. O Tom não queria fazer o show do Carnegie Hall, em Nova York, e tinha medo de entrar num avião. Toda essa discussão a respeito de ter medo de entrar num avião, os dois têm em cena. São situações hilárias que eles têm e isso tudo vai entrando no texto. Mas o espetáculo também traz um panorama profundo, momentos difíceis da separação do Tom com a Teresa, vai para um lugar mais dramático, mas são pequenos lances. Tem o encontro dele com a Elis Regina, e eu como narrador estou ali fazendo parte dessa história. Vinícius não esteve presente na gravação do disco [Elis & Tom], mas na nossa peça ele está como narrador, então são situações que são muito sérias e muito divertidas de se ver.

Teatro musical é uma arte de nicho no Brasil, ao seu ver? Eu acho que ele está deixando de ser de nicho e está crescendo muito. E você tem algumas possibilidades no musical que são muito variadas, desde os musicais americanos com formato fechado que vem ao Brasil ou os que são criados aqui. Eu vejo os nossos artistas em todos os níveis, da equipe técnica, o elenco, aos criativos, todos que trabalham com musical, em um nível que vem subindo muito e vem abrangendo muitos públicos diferentes. Está deixando de ser um nicho e entrando em um lugar onde você pode ver um musical como Tom Jobim Musical, que é da nossa música brasileira, ou você vai ver Tina Turner, ou você vai ver o Shrek, ou o Fantasma da Ópera, a Ópera do Malandro, que é tão nossa, tão Chico Buarque. Acho que esse lugar se abriu muito.

Antes de vir a São Paulo, a peça já passou por outras capitais, como Curitiba e Belo Horizonte. Como foi a recepção do público até agora? Em todos os lugares foi muito bem recebido. Felizmente a gente tem um espetáculo que é uma grande produção, extremamente bem cuidada, que viajou com tudo o que precisa para acontecer com a melhor qualidade. Eu acho que as pessoas se sentem muito prestigiadas em ver um espetáculo com tanta qualidade sendo colocado em teatros tão grandes, sempre com muito público, espaço de dois mil e tantos lugares e sempre lotado, abrindo sessão extra. As pessoas querem ver isso. E o fato de ser Tom Jobim traz uma identificação muito grande, tem momentos em que a gente abre verdadeiramente para o público cantar junto. Os três, João Gilberto (1931-2019), Vinícius e Tom, quando se encontram e sentam para tocar, abre-se para o público, o público canta junto. É bonito à beça. Então, acho que Tom Jobim tem um encantamento. 

Também há a nostalgia da Bossa Nova envolvida, certo? Sim, tem um público mais velho que é bem nostálgico, como eu. Quando me chamaram, eu fui me alimentando dessas coisas, como as histórias da minha sogra empresária, os shows que eu vi quando era moleque. Eu acho que isso tudo traz para a gente um lugar realmente de nostalgia. Agora tem uma moçada nova que está redescobrindo essa bossa nova, essa música sofisticada. Essa música influenciou muito e influencia ainda vários músicos do jazz americano, como no mundo inteiro. No Japão, você vê bandas que são super influenciadas pela Bossa Nova. Eu fico vendo que aqui também a gente tem shows em que você fala assim: “Nossa, tô entendendo de onde veio e onde foi parar”. Você pega um Jair Rodrigues falando: “Deixa que digam, que pensem, que falem”. Esse cara tava fazendo rap lá atrás, fazendo uma música falada. Era sensacional. Acho que tem esse lugar de redescobrir também essa música sofisticada, e a moçada está tendo essa experiência.

Durante sua carreira, o senhor já interpretou tanto vilões quanto mocinhos. Se pudesse descrever o papel do Vinícius nesse musical, como o definiria? Acho que ele é uma mistura dessas duas coisas. A boemia traz esse lugar da vilania. Hoje em dia quando você pensa na quantidade que essas pessoas bebiam, era impressionante, mas tem um lugar de um encontro na boemia que é tão duro e tão apaixonante ao mesmo tempo. Esses caras se encontraram muito nesse lugar quase suspenso que a noite trazia. Foi uma vida muito noturna tocando em bares, em boates, um período em que a noite aconteceu com muita força. É bonita a boemia e a experiência de noites prolongadas e ao mesmo tempo tão criativas. Eu acho isso curioso. Hoje em dia, muita gente nem bebe e tem uma vida criativa incrível. Não é uma regra, mas foi um período em que a boemia contaminou a área artística mesmo. 

Entre essas características, qual mais o agrada levar para os palcos ou para a TV? Eu acho o vilão sempre mais gostoso porque o vilão pode tudo. No mocinho, você tem um caminho ético onde você não pode escorregar, tem uma linha muito tênue, enquanto o vilão pode escorregar para onde ele quiser, pode fazer o que quiser. Acaba sendo mais divertido fazer vilão. Eu me divirto muito, sempre.

Com exceção das rápidas participações em Vale Tudo e Três Graças, faz três anos desde Fuzuê, sua última novela na Globo. Tem planos de voltar para a TV? Ainda não tenho. Eu estou fazendo essa turnê agora que me ocupou bastante, mas também fiz teatro, série, cinema, bastante coisa. Na televisão ainda não tenho nenhum projeto. Me agrada muito o formato do streaming, estou indo atrás também de fazer mais séries. A experiência que eu tive com Sutura [série nacional da Prime Video] foi muito legal.

Serviço: Tom Jobim Musical. Teatro Bradesco, na Rua Palestra Itália, 500 – 3º piso – Bourbon Shopping São Paulo – Perdizes. De 12 de junho a 28 de junho de 2026, múltiplas sessões. Ingressos via Uhuu.com.