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Muito antes de os fundadores da Kalshi e da Polymarket nascerem, um grupo de economistas já se entusiasmava com uma abordagem inédita para lidar com uma das limitações mais evidentes da humanidade: a dificuldade de prever o futuro.
A ideia era que o livre mercado poderia ajudar — afinal, era o fim dos anos 1980, o auge do reaganismo e do capitalismo triunfante. Foi assim que nasceu o mercado de previsões americano moderno.
Quase 40 anos depois, o setor que esses acadêmicos ajudaram a inspirar se tornou um negócio de bilhões de dólares, impulsionado sobretudo por apostas esportivas — e tem pouco a ver com o que eles imaginaram.
Desde então, os mercados de eventos se expandiram para praticamente qualquer tema. Não são bolas de cristal perfeitas, e a sabedoria das multidões pode ser enganosa, mas acumularam algumas vitórias notáveis.
A Polymarket, por exemplo, superou as principais pesquisas e analistas ao prever a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais de 2024. Traders também anteciparam com consistência dados econômicos relevantes, como a taxa de inflação dos EUA e as decisões de juros do Federal Reserve.
Mas quando os 19 economistas descreveram seu cenário ideal, o fizeram com salvaguardas claras em mente.
Com a explosão das apostas esportivas na Polymarket e em plataformas similares, e sem praticamente nenhum teto para as apostas, as coisas não saíram como planejado.
Os esportes são um aspecto particularmente preocupante para especialistas em saúde pública.
Nos últimos 30 dias, mercados esportivos e combinações de apostas esportivas representaram cerca de 84% do volume total negociado na Kalshi, ou aproximadamente US$ 18,5 bilhões, segundo dados da empresa de pesquisa TickerTracker.
Já para o site voltado ao público americano da Polymarket, lançado em maio, os mercados esportivos corresponderam a cerca de 99% do volume total negociado no último mês, ou aproximadamente US$ 2,1 bilhões. No site internacional da Polymarket, a média anual de volume esportivo representa menos de 50% do total.
E como a lei americana não trata contratos financeiros da mesma forma que apostas, os mercados de previsão estão disponíveis para qualquer pessoa com mais de 18 anos.
Apostar em eventos futuros não é novidade, mas o modelo moderno que a Kalshi e a Polymarket utilizam pode ser rastreado até um almoço informal em 1988, em um restaurante em Iowa City chamado Airliner.
Foi lá que três economistas da Universidade de Iowa — Robert Forsythe, George Neumann e Forrest Nelson — se reuniram para comer, beber e reclamar do quanto as pesquisas haviam errado nas primárias democratas de Michigan no dia anterior, quando Jesse Jackson derrotou amplamente Michael Dukakis.
Os três lançaram o Iowa Political Stock Market, hoje chamado Iowa Electronic Markets, como um experimento para testar se a sabedoria coletiva se tornava mais precisa quando os participantes tinham dinheiro real em jogo.
Com apenas 200 participantes recrutados entre funcionários da universidade e apostas limitadas a US$ 500, o mercado de Iowa previu com precisão que George H.W. Bush obteria 53,2% dos votos populares.
A previsão para Dukakis errou por uma margem mínima: 45,2% contra os 45,4% reais. Forsythe, Neumann e Nelson estariam entre os 19 coautores do artigo de 2008.
Forsythe, como muitos economistas ouvidos pela CNN, ainda acredita na utilidade fundamental dos mercados de previsão. Mesmo Wolfers, provavelmente o mais crítico em relação aos danos causados por plataformas como a Kalshi e a Polymarket, defende a tese central.
Economistas também apontam vantagens potenciais na antecipação da demanda dos consumidores. No início deste mês, um bar em Manhattan realizou uma promoção prometendo pagar as bebidas dos clientes caso o Knicks vencesse o primeiro jogo das Finais da NBA.
Como proteção, o bar apostou US$ 5.000 na vitória do Knicks e lucrou US$ 8.000, quase cobrindo a conta das bebidas, segundo o New York Times.




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