Uma crescente onda de vídeos falsos, gerados por inteligência artificial (IA), tem enganado idosos no Brasil, utilizando avatares de médicos para disseminar informações de saúde duvidosas e lucrar com a venda de produtos. Esses conteúdos, impulsionados por algoritmos e uma produção em escala industrial, exploram o medo e a urgência para atrair milhões de visualizações [...]
Siga o Mix Vale no GoogleVeja as notícias do Mundo com destaque nas buscas do GoogleAdicionar Uma crescente onda de vídeos falsos, gerados por inteligência artificial (IA), tem enganado idosos no Brasil, utilizando avatares de médicos para disseminar informações de saúde duvidosas e lucrar com a venda de produtos. Esses conteúdos, impulsionados por algoritmos e uma produção em escala industrial, exploram o medo e a urgência para atrair milhões de visualizações e induzir pessoas vulneráveis a abandonar tratamentos médicos comprovados ou a adotar práticas sem respaldo científico.
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A estratégia por trás desses vídeos é meticulosa: tutores ensinam a criar títulos e roteiros que apelam diretamente ao medo e à sensação de urgência. O objetivo é fazer com que o espectador sinta um risco iminente à saúde, mantendo-o engajado até o fim do vídeo. Os idosos são o público-alvo ideal para essa tática, pois tendem a passar horas assistindo a vídeos longos, podem ter renda disponível e, muitas vezes, confiam em quem promete soluções para problemas de saúde.
A análise de aproximadamente 27 mil comentários em vídeos desses canais revelou casos preocupantes de idosos que alteraram seus comportamentos de saúde com base nas recomendações. Muitos relatam ter iniciado tratamentos caseiros ou, de forma ainda mais perigosa, interrompido medicamentos prescritos por profissionais reais.
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O gastroenterologista Jaime Zaladek Gil, do Hospital Israelita Albert Einstein, alerta para os riscos de tais práticas. Ele explica que, embora chás possam aliviar sintomas, certas condições, como a presença da bactéria H. pylori, exigem tratamento com antibióticos. A substituição de tratamentos comprovados por soluções sem embasamento científico pode não apenas piorar o quadro, mas também atrasar diagnósticos cruciais, especialmente em pacientes idosos, que são mais vulneráveis a lesões graves.
Especialistas jurídicos alertam que a produção e disseminação desses conteúdos podem configurar crimes graves. Thiago Bottino, professor da FGV Direito Rio, explica que, enquanto o conteúdo em si não é ilegal, a atuação de uma pessoa (ou IA) como médico, prescrevendo medicações ou tratamentos sem ser profissional habilitado, se enquadra como exercício ilegal da medicina. Além disso, a falsa identidade é outro crime possível, já que os criadores se apresentam como médicos com anos de experiência, sem revelar a natureza artificial dos avatares.
Filipe Medon, também professor da FGV Direito Rio e coordenador adjunto do AI Hub, ressalta que o dano reside na criação de uma persona que simula uma pessoa real para enganar, levando os espectadores a adotarem condutas que prejudicam a saúde. Para ele, um aviso claro sobre a natureza de IA do personagem alteraria a natureza do conteúdo.
A responsabilidade civil das plataformas como o YouTube também está em debate. Medon aponta que, após a recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o Marco Civil da Internet, as plataformas podem ser responsabilizadas caso não removam conteúdos que configurem falsa identidade após serem notificadas. No caso de impulsionamento pago, a responsabilidade seria ainda maior, exigindo a remoção mesmo sem notificação prévia. O Google, proprietário do YouTube, afirma que todos os conteúdos devem seguir as diretrizes da comunidade e que adicionou rótulos para indicar material gerado por IA. A empresa já removeu alguns dos maiores canais mapeados pela pesquisa após contato da reportagem.
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A produção desses vídeos é altamente sistematizada, muitas vezes sem qualquer revisão médica ou ética, em um esquema deliberado de copiar e adaptar roteiros com o auxílio da IA. A reportagem identificou dezenas de vídeos em português com avatares de médicos que possuíam títulos e conteúdos quase idênticos a outros publicados em canais estrangeiros, às vezes com meses de antecedência. Em algumas adaptações, até mesmo exemplos e estatísticas dos Estados Unidos são mantidos, sem qualquer contextualização para o público brasileiro.


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