Cintya Soares afinou seu talento com um piano comprado com sacrifício pelos pais. Hoje, aplica essa vocação no trabalho como mentora, ensinando professores e...

Meus pais podiam comprar uma casa ou um piano. Escolheram o piano. Essa frase parece exagero, mas é a minha história. 

Eu tinha 9 anos. Meu pai, que era advogado, sofreu um AVC quando eu ainda tinha 1 ano e se aposentou por invalidez. Na nossa família, quase tudo era contado. Dinheiro, tempo, planos.

Um dia, meu pai recebeu o valor de uma ação. Aquela quantia podia iniciar a casa própria. Também podia virar o instrumento que a minha professora dizia que eu precisava ter para estudar melhor. Ela era freira e enxergou algo em mim antes que eu mesma soubesse dar nome

Até hoje, eles não têm um imóvel próprio. Eu sei o peso disso. Aquele instrumento abriu caminhos que nenhuma de nós podia prever. Foi nele que estudei, comecei a trabalhar e entendi, muitos anos depois, que música também podia ser empresa.

Comecei a estudar piano aos 7 anos. Aos 12, já tocava na igreja. Aos 15, dei minhas primeiras aulas para amigos, conhecidos e pessoas da comunidade. No começo, era simples. Alguém pedia: “Você me ensina essa música?”. E eu ensinava. 

Pouco tempo depois, a escola onde eu estudava precisou de professores para alunos iniciantes. Fui chamada para ensinar piano. Ali descobri algo que muita gente demora para admitir: eu amava música, mas ganhar meu próprio dinheiro também me movia.

Não falo isso com vergonha. Em uma casa com recursos escassos, meu dinheirinho foi libertador, me deu autonomia e a sensação de que eu podia contribuir 

Meus pais sempre me deram liberdade para trabalhar. Dei aulas no meu quarto. O espaço era simples, mas a confiança deles era enorme.

Aos 17 anos, escolhi Fonoaudiologia. Eu já tinha diploma técnico em música e pensei que talvez fosse melhor abrir outras possibilidades. Gostava de crianças e vi ali uma área próxima do que eu já fazia. 

Aos 22, percebi que não queria seguir a carreira clínica. Por um tempo, achei que aquilo tinha sido um desvio. Hoje, vejo como parte da minha trajetória. A Fonoaudiologia me deu repertório sobre desenvolvimento infantil, fala, escuta e aprendizagem. 

Sem esse caminho, talvez eu não tivesse criado minha primeira metodologia em educação musical. Na época, eu nem chamava de “metodologia”. Eu apenas juntava o que via em sala de aula com o que aprendia sobre criança, corpo, som e vínculo

Mais tarde, essa construção se tornou o Método Criança e Música. Hoje, minha trajetória reúne o método e duas pós-graduações com chancela do MEC. 

Mas nada nasce pronto. Veio do chão da sala, do contato com os alunos, das tentativas, dos erros e da coragem de ajustar a rota. 

Aos 21, entrei no regime CLT como professora de música em uma escola regular. Dei aula para Educação Infantil e Fundamental 1. Foi uma fase importante, mas cheia de perrengues.

A instituição nem sempre tinha os materiais que eu queria usar. Eu criava alternativas com o que existia: instrumentos de sucata, atividades adaptadas e formas possíveis de fazer as crianças viverem a educação musical. 

Também errei na condução de algumas aulas, na forma de lidar com alunos e na expectativa sobre o que uma turma conseguiria absorver. Só que a experiência tem uma generosidade dura. Ela ensina, mas cobra presença

Em determinado momento, eu trabalhava em quatro escolas ao mesmo tempo, mantinha alunos no estúdio e ainda tocava em casamentos no final de semana. A agenda era pesada. Havia reconhecimento, mas também limite. 

Minha vida parecia segura, só que pequena demais para o que eu sonhava… Por muitos anos, carreguei uma crença silenciosa. Se eu saísse do CLT, talvez não conseguisse me aposentar. Talvez não sustentasse uma carreira. Talvez perdesse a estabilidade. 

A carteira assinada era quase um colete salva-vidas. Mesmo desconfortável, eu tinha medo de soltar.

Em 2015, eu estava grávida da minha filha e a última escola regular em que trabalhei passava por uma crise. A proposta era reduzir meu salário. Olhei para aquilo e pensei que, se fosse para baixar ainda mais, não compensaria. Pedi que me mandassem embora.