Milo J diz odiar ser rotulado e que quer buscar um som, não um gênero musical
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Camilo Joaquín Villarruel diz que odeia ser rotulado como uma coisa só. Aos 19 anos, o artista conhecido como Milo J, que nasceu em Morón, na periferia de Buenos Aires, virou um fenômeno ao despontar como um dos principais nomes da nova geração do trap e do rap na Argentina. Agora, sua carreira ganha projeção mundial na esteira do lançamento de um disco guiado pelo folclore argentino e outros gêneros tradicionais da América Latina.
Autodidata, Milo nunca fez aulas de canto. Começou a participar de batalhas de rap na adolescência e passou a publicar músicas nas redes sociais em 2021. No ano seguinte, viralizou no TikTok com o hit "Milagrosa", que o tirou do circuito underground. Depois, vieram os álbuns "111", em 2023, e "166", em 2024.
O seu trabalho mais ambicioso e conceitual, "La Vida Era Más Corta", foi lançado há um ano, meses depois de o artista fechar um contrato com a gravadora Sony. No álbum, Milo parte de gêneros tradicionais como a chacarera, a milonga —gênero do Rio da Prata que antecedeu o tango— e as murgas, dando a eles uma roupagem moderna.
O disco reúne participações importantes, entre elas a do rapper Trueno e a do cubano Sílvio Rodríguez, um dos mais conhecidos cantores da ilha caribenha. Há ainda uma colaboração póstuma de Mercedes Sosa. Uma gravação feita em 2007, nos bastidores do teatro Gran Rex, para um projeto que nunca chegou a ser lançado, foi resgatada para "Jangadero", faixa que encerra o álbum.
A mistura de referências fez parte de uma descoberta pessoal que aconteceu durante a produção do disco. "Foi todo um caminho. Uma descoberta própria", diz ele em entrevista em São Paulo. "Sempre me caracterizei por fazer vários gêneros, mas dentro de um mesmo molde. E acho que com ‘La Vida Era Más Corta’ desbloqueei todo um mundo de como fazer música, de como compô-la, por onde levar as letras, como encaixar as mensagens."
O movimento evoca uma tendência de voltar às raízes protagonizada por alguns artistas contemporâneos, como Bad Bunny com "Debi Tirar Más Fotos" e Jorge Drexler com "Taracá", álbum imerso no candombe, ritmo afro-uruguaio.
Mas o resgate não é apenas de estilo. Milo canta, com sua voz grave, sobre pertencimento, morte e identidade. O artista conseguiu driblar a barreira linguística e cultural que sempre distanciou o Brasil do restante da América Latina, construindo uma identidade que dialoga também com o público brasileiro.
Ele se apresentou no segundo fim de semana do Rock in Rio e depois aterrissou em São Paulo para duas noites esgotadas na Audio, como parte da programação do festival Mucho! Ciudad Sonora. Na capital paulista, o público cantou as músicas a plenos pulmões, letra por letra, e a reportagem contou algumas dezenas de pessoas chorando em diversos momentos do show. Visivelmente mais à vontade do que no evento carioca, Milo interagiu bastante com a plateia e prometeu voltar.
"Eu não esperava de jeito nenhum o amor que estou recebendo do Brasil. É uma loucura", diz Milo. "Me fizeram recuperar a vontade de estar em turnê." O artista conta que a música brasileira sempre teve forte influência em sua vida, especialmente a bossa nova, o funk e o samba, e cita especificamente o mestre Barrão, da capoeira, e o álbum "Samba de Raiz". "Um dos meus sonhos era cantar aqui."
Tímido, Milo não parece deslumbrado com a fama, tampouco nega o desgaste que sente com a exposição. "Nunca me dei bem com o fato de minha vida ser pública", afirma.
O rápido sucesso fez com que o cantor tivesse que deixar a escola, e ele reconhece que perdeu etapas de sua vida como jovem. "Minha adolescência se perdeu de alguma maneira. Também pela minha autocobrança, sabe? 'Tenho que trabalhar, tenho que me dedicar a isso.' Existem muitos aspectos da vida que você vive em certa idade e que eu nunca tive."
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Mas Milo ressalta, logo em seguida, que não há do que se arrepender. "Vivi coisas incríveis com pessoas incríveis."




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