Discurso sobre enfrentamento ou vassalagem a Trump, ‘coautor’ das propostas de Flávio para o Brasil, serve à comunidade global e ao púbico interno

O repórter Cleber Lourenço, do ICL Notícias, levantou, uma por uma, as 21 exigências dos Estados Unidos para tirar da garganta dos exportadores brasileiros o facão do tarifaço.

Em seguida, ele conferiu as propostas contidas no plano de governo e nas declarações de aliados de Flávio Bolsonaro (PL) sobre os mesmos assuntos. Descobriu, assim, que tudo o que o Zero Um propõe ao país que deseja governar a partir de 2027 é um grande copia e cola dos planos do chefe da Casa Branca para o que ele considera o seu quintal.

Nada menos do que 16 das 21 condições impostas por Trump sobre o Brasil são defendidas pelo candidato da extrema-direita, de maneira direta ou indireta. 

Trump e Flávio estão alinhados em temas como abertura comercial, parcerias sobre terras raras, redução de barreiras regulatórias, retirada de entraves à tecnologia (leia-se plataformas digitais, redes sociais e e IA) e restrições ao PIX. 

A continência à bandeira dos Estados Unidos, onipresente nas manifestações bolsonaristas, e a postura subalterna a Donald Trump já deixavam claro que, torcido e retorcido, a grande proposta do filho de Jair Bolsonaro é a terceirização do governo para as mãos do secretário de Estado Marco Rubio, como já acontece em países vizinhos – ou por medo, ou por fragilidade ou por convicção, caso de Javier Milei.

Lula (PT), durante seu mandato, não se negou a conversar, negociar e buscar consensos com o governo norte-americano, um parceiro comercial histórico e estratégico. Mas se ajoelhar já seria um pouco demais.

No discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira (22), Lula falou em alto e bom som que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Um dia antes, em entrevista a CNN Internacional, ele acusou Trump de agir como “imperador" e pediu respeito.

Na tribuna das Nações Unidas, em Nova York, Lula disse que a entidade enfrenta o momento mais crítico desde que estreou por lá em 2003. “A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis, os que não têm exército, nem arsenais, nunca foi tão pequena. Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel”, disse.

O que está em jogo, afirmou o presidente, é a opção entre o multilateralismo e o unilateralismo, a democracia ou o extremismo, a soberania ou a subordinação. 

“Essas escolhas demandam coragem, vontade política e clareza de objetivos. Isso é o que se espera de um estadista”, disse.

O discurso é uma fita de dupla face. Serve aos líderes globais que deixaram a crise escalar e também ao público interno, que está diante dos mesmos desafios em outubro.

A postura de um candidato e outro, neste quesito, não poderia ser mais distinta.